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Elizabeth Bishop: sete pontos sobre a péssima escolha da Flip

Rodrigo Casarin

26/11/2019 08h38

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) anunciou a autora homenageada da 18ª edição do evento, que acontecerá entre o final de julho e o começo de agosto do ano que vem, novamente com curadoria de Fernanda Diamant. Será a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, autora de "North & South". Gostei da escolha? Não. Vamos aos pontos:

– É a primeira vez que a Flip homenageia uma estrangeira. Nada contra rupturas, pelo contrário, mas, fosse para inovar, que inovassem homenageando uma escritora viva. Lygia Fagundes Telles seria a novidade ideal.

– Tudo bem, Bishop viveu durante mais de 15 anos no Brasil, casou-se com uma brasileira e compôs poemas que refletem nossa realidade. Mas é mesmo uma opção melhor do que Carolina Maria de Jesus, Cora Coralina, João do Rio, Murilo Rubião, Erico Verissimo, Ariano Suassuna ou Maria Firmino dos Reis, apenas para ficarmos em alguns nomes importantíssimos da literatura brasileira jamais homenageados pela Flip?

– Não, não sou nacionalista. Acho que o nacionalismo anda de braços dados com a xenofobia. No entanto, como o escritor Marcelo Moutinho apontou em seu Twitter, num momento em que a cultura nacional está sob forte ataque do próprio governo e de diversos setores da sociedade, precisamos trabalhar para fortalecer nossa própria cultura.

– A idealizadora da Festa, Liz Calder, é uma britânica, sei disso, mas impressionante como a Flip ama a língua inglesa.

– Independente da qualidade de sua obra, Bishop me parece um daqueles nomes que contribuem mais para encastelar do que para democratizar a literatura. Ou alguém acredita que as discussões no entorno de sua biografia e de seus escritos poderão causar um efeito como a homenagem a Lima Barreto em 2017 causou, levando um público muito mais diverso para Paraty e colocando produções periféricas no centro dos debates literários (movimento cada vez mais necessário)?

– Nesse sentido, Bishop parece simbolizar uma parte da elite intelectual brasileira que, a partir do Leblon ou de Pinheiros, vive com a cabeça muito mais perto de Nova York ou Londres do que do Jardim Brasil ou Japeri. Difícil popularizar a literatura por aqui enquanto uma microbolha que detém muito poder quase sempre se preocupa em dialogar apenas com essa própria microbolha.

– Elizabeth Bishop tratou o Golpe Civil-Militar de 1964 como uma "revolução rápida e bonita", elogiando, inclusive, a suspensão de direitos e a cassação de boa parte do Congresso – aqui mais sobre o assunto. O governo atual deve estar feliz com sua escolha (uma americana, ainda por cima, para alegrar de vez o Palácio da Alvorada), apesar de, provavelmente, ter conhecido seu nome ontem. Pelo menos ninguém poderá seguir dizendo aquela bobagem de que a Flip é um evento de esquerda.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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