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7X1 fez com que colocássemos a Alemanha num pedestal que ela jamais mereceu

Rodrigo Casarin

28/06/2018 08h49

"Aqui é o de sempre, com a Copa do Mundo primando sobre qualquer assunto, e interferindo na vida de toda a população. Quando o Brasil joga, fecha tudo, pessoas morrem de enfarte e, se ganhamos, o carnaval sai pra rua. Formas de esquecer as chateações da vida, sublimação de carências outras".

"Que papelão, que vexame o nosso na Copa, hem? Dá pena é a frustração da gente humilde dos morros e subúrbios, que têm no futebol uma espécie de razão de viver, e nem esta mais lhes é concedida".

Apesar do estilo bem distante do que lemos hoje por aí, essas duas citações poderiam muito bem se referir ao mundial de 2014. A primeira falaria sobre a expectativa para o torneio, já a segunda, óbvio, seria a respeito do 7X1. No entanto, foram escritas muito antes da tragédia do Mineirão. São fragmentos de cartas escritas por Carlos Drummond de Andrade em referência às Copas de 1974 e 1978 e presentes no livro "Quando É Dia de Futebol" (Companhia das Letras).

Trago os trechos aqui para falar justamente sobre o 7X1. O placar não foi exatamente o assunto que primou entre a população nesses últimos quatro anos, mas é fato que ele interferiu ou esteve presente na vida de todos – ou de 2014 para cá alguém passou um mês sem ouvir algo relacionado ao resultado do jogo. Sim, também é fato que foi um papelão, um vexame, da mesma forma como Drummond escreve sobre a campanha de 1978.

O placar é mesmo acachapante. Difícil olhar para uma equipe que faz 7X1 na seleção brasileira numa semifinal de Copa do Mundo disputada exatamente no Brasil e automaticamente já não cravá-la como um grande time. Com esse time levantando a taça, então, não há argumento que sustente uma opinião contrária, não é mesmo? Quase isso.

Drummond.

A Alemanha de 2014 era realmente ótima, e continua sendo muito boa em 2018, apesar do vexame que acaba de dar na Copa da Rússia. Só que, olhando friamente, é uma seleção que está muito mais próxima do que vimos por esses dias do que daquela com imagem de titãs invencíveis e impiedosos que levaram aqui do Brasil.

O 7X1 deu um ar para aquela campanha que não corresponde à realidade – se aquele foi um dia completamente atípico para o Brasil, também foi para a Alemanha. Basta repassar os jogos dos alemães por aqui para notar. Goleada empolgante contra um capenga Portugal na estreia, empate suado com Gana e vitória magérrima contra os Estados Unidos na fase de grupos. Nas oitavas, derrotaram a fraca Argélia com as calças na mão, com a vitória vindo apenas no segundo tempo da prorrogação, e com direito a sufoco dos africanos. Já nas quartas, outra vitória raquítica, desta vez em cima da França. Por fim, no Maracanã, só não perderam de uma Argentina que nem sabe como chegou ali porque Higuaín está no mundo para azedar de vez a relação de Messi com a seleção – em todo caso, se alguém jogou melhor aquela final, foi a equipe sul-americana. Percebem? Não é um time que sai pisando na cabeça de todos os adversários, não é uma campanha que dá lastro para o massacre do Mineirão.

Agora, na Rússia, a situação se inverteu. Não acho que a Alemanha tenha feito jogos tão terríveis como a lanterna do grupo supõe. A partida contra o México foi aberta e as duas equipes perderam uma enxurrada de gols. O mesmo vale para o jogo contra a Suécia, ainda que as chances dos dois lados tenham sido bem menores. E a despedida contra a Coreia foi naquele típico dia em que um time pode ficar tentando do amanhecer até o pôr do sol que não conseguirá fazer o gol. Se não chega a ser injusta a eliminação alemã, também não seria nenhum absurdo caso tivessem empatado na estreia e vencido os coreanos (que só foram assinalar seus gols quando a vaca germânica se desesperava ao se deparar com o); seria suficiente para que ficassem com a vaga.

Voltando ao Drummond, passamos quatro anos infartando por culpa do 7X1. Nesse infarta mas não morre, colocamos aquela seleção alemã num pedestal que ela jamais mereceu ocupar, como se fosse uma das maravilhas do mundo. Não é, nunca foi, apesar de muito boa. Da mesma forma que agora não merece ser considerada a escória ludopédica do planeta, por mais que os resultados mostrem mesmo um papelão, um vexame dos chucrutes na Rússia.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.