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Poemas são a chave para ninguém confundir Brecht com Bertoldo Brecha

Rodrigo Casarin

06/12/2019 10h17

Antes de termos um ministro da Educação faminto, que se engasga com acepipes e troca Kafka por kafta, um deputado estadual do Rio de Janeiro já tinha dado uma amostra do que nos aguardava. No final de 2017, André Lazaroni, então secretário de Cultura do estado, subiu no palanque e resolveu colocar Bertolt Brecht, um dos maiores escritores da língua alemã, em seu discurso. Passou vergonha. Empolgado, enquanto berrava e gesticulava, trocou o autor de "Conversas de Refugiados" por uma outra figura, esta bem mais familiar a milhões de brasileiros: Bertoldo Brecha, personagem de "Escolinha do Professor Raimundo".

Na ocasião, quem quisesse conhecer a obra de Brecht já encontrava opções em nossas livrarias, como os diversos títulos publicados pela 34. Agora, uma nova alternativa chega ao mercado: "Poesia", que sai pela Perspectiva em edição bilíngue com organização, tradução e introdução de André Vallias. Disposto em ordem cronológica, com escritos que vão de 1912 a 1956, produzidos em cidades como Munique, Berlim, Santa Monica (Estados Unidos) e Zurique, o volume traz diversos fragmentos de diários e anotações autobiográficas de Brecht, além de 300 poemas. Destes, cerca de duzentos não constavam nas principais antologias do autor por aqui publicadas, as organizadas por Geir Campos em 1966 e Paulo César de Souza em 1986.

Na hora de escolher quais poemas entrariam no volume, Vallias mesclou critérios objetivos e subjetivos. "Escolhi poemas que me agradavam, poemas célebres demais para serem deixados de lado, poemas especialmente interessantes para ilustrar um determinado período, poemas que ainda não haviam sido traduzidos e, principalmente, poemas que julguei traduzíveis para o português. Minha fonte principal foi a edição das obras completas em 30 volumes da editora Suhrkamp, mas traduzi também um poema sobre Walter Benjamin que só recentemente foi encontrado e ainda não estava nessa edição", contou em entrevista ao blog.

Brecht nasceu em 1898 e, como as datas da cronologia do livro indicam, viveu um dos períodos mais conturbados do século 20, vendo a sua Alemanha natal ser peça-chave de duas guerras mundiais – atuou como enfermeiro na primeira delas, inclusive. Destacou-se entre a década de 1920 e o início dos anos 1930, quando presenciou a ascensão do nazismo. Perseguido pelos capangas de Hitler, viveu no exílio durante quinze anos. Regressou à Alemanha para se tornar um dos dramaturgos mais influentes e encenados do mundo, recorda Vallias.

Segundo o tradutor e organizador, a poesia de Brecht é reflexo direto desse percurso, além de ser bastante variada. "Há canções, baladas, elegias, epigramas, sonetos… Ela pode ser tão contundente quanto divertida, tão amorosa quanto combativa. Exalta valores que estão em baixa no mundo contemporâneo e se mostram cada vez mais necessários: o aprendizado, a alegria, o ímpeto transformador, a gentileza, a esperança…", elenca, mostrando como a obra do autor segue necessária e pungente. Dentre as marcas do texto de Brecht estão a preocupação social e as críticas ao poder – a famosa fábula "Se os Tubarões Fossem Homens" é um bom exemplo disso, aqui recitada por Antônio Abujamra:

Brecht morreu em 1956 e ao longo de 44 anos de produção deixou um acervo bem grande. São aproximadamente 2300 poemas, 48 peças, 50 fragmentos dramatúrgicos, três romances, 230 contos, roteiros e argumentos de filme, seis coleções de narrativa e diálogos, mais de 800 páginas de diários, cerca de 1200 artigos sobre temas como teatro, literatura, música, cinema, filosofia e política, além de uma gama de correspondências. Sua obra teatral já foi traduzida e publicada integralmente no país. Dos versos, Vallias considera que sequer faz sentido traduzir todos os poemas do autor para o português. Mas há ainda a prosa que merece, indiscutivelmente, ser melhor explorada por aqui. Nesse campo, "ainda falta traduzir muita coisa, como o 'Livro das Reviravoltas"', uma das obras mais originais de Brecht', aponta.

Leia um dos poemas que mais gostei de "Poesia":

A queima de livros

Quando o regime ordenou que todos os livros
Com informação nociva fossem queimados, e por toda
Parte forçaram bois a puxar carroças com livros
Para a fogueira, um poeta escorraçado, um dos melhores
Descobriu estarrecido, examinando a lista dos
Incinerados, que os seus haviam sido
Esquecidos. Ele voou para a escrivaninha
Enfurecido, e escreveu uma carta aos donos do poder.
Incinerem-me! escreveu com a pluma alada, incinerem-me!
Não façam isso comigo! Não me deixem para trás! Porventura
Não relatei sempre a verdade em meus livros? E eis
Que agora vocês me tratam como um mentiroso! Eu ordeno:
Incinerem-me!

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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