Topo
Blog Página Cinco

Blog Página Cinco

Viver na Casa Branca pode ser caro até pro presidente dos EUA e sua família

Rodrigo Casarin

2001-02-20T19:10:37

01/02/2019 10h37

Foto: Amanda Lucidon.

"É como morar em um hotel chique, só que sem outros hóspedes – só você e sua família. Há flores frescas por toda parte, e novas são trazidas quase todos os dias. O prédio em si é antigo e um pouco intimidante. As paredes são tão espessas e as tábuas do assoalho tão sólidas que todos os sons parecem ser rapidamente absorvidos. As janelas são majestosas, altas e também equipadas com vidro resistente a bombas, e ficam fechadas o tempo todo por motivos de segurança, o que só reforça a quietude interna. O local é mantido impecavelmente limpo. Há um estafe composto por porteiros, contínuos, chefs de cozinha, camareiras e floristas, além de eletricistas, pintores e encanadores, todos indo e vindo educadamente e em silêncio, buscando a discrição em cada movimento, esperando que você vá para outro aposento para só então entrar de mansinho e trocar as toalhas ou colocar uma gardênia fresca no vaso à cabeceira da cama".

É o que nos conta Michelle Obama, primeira-dama dos Estados Unidos entre 2009 e 2017, em "Minha História", autobiografia que lançou mundialmente no final do ano passado e que já alcançou números impactantes. Mesmo saindo em novembro, tornou-se o livro mais comercializado dos Estados Unidos em 2018 com mais de 2 milhões de cópias vendidas. Segue encabeçando diversas listas de mais vendidos por lá e também aparece com destaque por aqui, onde saiu pela Objetiva: mais de 50 mil exemplares já foram impressos pela editora em cinco reimpressões e nesta semana ocupa a décima posição da lista geral do Publishnews, site especializado no mercado editorial, e o segundo posto dentre os títulos de não ficção.

Em certo momento da obra, Michelle leva o leitor para um tour pela casa presencial norte-americana. Por lá, todos os cômodos são gigantes e existem 15 banheiros (cinco para os moradores e dez extras). Há – ou havia, difícil saber o que a família Trump fez com a decoração – uma tela de Monet na suíte principal e uma escultura de bronze de Degas na sala de jantar. Para o presidente, um profissional se dedica exclusivamente a cuidar do closet, deixando os sapatos impecavelmente engraxados. E para que o chefão dê uma volta pela cidade, tem à disposição um tanque disfarçado de carro de luxo que pesa sete toneladas e é equipado com canhões de gás lacrimogêneo, pneus à prova de rupturas e um sistema de ventilação fechado capaz de protegê-lo de ataques biológicos ou químicos.

Contrariando o que muitos podem imaginar (me incluo nesses muitos), apesar de tudo o que o governo oferece, pode ser caro morar na Casa Branca. "Embora estivéssemos isentos de aluguel e de despesas com água, eletricidade, gás e funcionários, cobríamos todas as outras despesas, que pareciam aumentar depressa, especialmente em função da altíssima qualidade de tudo. Todo mês recebíamos uma conta detalhada listando cada item alimentício e cada rolo de papel higiênico. Pagávamos por cada hóspede que lá passava uma noite e cada convidado que fazia uma refeição conosco".

Aliás, a comida também podia ser uma fonte para minguar as finanças pessoais da família Obama. "Uma vez que a equipe de culinária tinha padrões nível Michelin e uma profunda vontade de agradar ao presidente, eu precisava ficar de olho no que era servido. Quando Barack fazia um comentário casual de que tinha gostado de alguma fruta exótica no café da manhã ou do sushi no jantar, o pessoal da cozinha anotava e a partir daí passava a incluir o item com regularidade no cardápio. Só mais tarde, inspecionando a conta, é que percebíamos que alguns desses produtos estavam sendo trazidos do exterior a um custo elevado".

Hospital do Médicos Sem Fronteiras bombardeado.

Terra da liberdade

Mas nem só de falar sobre a vida na Casa Branca que se faz a autobiografia de Michelle, ainda bem – a vida como primeira-dama, diga-se, só entra ali pelo último terço do volume com quase 450 páginas. É um bom livro, melhor do que boa parte dos relatos de pessoas realmente importantes que eu vejo por aí (num mercado inundado por memórias ou afins de gente sem real relevância alguma), mas que tem os seus problemas.

