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Albert Camus: goleiro, Nobel de Literatura e referência para Mbappé

Rodrigo Casarin

06/07/2018 09h00

Ao trocar o Monaco pelo Paris Saint-Germain em meados de 2017, o craque Kylian Mbappé, um dos melhores jogadores desta Copa, foi alvo de uma enxurrada de boatos na internet, o que descambou para uma infinidade de ofensas. Para rebater o que vinha sendo dito, o jovem, então com 18 anos, usou um breve trecho de "A Queda", um dos principais livros de Albert Camus: "A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo que valoriza cada objeto".

Certo, precisamos levar em conta que a escolha da citação possa ter sido feita pelos assessores do atacante, mas, ainda assim, é bom ver um jogador associando sua imagem a um autor do calibre de Camus, um apaixonado por futebol.

Na infância, uma situação peculiar obrigou que Camus se transformasse em goleiro: histórias dão conta de que, a cada vez que chegava em casa, sua avó conferia as solas dos sapatos para ver se não estavam demasiadamente gastas, então, para escapar de surras, resolveu que o melhor era deixar a correria dos jogadores de linha de lado e zelar pela meta de seu time.

Cresceu na posição, chegou a defender o gol de um time universitário e só não foi além na profissão porque uma tuberculose o impediu. Mas não que tenha abandonado completamente o esporte. Em uma de suas frases mais famosas, Camus afirma: "O que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem eu devo ao futebol". Outra conhecida citação ludopédica atribuída ao escritor é esta: "Aprendi que a bola nunca vem por onde esperamos que ela venha. Isso me ajudou muito na vida".

E não foi pouco o que Camus fez com essa sabedoria. Autor de alguns dos livros mais importantes da literatura francesa, como "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo", seus escritos se tornaram reverenciados em todo o mundo muito por conta do modo que expõe os absurdos da humanidade. Vivendo os embates da primeira metade do século 20, foi filiado ao Partido Comunista, de onde foi expulso para depois se tornar um nome escorraçado pelos vermelhos mais radicais; suas posições também levaram à ruptura da amizade com Jean-Paul Sartre, com quem quebrou intelectualmente o pau após o ex-amigo defender a violência como via para revolução. O Nobel de Literatura veio em 1957, com ênfase ao modo como sua "lúcida sinceridade ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos".

Filho de franceses que residiam na Argélia, Camus nasceu em Argel, capital do país africano, e viveu sob os conflitos culturais que emergem da relação entre a França colonizadora e os diversos países que invadiu, uma situação semelhante à vivida por inúmeros jogadores que vestiram e vestem a camisa da seleção francesa. Zinedine Zidane, o maior de todos, por exemplo, passou por problemas por ser filho de pais argelinos. Já Karim Benzema deixou de cantar o hino francês por conta de versos xenófobos – ele é muçulmano e também filho de argelinos. Mbappé, por sua vez, é filho de um argelina com um camaronês – para quem não sabe, Camarões também foi invadido por tropas francesas.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.