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Escritor transforma “cheiro de churrasco humano” em romance “self service”

Rodrigo Casarin

31/10/2017 09h44

Maciel, a cachorra Jade e gata Linda.

"Com sua prosa nervosa, repleta de gírias, no fio da navalha entre verdade e ficção, o autor consegue algo raro: humanizar os frios números da barbárie". Foi o que o Álvaro Costa e Silva, o Marechal, escreveu em sua coluna na Folha de São Paulo há cerca de duas semanas. Na ocasião, falava de "Não Adianta Morrer", romance há pouco publicado pela Estação Liberdade. Quando Francisco Maciel, o autor, leu aquilo, sentiu-se decifrado: a seu ver, o livro tinha encontrado o leitor ideal que soubera condensar a obra em poucas palavras.

E Marechal tem razão. O maior mérito de "Não Adianta Morrer" é dar nome, rosto e história aos indivíduos que, juntos, formam os impactantes dados a respeito da violência no Rio de Janeiro – só no primeiro semestre deste ano, por exemplo, foram registrados 2723 homicídios dolosos e 581 mortes decorrentes conflitos com a polícia.

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Mas como Maciel diz em entrevista ao Página Cinco, seu livro "não é um Mapa da Violência, longe disso". Trata-se, isso sim, de um emaranhado de histórias que se entrecruzam protagonizadas por personagens como Guile Xangô, "um cara legal, meio maluco e meio safo", Vovô do Crime, que "tem o maior desprezo pela galera", Marcelo Cachaça, que acredita que o vírus da Aids é uma forma de vida avançadíssima e que veio do espaço enviado por uma supercivilização para aperfeiçoar a humanidade" e a saltitante Núbia, sempre a última a chegar no bar para encontrar com as amigas. Todos levam uma vida relativamente ordinária, mas marcada por situações absurdas – como a constante e já citada violência que ora sofrem, ora causam – que muitas vezes só são percebidas por meio da arte.

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Autor também de "Entre Dois Mundos" e "O Primeiro Dia do Ano da Peste", Maciel se coloca ao lado de gente como Alberto Mussa, Luiz Antonio Simas e Marcelo Moutinho, que dignificam o subúrbio, as tradições culturais e uma espécie de mitologia da cidade do Rio de Janeiro.

"Inferno dos Pássaros", de Max Beckmann.

Romance self service

De certa forma, a história de Maciel com "Não Adianta Morrer" começa em 1997, quando vivia em um quarto de hospedagem e estudava dramaturgia com Domingos Oliveira. Na época, sua ideia era conviver com pessoas e transformar as experiências em "vida inventada" na forma de peças teatrais ou romances. Por suas andanças, deparou-se com uma cena macabra que foi a chave para desenvolver a narrativa.

"O momento decisivo foi quando uma chuva de cinzas humanas caiu sobre a Maia de Lacerda. Vinham de corpos de jovens incinerados numa caçamba de lixo, num microondas. Balas traçantes, cheiro de churrasco humano e cinzas sobre o vale da morte. Ali estava o tema: a violência. Levei tempo para dar rosto e sentido ao terror, para perceber que a violência estava nas falas casuais, nos menores gestos, nas vidas mínimas, redundantes, supérfluas", recorda.

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A partir disso, dedicou-se a criar "um mundo ficcional dando voz aos que não têm voz, memória aos que não se lembram bem, um tempo maior aos que estão mergulhados no presente, num eterno agora. As histórias vão sendo contadas e recontadas pelos personagens e há um convite ao leitor para ir tecendo as tramas, dando as cartas". Oportunamente, o autor lembra que na sua narrativa nada vem já ordenado. "Se me permite uma metáfora gastronômica, nada é dado de bandeja, o leitor está num self service, num romance de leitura por quilo".

Levando essa perspectiva em conta, pergunto a Maciel sobre o momento vivido pelo Rio de Janeiro, com uma sequência de intervenções militares em bairros mais pobres. Para responder como ele encara tudo isso, recorre à literatura, à história e ao encontro de uma série de grandes personagens reais e ficcionais.

"Mais do mesmo. Domingos Jorge Velho invadindo o Quilombo dos Palmares e a galera comendo pipoca. A República exterminando Canudos, decepando a cabeça do Conselheiro e o Euclides da Cunha atuando como coadjuvante passional numa peça de Nelson Rodrigues. O Policarpo Quaresma sendo fuzilado e o Lima Barreto no cemitério dos vivos. O Pai contra Mãe do Machado de Assis. 'O mundo está fora dos eixos', grita o espectro de Marx para Derrida. 'O acidente de a Revolução ter dado certo, primeiro na Rússia, vai atrasar o socialismo em duzentos anos', diz Trótski para Paulo Leminski", enumera. "No meu romance, o Rio de Janeiro morre, os personagens passeiam por dentro do Cristo Redentor e descobrem um pobre coração petrificado. É mais um delírio que uma profecia, a cidade morta, os urubus no alto. Espero. Não garanto nada", completa.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.