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Por que Castelo Rá-Tim-Bum fez tanto sucesso? Livro investiga o fenômeno

Rodrigo Casarin

17/12/2019 10h10

Para o jornalista Bruno Capelas, mergulhar na história de "Castelo Rá-Tim-Bum" foi submergir em parte essencial da própria infância. Bruno nasceu em 1992 e cresceu tendo personagens como Nino e Zequinha – além de Gato Pintado, Pedro, Bongô e o Porteiro, seus favoritos – como amigos que encontrava quando ligava a televisão após chegar da escola. Programa infantil lançado pela TV Cultura em 1994, "Castelo Rá-Tim-Bum" logo se tornou um dos maiores sucessos da televisão brasileira. Ao longo de 90 episódios, acompanhamos o cotidiano cheio de arte e magia da turma que vivia no castelo do Dr. Victor, personagem interpretado por Sérgio Mamberti.

No trabalho de conclusão de curso da faculdade de Jornalismo, Bruno decidiu investigar o que estava por trás do sucesso do programa dirigido por Flávio de Souza e Cao Hamburger. "Na época, só sabia que precisava ser algo de que eu gostasse muito, para conseguir passar alguns meses debruçado sobre o tema. Estava vendo TV com a minha irmã, dez anos mais nova, e estava passando o 'Castelo'. Em vez de tirar do canal, como eu sempre fazia, assisti com ela ao episódio até o final e aquilo me intrigou. 'Eu gosto tanto disso, mas por que é que eu continuo gostando disso como adulto?'. Fui buscar referências sobre e não encontrei nenhuma, então achei que era meu trabalho resolver esse problema. Até me surpreendi com o fato de não haver nenhum livro que contasse bem a história do 'Castelo"', diz em entrevista ao Página Cinco.

Bruno, então, foi a campo. Entrevistou mais de 30 profissionais diretamente envolvidos na concepção e execução do programa – que contava com uma equipe de 250 pessoas -, descobriu detalhes que vão desde os figurinos até os cenários e as rotinas de gravação, entendeu como roteiros eram elaborados e de que maneira o elenco foi selecionado. Constatou que uma conjunção de fatores possibilitou que "Castelo" fizesse tamanho sucesso. "Dá para brincar que o 'Castelo' é um pouco como o grande disco pop de uma banda que passou algum tempo experimentando no underground", compara, lembrando do talento da equipe responsável pelo projeto.

O resultado de todo o trabalho de Bruno está agora no livro "Raios e Trovões – A História do Fenômenos Castelo Rá-Tim-Bum", que acaba de lançar pela Summus, razão da nossa conversa abaixo:

Por que mergulhar na história do "Castelo Rá-Tim-Bum"?

Primeiro, por conta do sucesso que o programa fez. Para quem é da geração que nasceu entre o fim dos anos 1980 e o meio dos 1990, o "Castelo" é uma referência difícil de contornar. Segundo, porque é a história de uma produção muito paulistana e muito brasileira, cheia de gente que estava fazendo arte de vanguarda anteriormente – das experiências videomakers de Fernando Meirelles e Marcelo Tas ao teatro paulistano, com grupos como Oficina e Pod Minoga, passando pela música do Lira Paulistana (do grupo Rumo, de onde saiu o Hélio Ziskind) e pelo cinema mais independente, como os curtas de massinha do Cao Hamburger no início da carreira. Extrapolando um pouco, dá para brincar que o "Castelo" é um pouco como o grande disco pop de uma banda que passou algum tempo experimentando no underground.

Terceiro, porque em uma época em que propriedades intelectuais são louvadas e extraídas até o extremo (pense em quantos filmes de Marvel e Star Wars a Disney fez nos últimos anos), é interessante entender como as nossas próprias contribuições à cultura pop foram feitas. Isso se torna ainda mais curioso quando se pensa que foi algo feito por uma TV pública, num momento que o Brasil enfrentava uma de suas piores crises econômicas. De quebra, em uma época em que a gente prega cada vez mais a necessidade de "educação", olhar para um programa que tem um viés educativo sem ser chato me parece algo muito interessante. É legal entender que aprendi a gostar de poesia porque ouvi Manuel Bandeira desde pequeno ou de arte porque todo programa mostrava arte de gente como Gaudí, Da Vinci e Dalí. Mas esses todos são motivos muito "sérios". Espero também ter feito um livro que atende ao leitor que assistiu muito ao "Castelo" como eu, mas que busca conhecer curiosidades sobre a produção, como detalhes de cenários, bastidores e escolha dos atores, só recuperando aquela nostalgia de sentar na frente da TV e dizer "noooooooooooooossa!".

