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Neymar e Coutinho mantêm vivo o chute de bico, essa maravilha do futebol

Rodrigo Casarin

03/07/2018 07h28

A ignorância é terrível. A ignorância é capaz de destruir as mais belas das criações humanas. E aparentemente estamos presenciando a ruína de um dos lances mais magistrais do futebol. Sim, estou falando do bico – ou biquinho, bicão, bicuda… tanto faz a intensidade, a beleza é a mesma. Para ser mais preciso, estou falando da maravilha que é um gol de bico.

Há quem diga que é feio chutar a bola de bico. Não concordo com isso de maneira alguma. É normal que um nó-cego, ao se deparar com a bola, dê um pontapé e a mande para algum lado qualquer. É difícil dominar a arte do bico. No entanto, quando o jogador sabe utilizar a ponta da chuteira – ou o dedão mesmo -, a jogada se torna magistral, ótima para acelerar o tempo do chute e pegar o adversário desprevenido. Jogadores de futsal sabem disso muito bem.

Alguns de campo também. Romário, contra a Suécia na Copa de 1994, fez história com um biquinho. Ronaldo Fenômeno trilhou o mesmo caminho em 2002, na dura semi contra a Turquia, resolvida com uma tacada cruzada.

Ainda assim, insistem em crucificar o gol de bico. Insistem em dizer que é coisa de quem não tem intimidade com a redonda. Em “A Bola e o Tempo”, crônica de Marcelo Moutinho presente no belo “Na Dobra do Dia” (Rocco), o narrador lembra com certo desdém da falta de habilidade do seu pai para o futebol. O velho nunca havia dado um passe de chapa, de peito de pé ou de três dedos, gostava de assistir ao jogo pela televisão, mas não era chegado numa pelada. “Meu pai só sabia chutar de bico”, estigmatiza o filho.

O narrador cresce trilhando seu próprio caminho com a bola. Joga na rua com seus vizinhos, usando gols feitos de madeira velha e redes de vôlei usadas. Não sendo um craque inato, ali, na insistência, aprende todas as manhas que seu pai jamais aprendeu. Nota também que, quando a coisa aperta, a solução está na ponta da chuteira:

“Às vezes, quando em meio à pelada a bola sobra na reta do corpo, curta demais para a perna direita e também para a canhota, eu abro mão de ajeitar mais um pouco e mando às favas a categoria. Chuto de bico, que nem o pai, só para lembrar dele”.

Pô, narrador! Pô, Moutinho! Tem que descer a bicuda mesmo, e não há nada num bico bem dado que ofenda a arte de futebol. Não é preciso mandar às favas a categoria para fazer como Ronaldo ou Romário. Ou de Philippe Coutinho, que nesta Copa já honrou nossa tradição de importantes gols de bico em mundiais.

No jogo encruado contra a Costa Rica, nos acréscimos do segundo tempo e com um zero a zero no placar, notou que a bola sobraria na área e disparou como se arrancasse para uma prova de 100 metros rasos. Se tivesse se preocupado em ajeitar o corpo para dar de chapa, talvez desse tempo de Navas fechar seu ângulo. Se tivesse optado pelo peito de pé, pode ser que o zagueiro chegasse travando a bola. Mas não. Seguiu com a passada totalmente natural, sincronizada, e deixou que a ponta do seu pé direito encontrasse a bola, que, com o chute rápido, ganhou velocidade e passou entre as pernas do goleiro costarriquenho. Mais um maravilhoso bicão para nossa coleção.

Contra o México, Neymar também tentou edificar seu bico consagrador em uma Copa do Mundo. Após receber o passe de Fernandinho e sair na cara de Ochoa, apostou na unha do dedão para colocar a bola nas redes. Infelizmente o goleiro mexicano resvalou na redonda, que sobrou de presente para Firmino anotar o tento, mas fica aqui o meu registro: Neymar, que tanto critico, mandou muito bem na maravilhosa bicudinha, merecia ter feito o gol.

Só que, até onde me lembro – e a memória não é o que tenho de melhor -, não houve mais nenhum bico digno de nota nesta Copa (tenho dúvidas sobre como Paulinho bateu na bola no gol contra a Sérvia). É uma pena. Uma pena porque, por mais que muitos sejam injustos e torçam o nariz para a tacada com a ponta do pé, uma bicuda bem dada é uma das coisas mais difíceis e belas do futebol, uma arte que realmente poucos dominam.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.