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Batalha de Berna: em 54 Brasil protagonizou o duelo mais violento das Copas

Rodrigo Casarin

04/07/2018 09h37

Se hoje as equipes entram em campo com a bandeira do fair play e não há nada que indique que a partida de sexta entre brasileiros e belgas possa descambar para uma baixaria histórica, certo dia a realidade do futebol já foi bem diferente. Em 1954, após a fase de grupos, o sorteio definiu quem enfrentaria quem nas quartas de final da Copa da Suíça. O azar indicou que o Brasil teria pelo caminho a Hungria, que, mesmo desfalcada do craque Puskas, contundido, era tida como a seleção mais forte do torneio.

O Brasil chegara àquela Copa pressionado por nunca ter conquistado um mundial e, mais do que isso, ainda traumatizado pelo Maracanazo de 1950, situação propícia para que uma papagaiada nacionalista fosse enfiada goela abaixo da seleção. Antes do início do jogo decisivo, disputado no dia 27 de junho no estádio Wankdorf, em Berna, noroeste da Suíça, dirigentes tomaram o vestiário brasileiro clamando pelo patriotismo dos jogadores.

Autor de livros como “Coisas Nossas” (José Olympio) e “Ode a Mauro Shampoo e Outras Histórias” (Mórula), no artigo “O Batalha de Berna” – como ficou conhecida aquela partida -, o historiador Luiz Antonio Simas lembra que houve até quem comparasse os atletas aos inconfidentes mineiros e apontasse que os húngaros eram uma espécie de Silvério dos Reis, o homem que traiu Tiradentes. Na sequência, o mesmo lunático ainda desfraldou a bandeira da Força Expedicionária Brasileira – a tropa do país enviada para a Segunda Guerra – e passou àqueles que estavam prestes a entrar em campo.

“Obrigou os jogadores a beijar a bandeira e declarou que naquele jogo contra os húngaros os canarinhos vingariam os mortos de Pistóia – cemitério italiano onde foram enterrados os pracinhas que morreram na guerra. Não ocorreu a ninguém recordar ao homem que brasileiros e húngaros não se enfrentaram no charivari armado por Hitler e Mussolini. Segundo o testemunho de Nilton Santos, o time entrou em campo com os nervos em frangalhos por causa da maluquice”.

O resultado de toda a pataquada é que Djalma Santos, Nilton Santos, Bauer, Didi e companhia subiram para o campo encharcado pela chuva que tomava conta de Berna e em 10 minutos já estavam perdendo por 2 a 0 – logo Djalma descontou e as coisas chegaram ao intervalo com certo equilíbrio. No segundo tempo, no entanto, tudo descambou: o jogo terminou 4 a 2 para os húngaros, mas isso é o que menor importa para a história. No meio da última etapa, Nilton Santos e Boszik já tinham trocado umas porradas e sido expulsos. Pro final do jogo, após o quarto gol húngaro, Humberto Tozzi também deixou o campo mais cedo após dar uma voadora em Buzánszky.

Quando o árbitro encerrou a partida, aí que o pau quebrou de vez. Puskas, que estava na arquibancada, foi ao gramado e tirou uma com a cara de Pinheiro, que não era de engolir desaforo – tanto que voltou para casa com pontos na cabeça após tomar uma bela de uma garrafada. Logo a confusão entre os jogadores, ali pela entrada dos vestiários, era generalizada. Quando um policial correu para apartar a briga, levou uma rasteira de um jornalista brasileiro, o que só piorou a situação. Zezé Moreira, o técnico da seleção, usou uma chuteira para agredir no rosto um estranho que estava por perto – depois descobriria que dera a bordoada em Gusztáv Sebes, ministro do Esporte da Hungria.

“Didi, com dotes de capoeirista, mandava rabos de arraias em quem passasse pela frente. Lira Filho, tresloucado desde o discurso [que dera] no vestiário, começou a correr pelo gramado com a bandeira da Força Expedicionária, aquela mesma que ele obrigara o elenco a beijar por alguma razão desconhecida”, escreve Simas, dando uma dimensão do surrealismo do furdunço que entrou para a história.

Enquanto a batalha campal acontecia, ao microfone de uma rádio brasileira o árbitro Mário Vianna, que tinha apitado uma partida daquela edição da Copa, bradava ao microfone contra o juiz do jogo, dizia que tudo aquilo fazia parte de um complô para favorecer os comunistas – sim, alucinações do tipo não são exclusivas de nossos dias. O resultado? O clima beligerante vivido pelos brasileiros atravessou o atlântico e chegou ao Rio de Janeiro, onde a população também se revoltou. “Perdemos o jogo para a Hungria e o torneio foi na Suíça. No calor das emoções, entretanto, todos os gatos são pardos. Os indignados torcedores cariocas, como bravos guerreiros tupinambás, quebraram, em desagravo ao pavilhão auriverde, a embaixada da Suécia”.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.