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Goleiro morador de rua e terremoto: as melhores histórias da Copa até aqui

Rodrigo Casarin

28/06/2018 09h05

Primeira fase do mundial chegando ao fim, hora de pedir ao garçom uma primeira parcial das ótimas histórias que rolaram na Copa até aqui. Sem delongas, vamos às que, na minha opinião, merecem destaque:

Ex-morador de rua – Filho de pastores nômades, Alireza Beiranvand passou a infância ajudando a família a alimentar suas ovelhas. Para realizar o sonho de ser jogador de futebol, rompeu com os pais, fugiu das montanhas onde morava e rumou para Teerã, onde, mesmo treinando em um clube, dormiu na rua até que tivesse condições de bancar um lar – disse, inclusive, que às vezes acordava com moedas ao seu lado; o confundiam com um mendigo. Anos depois… pegou um pênalti apenas de Cristiano Ronaldo nesta Copa e por pouco não viu sua seleção eliminar os portugueses.

Dirigindo zumbis – Outro goleiro que se destacou tanto pelo trabalho sob as traves – pegou um pênalti de Messi! – quanto pela sua trajetória pessoal foi Hannes Halldórsson. Antes de vestir profissionalmente a camisa um, Hannes trabalhou como cineasta e dirigiu comerciais e um thriller de fantasmas (assim que ele define a obra, não como algo de zumbi, como apontam por aí). E é bem provável que volte ao ofício quando pendurar as luvas. A Islândia, uma das seleções mais carismáticas desta Copa, contribui decisivamente para que a história tenha ainda mais graça.

Lágrimas panamenhas – A seleção da Islândia teve seu carisma, mas nenhuma nanica emocionou mais o mundo do que o Panamá. Quando ouviram o hino do país pela primeira vez numa Copa do Mundo, dignas lágrimas tanto entre os jogadores quanto entre os panamenhos que ficaram na América Central. Já na segunda partida, contra a Inglaterra, perdiam por 6X0, mas comemoraram como se tivessem vencido a Copa quando Baloy marcou o único gol da seleção na competição até aqui. É daqueles momentos que entram para a história dos mundiais.

Terremoto – Continuando na América Latina, a comemoração do gol que Lozano fez na Alemanha foi tão grande que institutos de sismologia detectaram um leve terremoto artificial na Cidade do México, certamente provocado pelos pulos de torcedores. Fazer a terra de seu país tremer já seria o suficiente para que os mexicanos estivessem por aqui, mas a seleção comandada pelo Profe Juan Carlos Osorio ainda causou polêmica ao fechar a preparação para o mundial com uma festa de arromba e ao levar Rafa Márquez, que não pode nem beber a mesma água do restante do elenco porque está fichado pela polícia dos Estados Unidos – o capricho é uma exigência dos patrocinadores. Não bastasse isso tudo, ainda são, ao lado dos belgas, os que apresentaram o futebol mais gostoso de se ver – esqueça a partida contra a Suécia – e possuem uma torcida maluca que grita olé com 30 segundos de jogo.

Política e bola – Voltando ao tom dramático, impressionou a trajetória de Xhaka, cuja família precisou deixar a Iugoslávia após seu pai ser preso, espancado e condenado a seis anos de confinamento por participar de manifestações pró Kosovo. O camisa 10 já nasceu na Suíça, país que acolheu seus pais, e no jogo contra os sérvios, após marcar um dos gols da vitoria por 2X1, fez o sinal da águia de duas cabeças, uma referência aos albaneses, principal etnia entre os kosovares, que ainda brigam pela total independência da Sérvia.

Apanhadão – Há outras histórias que merecem pelo menos parcas linhas. Um goleiro entrar em campo com 45 anos, se tornar o jogador mais velho a disputar uma partida de Copa e ainda pegar um pênalti é motivo para celebração – o autor do feito foi egípcio El Hadary, estrela do jogo entre sua seleção e a Arábia Saudita. Foi linda a carta que o atacante belga Lukaku escreveu recordando de quando, na infância, percebeu que sua mãe misturava água ao leite, sinal de que a família estava irremediavelmente quebrada, restando, em sua cabeça, apenas o sucesso no futebol como salvação. E também é lindo um vídeo que circula pelas redes mostrando dois guias-intérpretes auxiliando um cego a "enxergar" com as mãos o primeiro gol do Brasil contra a Costa Rica; cena de uma humanidade ímpar. Digno de registro também os suecos mandando racistas se fod… após insultos a Jimmy Durmaz.

Todas essas histórias dariam uma boa cena literária, um conto ou, quem sabe, até um romance. Contudo, admito, seria muita canalhice da minha parte justificar um post sobre futebol num blog de livros com esse argumento pífio. Então, deixo uma dica de leitura que passa não só pelas seleções aqui citadas, mas pelas 32 que foram para a Copa da Rússia, além de textos dedicados às não classificadas Itália, Estados Unidos e Argélia.

Organizado por Ana Luiza Rizzo e Irka Barrios, "Não Culpe o Narrador" (Class) nasceu da famosa Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil e conta com textos de apoio assinados pelo ex-jogador Tostão e por Mário Rodrigues, autor do ótimo "A Cobrança". O título é uma boa oportunidade para quem deseja conhecer novos escritores. Apenas para citar parte dos nomes presentes no volume, eis alguns dos que escreveram sobre países mencionados acima: Leandro Schulai (Irã), Marcos Fernando Kirst (Islândia), Laila Ribeiro (México), Kathy Krauser (Egito), Ana Cláudia Martins (França), Ana Luiza Rizzo (Brasil) e o trio André Roca, Taiane Maria Bonita e Cris Vasquez (Suécia).

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.