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Super-humanos X inúteis: as previsões mais assustadoras de Yuval Harari

Rodrigo Casarin

31/08/2018 10h55

Yuval Noah Harari.

Autor dos best-sellers "Sapiens: Uma Breve História da Humanidade" (sobre o qual falei aqui, aqui e aqui) e "Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã", o historiador israelense Yuval Noah Harari, PhD pela Universidade de Oxford, está de volta na praça com "21 Lições Para o Século XXI", livro que acaba de ser publicado globalmente – no Brasil ele chega às livrarias pela Companhia das Letras. Como o título antecipa, a obra traz uma série de constatações e propostas para os rumos da humanidade neste século que ainda se inicia.

"Neste livro quero analisar mais de perto o aqui e o agora. Meu foco está nas questões atuais e no futuro imediato das sociedades humanas. O que está acontecendo neste momento? Quais são os maiores desafios e escolhas de hoje? Qual deve ser o foco de nossa atenção? O que devemos ensinar a nossos filhos?[…] Meu interesse aqui é menos pela criação, no futuro, da vida inorgânica, e mais pela ameaça ao estado de bem-estar social e a determinadas instituições, como a União Europeia […]. Já que as corporações e os empreendedores que lideram a revolução tecnológica tendem, naturalmente, a entoar loas a suas criações, cabe a sociólogos, filósofos e historiadores como eu fazer soar o alarme e explicar o que pode dar errado", posiciona-se o autor na apresentação da obra.

Dessa forma, Harari divide o longo ensaio em cinco partes: "O Desafio Tecnológico", "O Desafio Político", "Desespero e Esperança", "Verdade" e "Resiliência". Dentre os assuntos abordados estão ainda questões sobre a crise da democracia, a epidemia de fake news, o trato com os imigrantes, o nacionalismo e de que maneira lidar com o desenvolvimento da inteligência artificial. Tal qual em seus outros trabalhos, ideias são acompanhadas de exemplos, projeções e provocações como esta: por que nos preocupamos mais em combater o terrorismo do que em preservar o meio ambiente se o ar poluído mata 7 milhões de pessoas por ano, enquanto ataques de extremistas raramente tiram a vida de mais do que 30 mil indivíduos em todo o mundo anualmente?

Dentre os méritos de Harari, também merecem destaque a preocupação em demonstrar como o que vislumbra exacerbado para o futuro de alguma forma já acontece no presente e a iniciativa de tocar em pontos sensíveis a muitos de seus leitores. Neste ponto, um bom exemplo é quando cita a importância do fomento do secularismo – ou seja, deixar deus de fora das discussões, algo que já deveria acontecer ao menos em estados laicos como o Brasil. Questionar aspectos de alguns dos fundamentos mais importantes do Ocidente também faz parte de sua agenda, como ele mesmo admite:

"Grande parte do livro discute as imperfeições da visão de mundo liberal e do sistema democrático. Faço isso não por acreditar que a democracia liberal é excepcionalmente problemática, e sim porque penso que e o modelo politico mais bem-sucedido e versátil que os humanos desenvolveram até agora para lidar com os desafios do mundo moderno. Mesmo que não seja adequado a toda sociedade em todo estágio de desenvolvimento, ele provou seu valor em mais sociedades e em mais situações do que qualquer uma de suas alternativas".

Veja alguns dos melhores trechos – alguns assustadores, outros que levam o leitor a sérias reflexões – de "21 Lições Para o Século XXI":

Num mundo inundado de informações irrelevantes…

"Em teoria, qualquer um pode se juntar ao debate sobre o futuro da humanidade, mas é muito difícil manter uma visão lúcida. Muitas vezes nem sequer percebemos que um debate está acontecendo, ou quais são suas questões cruciais. Bilhões de nós dificilmente podem se permitir o luxo de investigá-las, pois temos coisas mais urgentes a fazer, como trabalhar, tomar conta das crianças, ou cuidar dos pais idosos. Infelizmente, a história não poupa ninguém. Se o futuro da humanidade for decidido em sua ausência, porque você está ocupado demais alimentando e vestindo seus filhos — você e eles não estarão eximidos das consequências. Isso é muito injusto, mas quem disse que a história é justa?"

Batalha contra a irrelevância

"No século XX, as massas se revoltaram contra a exploração, e buscaram traduzir seu papel vital na economia em poder politico. Agora as massas temem a irrelevância, e querem freneticamente usar seu poder político restante antes que seja tarde. O Brexit e a ascensão de Trump poderiam, assim, demonstrar uma trajetória contraria a das revoluções socialistas tradicionais. As revoluções russa, chinesa e cubana foram feitas por pessoas que eram vitais para a economia, mas às quais faltava poder politico; em 2016, Trump e Brexit foram apoiados por muita gente que ainda usufruía de poder politico, mas que temia estar perdendo seu valor na economia. Talvez no século XXI as revoltas populares sejam dirigidas não contra uma elite econômica que explora pessoas, mas contra a elite econômica que já não precisa delas. Talvez seja uma batalha perdida. É muito mais difícil lutar contra a irrelevância do que contra a exploração".