Vez ou outra trombamos com momentos dignos de volumes de autoajuda e, pior, com as máximas nascidas da espécie de lavagem cerebral pela qual os norte-americanos permanentemente passam. Eles realmente acreditam que vivem na terra da liberdade sem nunca questionarem o que é, para quem é e quais são os limites dessa tal liberdade. Num momento, Michelle olha para Obama e constata: "ali estava um homem sem pai nem mãe, prestes a ser eleito o líder do mundo livre". Mundo livre pra quem? Em outro, ao visitar um hospital para militares, encontra um aviso simbólico: as pessoas feridas ali abrigadas tinham se estropiado "em nome da liberdade de um país que eu amo demais". É oportuno mesmo incutir esse pensamento na cabeça de quem muitas vezes é enviado para o outro lado do mundo para matar e morrer supostamente pela "liberdade" de seu país – e sem se importar muito com a liberdade de países alheios, claro.

Se momentos como esses cansam um pouco, um outro problema de certa forma correlato deixa a obra um tanto troncha. Apesar de Michelle se aprofundar um pouco nos momentos pós-captura de Osama Bin Laden, ela praticamente ignora o restante da macro-história. É uma escolha, mas fica capenga não sabermos como impactava em Michelle ações decididas por Obama que repercutiam em todo o mundo, especialmente aquelas que passam longe de qualquer traço edificante. Como é ser a companheira de um Nobel da Paz que passou todos os dias dos seus oito anos de governo vendo seu país envolvido em guerras – contribuindo para diminuir conflitos em algumas, fato, mas também intensificando o caos em outras? Tão preocupada com questões sociais e humanitárias, como reagiu após o exército liderado por Obama bombardear um hospital do Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão em 2015, matando 22 pessoas? Não sabemos.

"Não acreditava que ele pudesse vencer"

Ao lembrar das impressões iniciais que teve de Obama, Michelle o coloca como um predestinado (opção que também me desagrada), ainda que o futuro presidente sequer tivesse iniciado sua carreira na política. "[Ele] estava numa espécie de missão, embora não soubesse onde isso o levaria", escreve após um dos primeiros encontros. Depois diz que, ainda jovem, o namorado era um cara que às vezes parecia perdido em pensamentos sobre temas como a desigualdade de renda. Uma coisa que a autora faz inegavelmente bem é pintar o agora ex-mandatário como um homem cheio de virtudes, repleto de ideias nobres.

"Barack era meio como um unicórnio – tão extraordinário a ponto de parecer irreal. Ele nunca falava sobre coisas materiais, como comprar uma casa, um carro, nem mesmo sobre comprar sapatos novos. Grande parte de seu dinheiro era gasto em livros, que, para ele, eram como objetos sagrados, fornecendo lastro para sua mente. Ele lia noite adentro, muitas vezes até bem depois de eu pegar no sono, esmiuçando obras de história, biografias e Toni Morrison também".

No entanto, uma hora o tom muda, rendando pontos para Michelle. Quando a carreira política engrena e Obama passa a praticamente viver para seu trabalho, a companheira constata que foi se arranjar com um "individualista que gosta de solidão", enquanto se enxerga como "uma mulher sociável e extrovertida que detesta solidão". O choque, intensificado pelos consequentes atrasos para chegar em casa e o caos que regia a vida de Obama e impactava quem estava por perto, levou a dupla para uma terapia de casal.

Michelle também é positivamente sincera ao falar sobre um aborto espontâneo que sofreu antes de terem a primeira filha. "Se eu fizesse uma lista com as coisas que só nos contam quando estamos no meio delas, começaria com os abortos espontâneos. Um aborto espontâneo é algo solitário, doloroso e desmoralizante quase em nível celular. Quando acontece, é muito provável que a gente sinta como uma falha pessoal, e não é. Ou como uma tragédia, o que, por pior que seja o momento, também não é. O que ninguém nos conta é que os abordos espontâneos acontecem o tempo todo, com muito mais mulheres do que jamais imaginaríamos, porque se trata de um assunto que nunca é tratado em público", alerta.

Ainda vai bem ao mostrar todo o ceticismo que segue tendo com a política, algo que sempre encarou com descrença. "Tradicionalmente, a política havia sido usada contra os negros, como meio de nos manter isolados e excluídos, subalimentados, desempregados e mal remunerados. Meus avós tinham vivido em meio ao horror das leis segregacionistas e à humilhação da discriminação habitacional, por isso desconfiavam basicamente de qualquer tipo de autoridade. Meu pai, que durante a maior parte da vida foi funcionário público municipal, tinha sido recrutado sobretudo para servir como delegado distrital do Partido Democrata, de modo a pelo menos ser cogitado para promoções em seu trabalho. Ele apreciava o aspecto social de suas funções como delegado distrital, mas sempre havia sido jogado para escanteio pela política do compadrio executada pela prefeitura".

