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7 motivos para ler Alberto Mussa, o escritor que você precisa conhecer

Rodrigo Casarin

18/07/2017 04h00

Foto: Paula Johas.

Você conhece Alberto Mussa? Não? Pois apresento. Carioca, 56 anos, e um dos escritores mais originais do país. Já ganhou prêmios como o Casa de Las Américas, Machado de Assis, Biblioteca Nacional e Oceanos, mas, como sabemos, essas honrarias não são suficientes para que um escritor se torne conhecido do grande público brasileiro.

Olhando para seus romances, o destaque é o “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro” – não se assuste com o nome, por favor, as narrativas são bem tranquilas de ler -, formado por cinco livros com tramas policias, um para cada século da história carioca: “O Trono da Rainha Jinga”, “A Primeira História do Mundo”, “O Senhor do Lado Esquerdo”, “A Hipótese Humana” e o ainda inédito “A Biblioteca Elementar.

Sua obra também possui volumes de contos, tradução de poemas árabes pré-islâmicos e um livro sobre a história do samba-enredo feito em parceria com Luiz Antônio Simas. Mussa já foi traduzido para 14 idiomas, publicado em 17 países e será um dos convidados da Flip deste ano, onde dividirá uma mesa com o islandês Sjón. O papo, não por acaso, promete abordar mitologias e antigas narrativas.

Eis aqui sete motivos pelos quais você precisa ler o cara:

Preocupação com a história: Mussa conhece e domina os mais diversos recursos e teorias literárias, no entanto, quando escreve, coloca todo seu conhecimento em função de uma boa história – quase sempre cheia de mistérios, traições, violência e erotismo. Principalmente em seus livros mais recentes, não se preocupa em refletir sobre a própria literatura, como fazem muitos outros escritores contemporâneos, mas, essencialmente, em apresentar uma trama atraente narrada de forma cativante e original, sem malabarismos ou exibicionismo linguísticos.

Narrador fortíssimo: “Quem se dispõe a abrir um romance policial deseja e espera que aconteça um crime. Vou, assim, diretamente ao ponto, à cena que se dá momentos antes do episódio capital.

São duas personagens que se movem: um homem e uma mulher. Para quem leu meus outros livros, ou lembra que a ação se passa no Rio de Janeiro, é fácil deduzir que não serão casados. Ela, além de moça, é linda, como são em geral minhas mulheres. O homem, tipo mais vulgar, tem aproximadamente a mesma idade.

Disse que não são casados. Deveria ter dito não serem cônjuges. Porque a mulher (como se intui) tem um marido. Mas essa circunstância não a impede de começar a se despir”.

É dessa forma que Mussa começa seu mais recente livro, “A Hipótese Humana”. O trecho é uma boa amostra de como é forte e presente o narrador na literatura de Mussa. É ele quem foca a luz em diversos pontos de vista que uma mesma história pode apresentar, algo essencial para termos uma narrativa que fuja do óbvio.

História do Brasil: nunca vi nenhum escritor tratar tão bem da história do Brasil quanto Mussa. Mas aqui não me refiro à macro-história protagonizada pelos mandatários e poderosos, mas à micro, feita por gente comum. Como era a vida no século 17 ou 18? Por meio principalmente das obras do “Compêndio Mítico” nós podemos, a partir do Rio de Janeiro, imaginar o país nessas épocas.

Personagens: uma história que apresenta um escritor, professor ou jornalista de classe média enfrentando dificuldades com sua própria escrita. Não, você não achará esse tipo de personagem nos livros de Mussa. Suas narrativas são estreladas por agentes secretos, escravos, negros recém-libertos, prostitutas, piratas, pajés, capoeiras e uma infinidade de tipos que passam a vida cambaleando entre o lícito e o ilícito, o moral, o imoral e o amoral.

Respeito: Mussa respeita sobremaneira a história e a mitologia. Para ele não existem “índios”, por exemplo, mas etnias indígenas que possuem formação, características e crenças próprias. Ao olhar para o passado – e, em alguns casos, para o presente mesmo -, o autor não comete o erro de jogar tudo o que é diferente dos povos europeus em um mesmo balaio.

Estética: é infelizmente comum que narrativas históricas reporduzam preconceitos e esteriótipos, resultando em algo bastante enfadonho. Em muitos casos, o tom também acaba sendo quase escolar, sem graça alguma. Não é o caso deste autor. Se nos fascinamos com filmes que se passam na Europa da Idade Média ou séries sobre a formação dos Estados Unidos, por exemplo, por que narrativas a respeito do nosso passado não poderiam despertar o mesmo interesse? Porque quase sempre apresentam uma estética pouco atraente. Os textos de Mussa provam que é possível contornar esse problema.

Bagagem cultural: Mussa é um dos escritores mais cultos da nossa literatura. Como Jorge Luis Borges, a quem muitos o comparam, parece já ter lido de tudo, desde os grandes clássicos mundiais, passando por escritores brasileiros obtusos até as narrativas tribais da África. É famoso no meio literário um texto no qual conta como foi desmontar sua biblioteca – tinha certeza que nem em 60 anos conseguiria ler todos os livros que tinha – para reduzi-la a cerca de 4 mil volumes imprescindíveis. Tudo isso, claro, acaba por refletir em seus escritos – e, ainda bem, de maneira nem um pouco pedante.

Quer descobrir esse mundo criado narrado pelo Mussa? Indico principalmente os dois títulos mais recentes: o romance “A Hipótese Humana” e a coletânea “Os Contos Completos”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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