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O que há no romance de Pedro Cardoso, o ator que anda polemizando por aí?

Rodrigo Casarin

30/11/2017 10h30

Consagrado na televisão ao interpretar o personagem Agostinho Carrara em "A Grande Família", Pedro Cardoso vive em Portugal há mais de dois anos, mas está no Brasil há algumas semanas. Desde então, vira e mexe o ator aparece causando polêmica. Ganhou aplausos de muitos ao falar de socialismo no programa de Danilo Gentili, abandonou o Sem Censura, da TV Brasil, transmitido ao vivo, em apoio a grevistas da emissora, cutucou Luciano Huck ao ser entrevistado por Fábio Porchat, foi declarado persona non grata na Globo… Mas, diferente do que podem imaginar, Pedro não está por aqui para polemizar – ou não está por aqui apenas para polemizar. Ele também sobe ao palco na peça "O Homem Primitivo", em cartaz em São Paulo, e está lançando o romance "O Livros dos Títulos" (Record).

Pedro assume que escreveu a obra impactado por uma profunda preocupação com o futuro do Brasil e que gostaria de tratar sobre questões em pauta atualmente no país, como a calamidade da politicagem, as armadilhas e mentiras da modernidade, o poder que a propaganda exerce sobre as pessoas… Enfim, os problemas políticos e sociais que normalmente manifesta nas entrevistas que concede serviram de base para boa parte do que escreveu em "O Livro dos Títulos". E isso não é bom.

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Ainda que discorde em alguns pontos, no geral me identifico com as posições de Pedro. No entanto, ele leva o discurso de forma muito crua para o livro, sem a sutileza e a complexidade que esperamos em uma obra literária. "O Livros dos Títulos" é arquitetado em cima de dois personagens planos: Genuíno, um jovem que após se desiludir amorosamente passa a vida lamuriando, e Constança, editora que desfila tratados sociológicos para cada cena que presencia na realidade caótica de um Rio de Janeiro ainda mais violento e partido do que temos hoje – para o final da obra, é ela quem vislumbra tudo colapsado com a "Guerra Civil Brasileira".

Nas falas e pensamentos dessa editora que praticamente vemos refletir o que Pedro vem dizendo aos quatro ventos por aí. Um exemplo: "No momento atual, as denúncias de perversão no uso do Estado tem sido tantas que faz parecer que o país foi acometido por um surto oportunista de desonestidade; quando sabemos muito bem que nunca houve lisura no trato da coisa pública no Brasil. O Estado sempre foi o negócio privado dos políticos e das elites econômicas; o que explica a congênita negligência da administração para com o bem comum".

Pedro no papel de Agostinho Carrara.

Outro exemplo, este de quando a irmã da personagem resolve se mudar para o Canadá: "Então eu avancei por um terreno novo ao me opor eticamente ao autoexílio da classe média brasileira. Ora, depois de se beneficiar das desigualdades sociais, pagando preços indecentemente baixos por serviços domésticos, aceitando contratar caríssimos planos de saúde, convocando exércitos de segurança particular, blindando os seus automóveis, lutando pelo progresso do indivíduo e não pelo da coletividade, manifestando essa vontade ao votar em partidos que sempre acenaram com a confiabilidade do mercado como grande promotor do desenvolvimento social; apostando, enfim, em construir um país privado sob o disfarce da liberdade; quer dizer então que, quando esse macabro projeto fracassa, a solução é fugir para países onde justamente ideias socialistas haviam produzido sociedades mais justas e, portanto, menos violentas? E deixar para trás, como herança para os pobres, a desordem que promoveram?! Era nisso que ela acreditava?"

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Quando não está lambendo suas feridas, Genuíno também tem pensamentos semelhantes ao de Constança. Maior exemplo disso é um jogo de tabuleiro que ele cria. O objetivo de "A Jogada do Destino" é enriquecer. Há dois tipos de jogadores: os pobres (que se dividem entre pobre simples, que começa com 100 dinheiros, os muito pobres, que iniciam com 10 dinheiros, e os paupérrimos, que partem com um dinheiro) e os ricos (divididos também em três: simples/ 1 milhão de dinheiros, muito rico/ 100 milhões e riquíssimo/ 1 bilhão). "Todos os jogadores começam na casa do nascimento e, logo de saída, já pagam 1000 dinheiros por terem nascido. Se você for um cidadão pobre, tem que fazer um empréstimo na banca, o que significa que você já nasce devendo", explica o didático personagem – há mais regras, mas acho que todos já conseguiram entender qual é a pegada do jogo.

Genuíno ainda está ali para que a obra fale de literatura. Ele ama os livros, mas afirma ler apenas os títulos – preferencialmente em sua língua original, salvo raríssimas exceções. Para conquistar a garota por quem se apaixona, resolve escrever o seu próprio volume. Como o repertório é limitado e ele não sai da folha em branco, decide então criar um texto apenas com títulos de outros livros.

A ideia central desse personagem até traz uma questão interessante. Pessoas que dizem amar os livros mas não leem existem aos montes por aí – aliás, hoje existem aos montes até escritores que não leem, mas isso é absurdo para outra hora. Deixando a realidade mais dramática, leitores que não passam dos títulos parecem dominar a internet, onde ajudam a difundir uma sorte imensa de absurdos. Seria um recorte oportuno para se pensar dentro de uma obra mais complexa, mas, infelizmente, não é isso que Pedro Cardoso entrega ao leitor.

O personagem também serve para que o autor faça uma homenagem a grandes nomes da história literária. Ao longo da narrativa, pontuam a história a menção de títulos clássicos e livros memoráveis como "1984", de George Orwell, "Ulysses" de James Joyce, e "O Grande Mentecapto", de Fernando Sabino. Entretanto, parecendo um discurso cru, "O Livro dos Títulos" passa longe dessa literatura que pretende homenagear.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.