Por conta dessa visão que nunca foi grande entusiasta de ver o marido concorrendo aos cargos que concorreu. Antes da corrida à presidência, chegou a propor um pacto: se ele perdesse, colocaria um ponto final em sua carreira sobre os palanques. E estava certa de que sairia "vencedora". "Concordei [que Obama tentasse a Casa Branca em 2008], embora ao mesmo tempo nutrisse um pensamento perturbador, que não estava pronta para expressar: eu o apoiaria na campanha, mas tinha certeza de que ele não venceria. Ele falava muito e com grande empolgação em acabar com as divisões do nosso país, apelando para um conjunto de ideais elevados que acreditava serem inatos na maioria das pessoas. Mas o que vira dessas divisões era suficiente para fazer eu moderar minhas esperanças pessoais. Barack, afinal, era um negro nos Estados Unidos. Eu realmente não acreditava que ele pudesse vencer".

"Ressentimentos reacionários"

Se logo mostrei elementos problemáticos do livro, também é preciso ressaltar que Michelle vai muito bem ao falar e mostrar o racismo que permeia sua história e segue sendo extremamente presente na sociedade norte-americana. A certeza de que Obama jamais seria eleito apenas pelo fato de ser negro é fruto de tudo o que a ex-primeira-dama passou até chegar à Casa Branca. Vinda de uma família de classe média de South Side, bairro de Chicago, dos dedicado pais ouvia conselhos valiosos: "Conforme crescemos, passamos a falar mais de drogas, sexo e escolhas de vida, de cor da pele, desigualdade e política. Meus pais não esperavam que fôssemos santos. Eu me lembro do meu pai fazendo questão de dizer que sexo era e deveria ser divertido". O pai também alertava sobre o racismo, de como a cor da pele deixava a família "vulnerável" inclusive perante a polícia.

Michelle passou pelas universidades de Princeton – de onde, mais tarde, descobriu que a mãe de uma colega reclamou com a direção da universidade porque a filhinha dividia o quarto com uma negra – e Harvard. Teve uma breve carreira como advogada, foi vice-presidente de um hospital e diretora de uma ONG que ajudava jovens a construírem carreiras que causassem impacto social. Quase sempre era a única negra e uma das poucas mulheres nos lugares por onde passou. Falando sobre as universidades, mostra o quão difícil é lidar principalmente com o racismo estrutural:

"Ainda hoje, com o número de alunos brancos superando o de alunos negros nas universidades, o fardo da assimilação ainda recai muito nos ombros das minorias. Para mim, é pedir demais", escreve sobre a tolerância que se pede daqueles que são alvos de preconceitos. "Consome energia ser a única pessoa negra em uma sala de aula ou uma das poucas não brancas fazendo teste para uma peça ou para entrar em uma equipe da faculdade. É necessário se empenhar, reunir uma dose extra de autoconfiança – para se pronunciar nesses ambientes – e assumir a própria presença na sala", continua.

Um dos momentos mais fortes de "Minha História" é quando Michelle, uma primeira-dama já calejada, encontra com alguns jovens de periferia. Quase todos ali são negros e lutam para seguirem vivos num bairro assolado e dividido por gangues (em plena "terra da liberdade"). Então, confessa seguir consciente de que muitos problemas não podem ser magicamente resolvidos por um presidente: "Para ser sincera, sei que vocês enfrentam muita coisa por aqui, mas ninguém vai salvá-los tão cedo. A maior parte do governo não está nem tentando. Muitos nem sabem que vocês existem".

Já vislumbrando a ascensão do chorume social que resultou na eleição de Donald Trump, Michelle também reconhece que a histórica eleição de um negro para a presidência dos Estados Unidos teve seu efeito colateral: "Nossa presença na Casa Branca foi celebrada por milhões de americanos, mas também contribuiu para alimentar medos e ressentimentos reacionários entre outros milhões. Era um ódio antigo e profundo, agora mais perigoso que nunca".

Gostou? Você pode me acompanhar também pelo Twitter, pelo Facebook e pelo Instagram.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.