BARBAROSSA: O PIRATA QUE ATERRORIZOU CRISTÃOS E DOMINOU O MEDITERRÂNEO

O avanço da desigualdade

"No longo prazo, esse cenário poderia ate mesmo desglobalizar o mundo, pois a classe superior se congrega numa autoproclamada 'civilização' e constrói muros e fossos para isolá-la das hordas de 'bárbaros' no lado de fora. No século XX, a civilização industrial depende dos 'bárbaros' para ter mão de obra barata, matéria-prima e mercados. Por isso ela os conquistou e absorveu. Mas no século XXI, uma civilização pós-industrial baseada em IA [Inteligência Artificial], bioengenharia e nanotecnologia poderia ser muito mais autocontida e autossustentada. Não apenas classes, mas países e continentes inteiros poderiam tornar-se irrelevantes. Fortificações guardadas por drones e robôs poderiam separar a zona autoproclamada civilizada, onde ciborgues lutam entre si em código, das terras bárbaras onde humanos selvagens lutam entre si com machetes e Kalashnikovs".

Terrorismo X Estupros

"Hoje, um governo pode adotar em relação a violência doméstica e sexual uma abordagem mais suave do que em relação ao terrorismo, porque, apesar do impacto de movimentos como o #MeToo, o estupro não compromete a legitimidade do governo. Na Franca, por exemplo, são relatados as autoridades mais de 10 mil casos de estupro por ano, e provavelmente dezenas de milhares de outros nem são reportados. Estupradores e maridos abusivos, no entanto, não são considerados uma ameaça existencial ao Estado francês, porque historicamente o Estado não esta construído sobre a promessa de que vai eliminar a violência sexual. Em contraste, os casos de terrorismo, muito mais raros, são vistos como uma ameaça mortal à República Francesa, porque nos últimos séculos os Estados modernos ocidentais têm estabelecido sua legitimidade com base na promessa explicita de não tolerar violência politica em suas fronteiras".

"Pensamos em grupos"

"Não só a racionalidade, a individualidade também é um mito. Humanos raramente pensam por si mesmos. E sim, pensamos em grupos. Assim como é preciso uma tribo para criar uma criança, é preciso uma tribo para inventar uma ferramenta, resolver um conflito ou curar uma doença. Nenhum individuo sabe tudo o que e preciso para construir uma catedral, uma bomba atômica ou uma aeronave. O que deu ao Homo sapiens uma vantagem em relação a todos os outros animais e nos tornou os senhores do planeta não foi nossa racionalidade individual, mas nossa incomparável capacidade de pensar juntos em grandes grupos".

Fake news ou pós-verdade ao longo da história

No início do século XX, um dos lemas favoritos do sionismo falava do retorno de 'um povo sem terra [os judeus] a uma terra sem povo [Palestina]'. A existência de uma população árabe local foi convenientemente ignorada. Em 1969 a primeira-ministra israelense Golda Meir disse que não existe e nunca existiu um povo palestino. Essas ideias são muito comuns em Israel até hoje, apesar de décadas de conflitos armados contra algo que não existe. Por exemplo, em fevereiro de 2016, a parlamentar Anat Berko fez um discurso no Parlamento de Israel no qual duvidava da realidade e da história do povo palestino. Sua prova? A letra "P" nem sequer existe em árabe, então como pode haver um povo palestino? (Em arabe, usa-se "f" em lugar de "p", e o nome árabe para a Palestina é Falastin)".

Marx X Spielberg

"No início do século XXI, talvez o gênero artístico mais importante seja a ficção científica. Muito pouca gente leu os artigos mais recentes nos campos do aprendizado de máquina ou da engenharia genética. Em vez disso, filmes como 'Matrix' e 'Ela' e séries de televisão como 'Westworld' e 'Black Mirror' expressam como as pessoas entendem os mais importantes desenvolvimentos tecnológicos, sociais e econômicos de nossos tempos. Isso significa também que a ficção precisa ser muito mais responsável quanto ao modo como descreve realidades científicas, do contrário poderá incutir nas pessoas ideias erradas, ou focar sua atenção nos problemas errados.

Como observado em um capítulo anterior, talvez o maior pecado da ficção científica atual seja a tendência a confundir inteligência com consciência. Como resultado, esta preocupada demais com uma possível guerra entre robôs e humanos, quando na realidade devemos temer um conflito entre uma pequena elite de super-humanos com poderes ampliados por algoritmos e uma vasta subclasse de Homo sapiens sem nenhum poder. Quando se pensa no futuro da inteligência artificial, Karl Marx ainda é um guia melhor que Steven Spielberg".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.