O que mais te surpreendeu ao longo das pesquisas? Quais as histórias reveladas que você considera mais interessantes?

Acredito que o principal aspecto que me chama a atenção é a quantidade de gente envolvida num projeto desses para que ele desse certo. Normalmente, ao analisar uma obra audiovisual, a gente foca no trabalho dos diretores, roteiristas, atores e algum ou outro técnico. Conforme eu ia pesquisando sobre o "Castelo", porém, eu percebia que gente que estava nos bastidores era tão importante para a memória que eu tinha do programa quanto os nomes que apareciam na linha de frente.

Tem três histórias que eu adorei contar. Uma é a do Philippe Barcinski, que hoje é um diretor de cinema e TV consagrado, mas era o "estagiário" do "Castelo" e foi um dos principais responsáveis pelas escolhas de atores. Outra é a do Silvio Galvão, o aderecista e responsável pelos efeitos especiais: é um cara autodidata, capaz de criar sozinho a maquete do "Castelo" e a árvore da Celeste, que ficava no hall. E a terceira é a do núcleo de bonequeiros, responsável pro alguns dos personagens favoritos das pessoas, como Celeste, Mau, Porteiro e Godofredo – nomes como o Jésus Sêda, o Fernando Gomes e o Alvaro Petersen Jr, que aprenderam vendo "Vila Sésamo", participaram do "Bambalalão" e seguiram nessa arte milenar com um toque próprio.

À parte as histórias pessoais dos integrantes do "Castelo", também foi muito bacana entender como a Cultura se organizou para conseguir produzir tanta coisa entre o final dos anos 1980 e o começo dos 1990 – programas que até hoje compõem a grade básica da emissora, como "Roda Viva", "Metrópolis" e "Jornal da Cultura", foram criados justamente nessa época. É uma filosofia que parte da cabeça do presidente Roberto Muylaert, que percebeu que só depender das verbas do governo não seria suficiente e foi atrás do apoio de empresas e fundações, como Walita, Brastemp e FIESP. Ao mesmo tempo, ele soube valorizar o talento interno.

Isso para não falar em bastidores curiosos, como o fato de que o Zequinha quebrou o braço durante as gravações, de que o cenário do "Castelo" chegou a ser inundado por conta de uma enchente e que, por pouco, a intérprete da Penélope não foi a Denise Fraga.

Repetindo a primeira pergunta do primeiro apêndice, mas pedindo uma resposta mais breve do que a do livro: Por que o "Castelo" deu [tão] certo?

Uma das razões para o "Castelo" ter dado certo é porque quase todo mundo que trabalhou nele esteve antes em outros programas da Cultura. Lembra que falei de valorizar o talento interno? Mas não só isso. Como explico no livro, é uma conjunção de fatores.

O primeiro é o momento da TV Cultura: quando o "Castelo" começou a ser produzido, a emissora já contava anos da boa gestão de Roberto Muylaert, inclusive com a capacidade de criar profissionais experientes dentro de casa e uma grade de programação voltada ao público infantil. Quando o "Castelo" estreou, ele passava às 19h30 e era precedido por horas de programação para crianças. Assim, quando o episódio novo passava, ele era assistido tanto por quem estudava de manhã quanto pelos pequenos que saíam da escola no final da tarde. Isso "carregava" a audiência e permitia que o "Castelo" alcançasse bons índices no Ibope.

