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Em carta, João Ubaldo confessa ao amigo Jorge Amado insegurança com livro

Rodrigo Casarin

09/08/2018 20h18

"Será, compadre? De vez em quando, acho o livro bom, de vez em quando acho ruim. Fiquei de repente sem ter o que fazer e aí escrevi outro livro, veja você. Desta vez para crianças, mas, de qualquer maneira, um romancinho de 75 laudas. Acho que, se continuar nessa pasmaceira até dezembro, termino escrevendo outro, de pura agitação".

Essas palavras foram escritas por João Ubaldo Ribeiro para Jorge Amado no dia 7 de novembro de 1989 e estão em uma das cartas ainda inéditas guardadas pela Fundação Casa de Jorge Amado. Quando Ubaldo titubeia sobre a qualidade de seu então recente trabalho, refere-se, provavelmente, a "O Sorriso do Lagarto". Há boas chances de que o "romancinho", por sua vez, seja "A Vingança de Charles Tiburone".

Tendo como tema uma frase cunhada por Jorge – "A amizade é o sal da vida" -, a fraterna relação entre os dois compadres está sendo celebrada na segunda edição da Flipelô (Festa Literária Internacional do Pelourinho), evento que nasceu no ano passado já com cara de um dos grandes encontros literários do país.

A edição deste ano começou ontem, dia 8, e vai até domingo, dia 12. Espalhada por 13 espaços do Centro Histórico de Salvador, a programação conta com nomes conhecidos do grande público, como Djamila Ribeiro, Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas, autores estreantes (Evanilton Gonçalves, Geovani Martins e José Almeida Júnior, por exemplo) e atrações internacionais como Rutendo Tavengerwei, do Zimbábue – confira aqui a grade completa. A organização é de responsabilidade da própria Fundação Casa de Jorge Amado em parceria com o Sesc.

Jorge, João e Berenice, mulher de Ubaldo, em Santiago de Compostela. Foto Zélia Gattai /Acervo Fundação Casa de Jorge.

Em um depoimento escrito para o Leia Livros publicado em outubro de 1979, Ubaldo falou um pouco sobre a amizade entre os dois. Lembrou que tinham se conhecido cerca de duas décadas antes e que logo de cara Amado, já consagrado, deu uma bela moral para o colega que buscava pelo seu espaço no meio literário participando da coletânea "Panorama do Conto Baiano":

"Jorge, é claro, participava da antologia e eu aparecia nela com o meu primeiro conto publicado. Tinha vergonha, com dezoito anos e espinhas, de que me chamassem de escritor, porque achava que estava sendo pretensioso. No lançamento do livro, alguém me apresentou a Jorge.

– Muito prazer, seu Jorge – disse eu.

– Seu Jorge o quê, rapaz, Jorge. Li seu conto, uma beleza.

E pôs o braço em cima do meu ombro e saiu comigo, vermelhíssimo eu, me empurrando para grupos de pessoas que me pareciam o ápice da sofisticação e me apresentando como 'um escritor de grande talento'".

No final do depoimento, Ubaldo lembra de como, muito tempo depois, o amigo lhe confessou que pretendia espezinhar os militares que tinham tomado o país:

"Quando estava escrevendo 'Farda, Fardão', nós almoçamos juntos e ele me contou, com o assanhamento de quem estreia, que ia fazer uma fábula contra a burrice e a opressão.

– Vou esculhambar esses filhos da puta – disse ele, com os olhos acesos".

Já em um texto para a Vogue da qual o autor de "Capitães da Areia" foi capa, Ubaldo evidencia toda a sua admiração pela arte do colega e amigo:

"Sempre chamo, nunca na frente dele, Jorge Amado de mestre. Querem que isso se dê por amizade ou até fidelidade à baianada, por essas razões bobas que muitas vezes nos atribuem. Não é verdade. É mestre porque é mestre mesmo, fez de sua vocação sua carreira, honrou e honra essa carreira, dedicou essa carreira a celebrar seu povo, seu orgulho e sua esperança. Então é mestre, para mim é mestre, respeito, aprendo, ouço conselhos e tenho admiração. Quem é escritor mesmo sabe o que quero dizer".

Voltando à carta em que pude colocar as mãos e dar uma boa olhada na tarde desta quinta, ela foi datilografada em Itaparica, cidade onde Ubaldo viveu boa parte de sua vida. Na missiva, o autor de "Viva o Povo Brasileiro" fala que pensa em deixar a ilha e diz invejar a vida que o amigo levava. "E você, como vai? Com certeza vai bem, Paris faz bem à saúde e ao espírito. Continuo a invejar benevolamente o compadre. Inveja construtiva – também quero pra mim. Quando estiver em Berlim, no duro que eu dou um jeito de dar um pulo a Paris e ver você em clima gaulês".

E na despedida, um momento de grande carinho de João para Jorge: "Pois é, compadre. Obrigado mais uma vez, um abraço grande, beijos para a comadre, do seu, de sempre, J Ubaldo".

Viajei a Salvador a convite da organização da Flipelô.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.