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Desapegue de Islândia e Panamá, o grande milagre das Copas se chama Uruguai

Rodrigo Casarin

29/06/2018 10h06

O time uruguaio de 1950.

Foi bonito acompanhar a Islândia estreando em Copas do Mundo. Realmente soa como um milagre ver um país de 330 mil habitantes que vivem no gelo durante boa parte do ano e que até outro dia tinha uma seleção formada quase que exclusivamente por amadores chegar ao torneio. Lembro de quando, em 2002, os islandeses vieram a Cuiabá disputar uma partida contra o Brasil e saíram massacrados por 6X1, pareciam o time da esquina jogando contra uma equipe profissional. A evolução é mesmo admirável.

Assim como foi lindo acompanhar o Panamá e a emoção dos seus 4 milhões de habitantes desde a épica classificação nas eliminatórias, onde deixaram para trás os pomposos Estados Unidos. Já na Rússia, mais belos momentos banhados em lágrimas, incluindo o gol de Baloy, que roubou a cena na goleada sofrida contra a Inglaterra. Só que agora a coisa é mais séria, agora é mata-mata. E desde que o torneio existe um outro pequeno e simpático país se destaca. Falo, claro, do Uruguai.

Se a Islândia tem a população dede um bairro de São Paulo, o Uruguai também é um nanico populacional, mesmo tendo dez vezes mais pessoas do que o país dos vulcões. Com seus 3,3 milhões de habitantes, o Uruguai hoje tem tanta gente em seu território quanto devemos ter aqui na zona norte da capital paulista. Só que, se fosse um país, aposto uma Cantillon Kriek Lou Pepe que a ZN jamais conseguiria construir uma história tão brilhante em Copas como a que o Uruguai construiu.

Lá atrás, foram bicampeões olímpicos em 1924 e 1928, quando as Olimpíadas faziam as vezes do mundial para o futebol, e organizadores e vencedores da primeira Copa, em 1930, disputada também por países gigantes, como Argentina, Estados Unidos, França e México. Já em 1950, o momento que é tragédia para os brasileiros, mas a glória máxima para os uruguaios: o Maracanazo. Reza a lenda que mais de 200 mil pessoas acompanharam no estádio a vitória de virada por 2X1 da Celeste, então, só na arquibancada havia o equivalente a 10% de toda a população dos nossos vizinhos naquela época.

Mario Benedetti.

“Quando eu era jovem os jogadores ganhavam muito mal. Lembro-me de que quando um jogador do Nacional se aposentou, os torcedores se cotizaram para lhe pagar uma casinha. O futebol deu uma identidade ao meu país, ganhamos dois títulos mundiais e dois olímpicos. O Maracanazo é o dia da pátria”, disse Mario Benedetti em uma entrevista publicada pela Folha de São Paulo em 2003.

Goleiro de peladas, torcedor de arquibancada fanático pelo Nacional e autor de alguns dos livros mais importantes da literatura uruguaia, como “A Trégua” (Alfaguara) e “Gracias por el Fuego”, Mario mostra com suas palavras a importância que o futebol tem para o seu país. Importância que ele retratou em seus escritos, em contos como “Puntero Izquierdo” e “Él Césped”, de onde retirei esse belo momento: “Tenho sonhos, sabe? Todos temos, disse Alê. Sim, mas os meus são sonhos de futebol”.

Após o Maracanazo, a Celeste chegaria às semifinais das Copas de 1954 e 1970, na qual perderia para o Brasil num jogo marcado pelo épico gol perdido por Pelé contra Mazurkiewicz, um dos lances mais emblemáticos de todos os tempos. Depois disso, um longo período de poucas glórias não só para o futebol, mas também para o Uruguai enquanto país, o que levou Benedetti a declarar em uma entrevista para o jornal argentino Página 12: “Não sei se o futebol vai se recuperar, não tenho muitas esperanças, mas o Uruguai se recuperará”.

O ano era 2006 e a Celeste, após ser eliminada na fase de grupos da Copa da Coreia e do Japão, sequer havia conseguido vaga para o mundial da Alemanha. No entanto, como sabemos, a volta por cima veio na África do Sul, com um honroso quarto lugar – uma pena que Benedetti morreu em 2009, um ano antes da histórica campanha. Desde então, sob a batuta do maestro Óscar Tabárez, os uruguaios voltaram a figurar como uma das forças do mundo da bola. Se por um lado raramente são favoritos, por outro sempre são colocados como time e camisa que devem ser respeitados e que podem ir longe.

Porque Panamá e principalmente Islândia são milagres pontuais, mas o Uruguai é o milagre que presenciamos desde que a Copa existe. Falando de seleções, o Uruguai é o grande milagre da história do futebol.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.