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Luiz Antonio Simas: é burrice ignorar conhecimento indígena e africano

Rodrigo Casarin

11/08/2018 18h52

Luiz Antonio Simas.

"É necessário que o branco pense o lugar de privilégio que tem graças à própria branquitude. Depois da abolição, houve um projeto de branqueamento do Brasil que aconteceu de forma muito sólida", disse o historiador Luiz Antonio Simas.

"Uma das coisas que percebi e que sempre me incomodou bastante é que se você pegar qualquer livro de literatura brasileira, de qualquer grande escritor, perceberá que ele começa falando de personagem xis, que chega na casa tal, encontra outro personagem, troca ideias e aparece, digamos, o 'preto Antônio', que fala alguma coisa e sai. A história continua e daqui a pouco o 'preto Antônio', quando reaparece, nem mais nome tem, passa a ser só o 'preto'. Isso porque a literatura brasileira foi parte desse processo de branqueamento do Brasil. Muitos autores brasileiros não escreviam pensando num público negro, escreviam para brancos. Então, não precisava dizer que o personagem era branco, porque pra ele aquilo seria o normal", completou o escritor Alberto Mussa.

Os dois estiveram juntos numa mesa que aconteceu há pouco na 2ª edição da Flipelô, a Festa Literária Internacional do Pelourinho, em Salvador. Norteados pelo tema "Deuses e Demônios no Terreiro Brasil", o autor do compêndio mítico do Rio de Janeiro, cujo último livro, "A Biblioteca Elementar", está para ser lançado pela Record, e o historiador responsável por títulos como "Ode a Mauro Shampoo e Outras Histórias da Várzea" (Mórula) e "Coisas Nossas" (José Olympio) falaram sobre religiões de matrizes africanas, samba, carnaval e a respeito do povo que, apropriando-se de palavras de Simas, vive no perrengue e precisa inventar maneiras para encantar a vida.

Está no cerne da obra dos dois estudar e retratar culturas de civilizações africanas e ameríndias. Simas falou um pouco sobre a importância de se aprofundar nesses saberes: "Temos que estudar as culturas indígenas e africanas porque são extremamente sofisticadas, não porque habitavam essa terra antes da chegada dos europeus ou porque há dívida histórica, que são coisas importantes também. As produções deles oferecem maneiras diversas de pensar a vida. Não reconhecer a importância dessas culturas, além de ser racismo, é burrice. Estamos perdendo um manancial extremamente sofisticado. São culturas que me civilizaram".

Mussa, por sua vez, falou brevemente sobre a sua obra. Referindo-se ao Compêndio Mítico, que investiga a história do Rio de Janeiro ao longo dos séculos por meio de histórias policiais, deu sua visão sobre esse tipo literatura. "É um gênero que se populariza com mais facilidade, então ele é muito importante no momento atual, no qual precisamos cada vez mais formar leitores".

Amigos de longa data, Simas e Mussa já fizeram um livro juntos: "Sambas de Enredo: História e Arte" (Civilização Brasileira). Não por acaso a conversa em Salvador acabou literalmente em samba. Cantaram três músicas, dentre elas "33 – Destino Dom Pedro II", samba de 1984 da Em Cima da Hora, que, falando sobre a dureza do cotidiano, em determinado momento coloca o ouvinte a refletir: "Imagine quem é lá de Japeri [região bem afastada do centro do Rio de Janeiro]". Para Simas, o verso condensa a essência de boa parte de seu pensamento: "Imagina quem vem lá de Japeri… É preciso enxergar o outro, se colocar no lugar do outro".

Viajei a Salvador a convite da organização da Flipelô.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.