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Bolsonaro volta a atacar de influencer e causa disparada em venda de livro

Rodrigo Casarin

10/12/2019 08h35

Jair Bolsonaro voltou a atacar de influencer de livros.

A primeira vez que o atual presidente demonstrou talento para tal foi antes do primeiro turno das eleições passadas, quando levou à bancada do Jornal Nacional um exemplar de "Aparelho Sexual e Cia", de Hélène Bruller. Enquanto os apresentadores argumentavam que o então candidato não poderia exibir nenhum tipo de documento ou objeto ao longo da entrevista, conforme o combinado, Bolsonaro vociferava contra a obra. O resultado logo veio. Se até então poucas pessoas conheciam o título publicado pela Companhia das Letras, em poucas horas ele era assunto em todo o país. Não demorou para que recebesse novas reimpressões e vendesse bem em nossas livrarias.

A vida seguiu com, vez ou outra, bolsonaristas de diversos escalões falando bobagens sobre determinados livros – provavelmente jamais lidos por esses mesmos bolsonaristas. É um movimento tosco, inquisitório, preocupante, mas que às vezes tem efeitos inesperados. Agora estamos vivendo mais um fenômeno provocado pelo influencer que ocupa a presidência.

Na sexta passada, dia 6, Bolsonaro utilizou sua página no Facebook para postar o seguinte: "Ministro da Economia da Argentina, Martin Guzmán, recomenda o livro da Laura Carvalho, economista do Psol na última campanha". Junto da mensagem, uma foto um pouco desfocada do trabalho publicado no ano passado pela Todavia. Guzmán, indicado na última semana ao ministério de seu país, recomendou o livro de Laura no Twitter no final de maio deste ano: "Livraço. Economia brasileira e macroeconomia para todes", escreveu. A autora, por sua vez, não é economista do Psol, mas doutora em economia pela New School for Social Research e professora da USP. Ela ajudou, isso sim, a elaborar o plano econômico da chapa encabeçada por Guilherme Boulos nas últimas eleições.

O resultado do post de Bolsonaro? Em pouco tempo o livro virou assunto nas redes sociais e começou a galgar posições entre os mais vendidos da Amazon. Na manhã de sábado já aparecia entre os 100 mais comercializados. Pouco tempo depois chegou ao top 10. Depois, ao top 5. E, enfim, desbancou títulos como "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas", de Dale Carnegie (Companhia Editora Nacional), e "Escravidão", de Laurentino Gomes (Globo Livros), para alcançar o topo das vendas. Enquanto escrevo este texto, ele segue ocupando uma honrosa quinta colocação.

Antes do gás propiciado pela postagem de Jair Bolsonaro, "Valsa Brasileira – Do Boom ao Caos Econômico" já trilhava um caminho admirável. Sem contar com influencers de dimensões presidenciais, tinha vendido mais de 20 mil exemplares, número relevante para nosso mercado editorial e que se torna impressionante se levarmos em conta que não estamos diante de um romance água-com-açúcar ou de uma autoajuda. No texto, a autora apresenta ao leitor uma análise bastante aprofundada sobre o que aconteceu com nossa economia entre o segundo mandato de Lula e os anos com Dilma e Temer à frente do país. A obra também figurou entre os finalistas do Prêmio Jabuti deste ano em Humanidades, categoria vencida por Pedro Ferreira de Souza com "Uma História da Desigualdade: A Concentração de Renda Entre os Ricos no Brasil 1926 – 2013" (Hucitec), que acabou vencendo também como Livro do Ano.

Parece-me que faria bem ao próprio Bolsonaro ler o que Laura escreveu em "Valsa Brasileira". Bastante crítica a diversas decisões tomadas pelo governo petista, a autora não se limita a discutir os caminhos para as melhorias econômicas, mas também reflete sobre quem são os grandes beneficiados por essas melhorias e a quais interesses as medidas tomadas pelos governos atendem (abordagem, creio, preocupante para Paulo Guedes, o atual ministro do setor).

"A arrogância dos sábios parece estar na origem de grande parte da tragédia que assistimos desde a crise de 2008. A alienação dos discursos políticos e das soluções implementadas com relação aos problemas concretos enfrentados pela população – a renda baixa, o emprego precário, o endividamento crescente e a falta de acesso à educação, saúde, moradia e transporte de qualidade – tem sido um prato cheio para o crescimento de alternativas retrógradas", escreve a autora no último capítulo do volume.

Em seguida, Laura cita um artigo no qual Dani Rodrik, professor de economia política na Harvard Kennedy School, indica que economistas e tecnocratas de esquerda têm boa parcela de culpa por tudo o que está acontecendo, principalmente por terem cedido facilmente ao fundamentalismo de mercado. A boa notícia, segundo Laura, é que soluções ousadas elaboradas por economistas progressistas vêm sendo incorporadas por candidatos a cargos decisivos, como a presidência dos Estados Unidos.

Olhando para o país de 2018, a economista constata a situação que provocou a ascensão do próprio Bolsonaro e se agravou rapidamente em seu governo. "No Brasil, retrocessos negociados entre quatro paredes e escondidos sob o véu da técnica ainda são o caminho escolhido por grande parte dos analistas e da classe política que governa. A leitura parece ser a de que se aproveitar da aflição das pessoas com a gravidade da crise para enfiar-lhes medidas antidemocráticas goela abaixo não terá consequências mais dramáticas no futuro. Em um país com fissuras sociais tão profundas e que nunca deixou de apresentar altos índices de violência, imaginar que a perda de direitos e uma piora no padrão de vida passarão despercebidas é multiplicar por mil o wishful thinking que se abateu sobre a elite intelectual norte-americana e inglesa".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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