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Como a fofoca transformou o homem no animal mais mortal de todos

Rodrigo Casarin

12/01/2018 10h22

“A Primeira Onda de Extinção, que acompanhou a disseminação dos caçadores-coletores, foi seguida pela Segunda Onda de Extinção, que acompanhou a disseminação dos agricultores e nos dá uma perspectiva importante sobre a Terceira Onda de Extinção, que a atividade industrial está causando hoje. Não acredite nos abraçadores de árvores que afirmam que nossos ancestrais viveram em harmonia com a natureza. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era o recordista, dentre todos os organismos, em levar as espécies de plantas e animais mais importantes à extinção. Temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera nos anais da biologia”.

É o que escreve Yuval Noah Harari em “Sapiens”, livro publicado originalmente em 2011, lançado no Brasil pela L&PM em 2015 e que caiu nas graças do leitor daqui ao longo de 2017. Yuval é doutor em história pela Universidade de Oxford, especializado em história mundial e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Em “Sapiens”, se propõe a explicar de que maneira o ser humano se transformou no animal que dominou o planeta e como construiu sua própria história ao longo de milhares de anos, até chegar ao nosso século 21.

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Achei interessante uma obra com tal proposta figurar em diversas listas nacionais dos livros mais vendidos do ano passado, é bom que haja muitos brasileiros querendo entender um pouco melhor sobre a trajetória do ser humano – ou seja, sobre nossa própria história. Peguei “Sapiens” para ler, e o que vi foi um título bastante interessante, um apanhado de ótimas informações a respeito do nosso passado, tanto que resolvi dividir a resenha do volume por partes – voltarei a falar sobre ele em outros dois ou três textos.

Bando de fofoqueiros

Nesse primeiro momento, me limitando à “Revolução Cognitiva”, que Yuval encerra antes de entrar na “Revolução Agrícola”, o que o autor nos apresenta é um bicho que, por conta da evolução, começa a deixar de ser insignificante para se destacar na natureza. A partir disso, o que temos é o início da história que seguiria tendo enredo semelhante nos milênios seguintes: homens que se juntam para desenvolver tecnologias, dominar o que está ao seu redor e tentar subjugar aqueles que encontram pelo caminho, como o trecho destacado acima aponta.

Yuval atribui a evolução social dos humanos, primordial para que todas as outras ocorressem, a dois fatores. O primeiro deles, curioso, é a fofoca, algo visto com horror por muitos nos dias de hoje “Nossa linguagem singular evoluiu como um meio de partilhar informações sobre o mundo. Mas as informações mais importantes que precisavam ser comunicadas eram sobre humanos, e não sobre leões ou bisões. Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca. De acordo com essa teoria, o Homo sapiens é antes de mais nada um animal social. A cooperação social é essencial para a sobrevivência e a reprodução. Não é suficiente que homens e mulheres conheçam o paradeiro de leões e bisões. É muito mais importante para eles saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro”, explica.

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Em uma segunda etapa, quando os grupos começaram ter centenas de integrantes e somente a voz do líder não era mais suficiente para garantir que todos se juntassem por um mesmo ideal, os mitos – ou seja, histórias que levam a crenças em comum – foram primordiais para que as pequenas sociedades se mantivessem unidas e seguissem avançando. Avançando literalmente, digo, porque, lembro, ainda estamos falando de bandos nômades, que buscam por novos territórios tão logo devastam tudo de interessante que está ao seu redor ou quando são expulsos de seus espaços temporários por outros grupos de humanos – sim, já guerreávamos mesmo quando o mundo ainda era praticamente inexplorado.

E esse é um dos pontos tristes de se constatar ao ler o livro de Yuval: como o próprio autor indica, mudamos pouco em alguns pontos, principalmente no lido com a natureza. O pesquisador refuta as ideias de que a extinção de diversas outras espécies teria sido causada principalmente por mudanças climáticas e coloca a culpa nos próprios humanos – um animal pequeno, de aparência pouco amedrontadora – pelo sumiço de bichos como tigres-dentes-de-sabre, preguiças-gigantes, diprotodontes, cangurus-gigantes…

“Talvez se mais pessoas estivessem cientes da Primeira e da Segunda Onda de Extinção, seriam menos indiferentes à Terceira Onda, da qual fazem parte. Se soubéssemos quantas espécies já erradicamos, poderíamos ser mais motivados a proteger as que ainda sobrevivem”, acredita, talvez com uma dose excessiva de otimismo na informação, Yuval.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.