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Não seja careta: Copa é para viver o poliamor e se permitir grandes orgias

Rodrigo Casarin

30/06/2018 09h47

O divertido "Tudo Pode Ser Roubado", de Giovana Madalosso (Todavia), é um dos melhores romances que li até aqui neste ano. Nele acompanhamos uma garçonete que tem o hábito de ir à cama para, em algum momento de distração entre ou após o sexo, roubar pertences de seu par. A moça leva uma vida com diversos parceiros, mas não curte muito essa história de vários amores. Em determinado momento, quando ouve alguém falar sobre poliamor, imediatamente rebate em sua cabeça: é coisa de policorno, isso sim. Achei policorno uma palavra sensacional, ri alto quando a li.

Só que a Copa do Mundo é o momento ideal para que as pessoas deixem de caretice e vivam amores diversos. Para que as pessoas celebrem o poliamor e não liguem para eventuais cornos se multiplicando na cabeça. Copa só acontece de quatro em quatro anos, tem que aproveitar mesmo e romper com os padrões preestabelecidos. Concorda?

Não, não estou falando para você deixar seu parceiro ou companheira em casa e sair por aí em busca de aventuras amorosas usando o torneio como desculpa. Também não estou dizendo para que não o faça. Monogamia, poligamia, pacto de lealdade num relacionamento… tudo isso não é problema meu, você e sua dupla – ou trio, ou quarteto – que se entendam. Estou falando de um negócio muito mais sério: o amor à camisa de futebol.

Sou conservador até o último fio de cabelo quando o assunto é futebol. Torço pro São Paulo e acabou. Às vezes posso ir a uma festinha na Javari e fazer um carinho no Juventus ou aproveitar que uma paixão familiar está por perto e ter uma tarde prazerosa com o Linense, mas meu amor é o São Paulo. Com ele é monogamia e fidelidade absoluta.

Mas na Copa a coisa é diferente. Na Copa ninguém é de ninguém. A Copa é bem mais liberal do que o próprio Tim Maia, na Copa vale tudo mesmo. Na primeira fase, em certo momento eu procurava brechas no regulamento para que todas as seleções do Grupo B pudessem se classificar: estava amando Irã e Marrocos pelo carisma, Portugal pelo craque que não merece morrer após míseros três jogos e a Espanha porque toda campeã do mundo merece ser amada até que esteja no mata-mata.

Tive um lance com o Egito graças a Salah, também desejei que Peru e Austrália deixassem a Dinamarca para trás – e se classificassem junto com a potencialmente talentosa França -, quis que todo o grupo D seguisse adiante (como escolher entre Nigéria, Islândia e Messi?). Também tive meus momentos com o México e a pobre Coreia do Sul, além de quase rezar para que a Alemanha encontrasse o Brasil nas oitavas. Rolou ainda uma paixonite pelo Panamá e por quase todo o grupo H, de onde só dispensava mesmo a Polônia, bizarramente escolhida como cabeça de chave enquanto os campeões Uruguai e Inglaterra foram pro pote dois – e assumo que no final quis a morte do Japão por conta daqueles toquinhos de lado para segurar a vaga pelo medonho critério do fair play.

Agora, no mata-mata, a pegada segue a mesma. Dependendo de como for, a gente torce até para os dois times no mesmo jogo. Começa sofrendo pela Suíça, depois vê a raça da Suécia e muda de lado, mas percebe que para a história da Copa seria uma boa a Suíça nas quartas e muda de novo para, logo em seguida, acender uma vela: que tudo se resolva nos pênaltis. Na hora que nos damos conta, estamos numa orgia futebolística tão intensa quanto o bacanal místico com toques tântricos que Reinaldo Moraes tão bem construiu em "Pornopopéia" (Objetiva). Porque a Copa é para isso, para celebrarmos o poliamor ludopédico.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.