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AI-5? Livro relata como militares sequestraram crianças durante a ditadura

Rodrigo Casarin

04/12/2019 08h20

Na Argentina, crianças de até quatro anos sequestradas por membros do Exército deveriam ser entregues a orfanatos ou à família de militares, enquanto as mais velhas, principalmente se acima de dez anos, deveriam ser mortas, pois "já estariam 'contaminadas' pela subversão de seus pais". Numa ditadura que deixou mais de 30 mil desaparecidos, ainda hoje familiares de gente "sumida" pelos fardados se reúne na Praça de Maio, a principal de Buenos Aires, para protestar e reivindicar seus direitos.

Até pouco tempo atrás, o sequestro de crianças era tido como algo comum às ditaduras da América Latia, exceto a brasileira. Alimentando a falácia de que nossas mazelas históricas são mais brandas – ditadura mais branda, escravidão mais branda… –, o rapto de indefesos não faria parte do leque de crueldades cometidas pelos nossos militares. O jornalista Eduardo Reina estranhava essa afirmação e foi a campo investigá-la. Rodou mais de 20 mil quilômetros, ouviu muita gente, vasculhou muitos arquivos, confrontou versões e mapeou o sequestro de 19 bebês, crianças e adolescentes feito por agentes da ditadura. Encontrou seis dessas vítimas.

O resultado da investigação está em "Cativeiro Sem Fim", publicado no começo do ano pela Alameda em parceria com o Instituto Vladimir Herzog. Se a obra não brilha pela forma – é uma reportagem bem escrita, não um desbunde narrativo –, por conta do seu conteúdo se coloca como um livro essencial. Com um governo que a cada semana fala sobre a volta do AI-5, o Ato Institucional responsável por radicalizar as barbáries que os militares cometiam no país após o Golpe de 1964, o trabalho de Reina, que resgata mais uma atrocidade da nossa história cometida pelo próprio Estado, se torna ainda mais importante.

No Brasil o comando também era para matar os filhos dos guerrilheiros, comando nem sempre obedecido. "Para algumas das vítimas, a sobrevivência provocada pelo não cumprimento da ordem de extermínio funcionou como um prêmio. Mas as manteve longe das famílias biológicas e com um passado desconhecido. Esses brasileiros sequestrados vivem até hoje num cativeiro sem fim", escreve o autor.

As pesquisas levaram Reina ao centro do país, onde militantes do Partido Comunista atuavam como guerrilheiros. "O que ocorreu no Araguaia talvez seja o episódio mais violento da ditadura militar no Brasil, considerando tanto as violências praticadas contra os guerrilheiros quanto aquela contra a população da região. Há relatos de inúmeras torturas, assassinatos, incêndios de casas e roças, expulsão de moradores de suas residências, prisões arbitrárias, existência de um campo de concentração e utilização de Napalm (bombas inflamáveis de fósforo usado na Guerra do Vietnã) para desfolhar árvores na floresta. Houve até a aplicação de injeção letal contra opositores do regime militar".

Dentre as crianças sequestradas pelos militares estão filhos de guerrilheiros, de camponeses que moravam na região e até de indígenas de Marãiwatsédé. A ideia era que os raptos alimentassem o terror que o Estado infligia contra aqueles que considerava inimigos. Com um discurso sórdido, também falavam em criar os filhos longe da ideologia dos pais para que pudessem construir uma sociedade harmônica. Assassinato e tortura de mulheres grávidas faziam parte das "táticas" utilizadas pelos militares.

Em mais uma comprovação de como a ditadura que acabou oficialmente em 1985 está muito longe de se esgotar, Reina relata o clima de vigia constante ao qual a população do Araguaia é submetida. "Passados mais de quarenta anos do movimento guerrilheiro, ainda persiste a atuação de agentes militares na região. Há nítida intenção de intimidação sobre as pessoas que têm algum tipo de informação que possa esclarecer fatos sobre a guerrilha e sobre o sequestro de bebês, crianças e adolescentes filhos de guerrilheiros e de camponeses que estiveram ao lado daqueles que lutavam contra o regime militar".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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