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Barbarossa: o pirata que aterrorizou cristãos e dominou o Mediterrâneo

Rodrigo Casarin

29/08/2018 06h08

É provável que você já tenha ouvido falar em Barba Ruiva ou Barbarossa, como a mítica figura é chamada na língua italiana, mas você sabe quem foi o cara? Que era um pirata eu também sabia, mas não fazia ideia das dimensões de suas conquistas e do tamanho de sua importância na história da região do Mar Mediterrâneo. Até que caiu em minhas mãos um livro sobre o ruivo: "Barbarossa: O Almirante do Sultão – Pirata e Construtor de um Império", escrito pelo historiador britânico Ernle Bradford e que chegou ao Brasil há alguns anos pela Grua.

Pois bem, a primeira coisa importante a se saber é que a trajetória do lendário Barbarossa – alcunha mais famosa de Khizir Reis – é construída em grande parte acompanhando as empreitadas de seu irmão mais velho, Aruj, tido como um brilhante soldado. Nascida na ilha de Lesbos, atualmente parte da Grécia, mas muito próxima à Turquia, a dupla cresceu em uma época na qual povos cristãos europeus e muçulmanos da ásia e do norte da África disputavam a soberania no Mar Mediterrâneo. Navegar por essa região nos séculos 15 e 16 significava, invariavelmente, arriscar a vida e a liberdade, como comprovou Aruj, que foi feito prisioneiro e escravo em sua juventude, situação da qual escapou após ser resgatado pelo seu pai ou por comerciantes amigos,não se sabe ao certo.

Saiu fortalecido do episódio e logo construiu, junto com o irmão mais novo, a sua própria frota para aterrorizar os mares. Apostavam em navios comandados por outros piratas, não por escravos, o que garantia união e foco nos objetivos. Também negociavam com líderes muçulmanos para que não fossem importunados e, em troca, pagavam uma taxa de 10% sobre tudo o que pilhavam. Dessa forma cresceram, impulsionados pelas consecutivas empreitadas bem-sucedidas contra embarcações que vinham da Europa cheias de preciosidades. "Em 1510 Aruj era um dos homens mais ricos do Mediterrâneo. Khizr e ele eram os donos de oito galeotas robustas, donos de propriedades e escravos e deviam se considerar os reis do mar", pontua Bradford.

Foi nessa época que os irmãos juntaram seus guerreiros e rumaram para Djerba, que seria transformada não apenas numa base para os ataques, mas em um verdadeiro "Covil dos Corsários", como os europeus costumavam dizer. "O povo local, os berberes, eram amigáveis; e a ilha e o continente atrás dela, ricos em frutas, trigo e uvas. Nem todos os turcos, nessa época, eram muçulmanos ortodoxos em relação ao álcool, e os vinhedos eram cultivados nessa parte da costa desde a época do Império Romano".

Num período em que, por aquelas bandas, a frase "Cristãos estão baratos hoje" era um chamariz bem comum para as vendas, os homens europeus capturados pelos irmãos costumavam ser vendidos como escravos – menos os de família nobre, pelos quais pediam altas cifras para a libertação –, enquanto as mulheres bonitas eram levadas para o sultão – as nem tão belas, por sua vez, ficavam acorrentadas em masmorras até que lhes achassem alguma serventia.

Batalha contra Andrea Doria

Com o tempo, alguns reveses começaram a aparecer na vida de Aruj e Khizir. Em um ataque mal planejado contra espanhóis, Aruj foi alvejado no braço e o ferimento lhe obrigou a amputar aquele membro. Pouco tempo depois, perderam uma batalha contra o comandante italiano Andrea Doria, que entraria para a história como um dos principais inimigos dos irmãos. Anos depois, outra investida equivocada acabaria com a vida de Aruj, que finda em batalha aos 44 anos.

Quando caiu, no entanto, não era mais um mero pirata de sucesso. Bem quisto por povos do norte da África pela maneira como ajudava os mais necessitados e administrava os problemas da população, foi alçado à condição de sultão por aqueles que estavam cansados de serem governados por reis pouco prestativos. Com essa condição que estendeu seus domínios a Argel, um lugar estratégico para a região e que se transformou em uma das cidades mais opulentas do mundo na época, forrada por ouro, prata, pérolas, sedas, especiarias e drogas diversas.

"Sultão e governante de Jijel a leste, Cherchell a oeste, e agora de Argel, o mais velho dos Barbarosa era uma figura formidável no Mediterrâneo. No período de seis anos, apesar de dois grandes reveses, ele havia construído um império otomano nas costas que até então tinham sido dominadas por árabes, berberes ou espanhóis. Ele lançou as bases para um poder norte-africano que iria perturbar toda a Europa por mais de três séculos".

Assim que Aruj morreu, todo o seu poder foi transmitido para Khizir, que logo mostrou que "dispunha da mesma aptidão guerreira", mas, com mais tino para as negociações e para a política, parecia um estadista completo. Adorado pelos seus, Khizir passou a ser chamado de Khair-ed-Din, algo como "Protetor da Religião" ou "Protetor da Fé". Homem culto, que se virava em, pelo menos, seis línguas, engrandeceu tudo o que já havia feito com o irmão. Em uma das batalhas mais emblemáticas da história, em 1538, derrotou esquadradas de Veneza, Gênova e do papa, que estavam sob comando de Andrea Doria, o que estabeleceu os turcos como controladores do Mediterrâneo, algo fundamental para a expansão do Império Otomano, do qual, em 1533, havia sido declarado capitão-paxá da marinha. Assim, Barbarossa se tornou herói nacional e um dos nomes mais importantes da história da Turquia.

"Ele é comparável a Sir Frances Drake em sua atitude como marinheiro e líder militar, e em seu estilo de vida. Ambos emergiram de origens humildes para alcançar posições de grande poder e influência. Ambos iniciaram suas carreiras 'do lado errado da lei' e terminaram com altas honrarias depositadas sobre eles por seus soberanos. Khair-ed-Din talvez tenha tido um feito mais duradouro na história. O Reino de Argel por ele fundado determinou em grande escala o estilo de vida e comércio no Mediterrâneo até meados do século 19", aponta Bradford na apresentação da obra. Não é por acaso que quando Khizir falece, em 1546, anunciam que "O Rei do Mar está morto".

Agora, em que pese a boa história que narra, a leitura de "Barbarossa" fica um tanto prejudicada pela confusão e desleixo em diversos trechos, como as citações acima já evidenciam. Outro exemplo: "Seu objetivo em Istambul não era apenas bajular o sultão e melhorar a esquadra deste, mas também conquistas seus próprios objetivos". Essa repetição de "objetivo", que deixa a frase com uma deselegância danada, deveria ter sido evitada. Infelizmente isso ocorre em diversos momentos da narrativa, o que exige que o leitor tenha certa paciência com o texto.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.