Além disso, essa cultura de formar profissionais dentro de casa permitiu que muita gente experimentasse ali dentro – até hoje, quando assisto ao "Rá-Tim-Bum", acho um programa muito radical para sua época, com os quadros rápidos de 30, 45, 90 segundos no máximo. É algo que parece muito com a internet de hoje em dia – Instagram e TikTok estão tornando cada vez mais populares os mesmos vídeos curtos. E o próprio "Castelo" tinha um formato inovador, que misturava quadros e ficção, aproveitando o melhor das duas grandes produções da emissora até ali – o "Rá-Tim-Bum", que só tinha quadros, e o "Mundo da Lua", que só tinha ficção. O "Castelo", vale lembrar, era para ser só o "Rá-Tim-Bum 2", mas acabou se tornando um programa próprio por conta da quantidade de ideias novas que rolaram na cabeça do Cao e do Flavio de Souza.

Outra coisa bacana que diferencia o "Castelo" de outros programas é a estrutura pedagógica, inspirada no construtivismo do Jean Piaget – ou seja, a ideia de que dá para ensinar qualquer coisa para a criança, desde matemática até sentimentos complexos, desde que aquilo esteja no contexto dela. (E é assim que dá para colocar Bandeira ou Leminski na frente das crianças e ainda assim dar tudo certo. Um respeito à inteligência absurdo – e as crianças são criaturas bem mais inteligentes que nós adultos).

Tem também algo que eu chamo de "inconsciente coletivo" dos profissionais ali presentes, gente que se formou no momento da abertura política e que tinha o ideal de fazer arte relevante num momento crucial da história brasileira. É algo que está não só na experimentação, mas também no compromisso – durante as entrevistas do livro, não foram poucas as vezes em que ouvi que as pessoas trabalhavam demais, por longas jornadas, mas sempre com um sorriso no rosto. Não porque achavam que o programa ia ser um sucesso, mas porque era uma oportunidade de fazer algo bem feito. Muitas dessas pessoas tiveram ainda uma característica importante: foram a primeira geração que fez TV depois de ter crescido na frente da telinha, o que dá uma percepção diferente do que funciona. Outra questão de momento importante é o status da mídia na época – em 1994, TV paga ainda era coisa para muito poucos e internet estava restrita à academia e algumas empresas, então toda criança que assistia alguma coisa estava na frente da TV. É o que permite que o "Castelo" seja popular tanto entre "crianças ricas e pobres" – outros sucessos posteriores são mais nichados, porque passavam na TV paga ou na internet só.

O que o "Castelo" nos deixou de mais importante, seja para a televisão, para o meio artístico ou para aqueles que assistiam ao programa?

Para quem assistiu ao programa, o que o "Castelo" deixou de mais importante é um aprendizado imenso. Não só em termos culturais, mas também em questões sociais e emocionais – episódios que falam de preconceito, de respeito à diferença, de afeto familiar (é muito bonito que há uma família no "Castelo" sem pais nem mães, algo que contempla qualquer criança) são tão importantes quanto saber que "somar é legal". Também deixa uma série de personagens marcantes e meio malucos – se há algo que o "Castelo" não é, é careta, formando gente que pode assistir qualquer coisa quando adulto.

Para o meio artístico, o "Castelo" (e a Cultura, de modo geral) foi holofote que muita gente precisava para dar grandes saltos na carreira. Se você parar pra pensar, alguns dos principais filmes do cinema nacional recente saíram de gente que trabalhou ali dentro ("Xingu", "Cidade de Deus", "Que Horas Ela Volta?" e "Não Por Acaso", só para ficar em quatro exemplos). O Cao Hamburger ganhou dois Emmys Internacionais e dirigiu cerimônia nas Olimpíadas, a Anna Muylaert dirigiu filme que ganhou prêmio em Sundance. Os atores seguiram carreiras incríveis – e eu não consigo deixar de lembrar da Mamushka de "Da Cor do Pecado", feita pela Rosi Campos, por exemplo.

Para a televisão, o Castelo deixou um legado de possibilidades: é possível fazer boa TV, inovadora, experimental e ainda assim acessível, com qualidade mesmo num país como o Brasil. Não à toa, os melhores exemplos de TV infantil feitas nas décadas seguintes por aqui tinham sempre alguém do "Castelo": "Disney Cruj", "Menino Maluquinho", "Peixonauta", "Cocoricó", a reedição do "Vila Sésamo", "Que Monstro Te Mordeu?"… Hoje, a mídia pode funcionar em outro paradigma, mas o modelo de inspiração é mais ou menos parecido.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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