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E se um jogador assumisse ser homossexual em plena Copa da Rússia?

Rodrigo Casarin

24/06/2018 09h24

Brasileiros expondo uma russa ao ridículo ao fazê-la repetir palavras que não conhecia. Colombianos seguindo caminho torto semelhante e achincalhando uma japonesa. Poloneses quebrando o pau com senegaleses. Argentinos espancando croatas. Numa Copa que nasceu cercada de preocupações sobre a maneira como torcedores LGBTs poderiam ser tratados na Rússia, onde homossexuais são constantemente perseguidos com considerável leniência das autoridades, tem aparecido com frequência o assédio, o oportunismo e o machismo típicos de quando um bando de homens se reúne. E, por mais lamentável que seja, é esse mesmo o ambiente em quase todos os estádios de futebol, o que só evidencia a necessidade de mudanças.

Levando em conta esse cenário criado por certos torcedores e a realidade medieval da Rússia – e não só da Rússia –, o que aconteceria se um jogador se assumisse gay em plena Copa do Mundo? Com certeza haveria apoio considerável da mídia e de milhões de pessoas mundo afora, mas a parte barulhenta da torcida de sua seleção no mínimo reclamaria, enquanto torcedores de outras seleções transformariam o fato num motivo de chacota, não tenho dúvidas disso. A Fifa se manteria isenta, creio. Minha maior dúvida é o que faria o governo do país e parte dos próprios russos: até que ponto demonstrariam o deduzível descontentamento?

No mundo ideal, imaginamos que uma atitude dessas poderia servir de disparador para uma mudança na cultura do futebol, o que impactaria positivamente em toda a sociedade. No entanto, sabemos que entre o mundo real e o ideal há uma distância de algumas galáxias. Uma prova disso talvez seja a ausência de Radja Nainggolan da Copa, estranhamente fora da lista final da seleção belga. Segundo o treinador, os motivos são meramente técnicos. Mas a parte comportamental pode ter pesado, afinal, o jogador costuma levantar bandeiras pró LGBTs e contrárias à homofobia.

Trago esse assunto não apenas pela pertinência neste momento de Copa, mas também porque acaba de ser lançada uma HQ que trata justamente desse tema. Em “O Outro Lado da Bola” (Record), Alê Braga, Alvaro Campos e Jean Diaz constroem a história de Cris, craque que briga por uma vaga no ataque da seleção brasileira e que assume publicamente sua homossexualidade após um antigo namorado morrer espancado em um ataque homofóbico. É oportuna a observação do jornalista André Rizek em um dos textos de apoio presentes na obra:

“Existem padeiros gays, jornalistas, advogados, taxistas, farmacêuticos gays. Por que não haveria, aos montes, jogadores gays? Isso diz muito sobre o esporte que quase todo brasileiro ama e que está cheio de preconceitos desde a nossa infância. ‘Chuta que nem homem’, ‘Futebol é coisa pra homem’ e por aí vai. Junto com essa homofobia odiosa, cresce no futebol uma violência desenfreada que precisa ser debatida – e não escondida”.

A partir da declaração às câmeras de sua opção sexual, o que temos é uma narrativa que se constrói mostrando como o ato de Cris repercute no ambiente permeado por esse machismo e homofobia. O patrocinador se preocupa com qual impacto isso trará para sua marca. O presidente, com a “fama” do clube e com as cláusulas de contratos fechados com parceiros diversos. Os colegas jogadores estão encanados com o que dirão deles, que dividem o vestiário com um homossexual assumido. Já a torcida não perdoa: quer o atleta longe do time e promete pegar meio mundo de pau se algo drástico não for feito – isso publicamente; nos bastidores faz negociações para descolar alguns benefícios. Ainda que um tanto estereotipados, os personagens e a postura das instituições e entidades servem para deixar escancarado como funciona parte considerável e poderosa deste meio.

Voltando à pergunta inicial: não sei exatamente como seria se algum jogador de futebol assumisse a homossexualidade na Copa da Rússia, mas os fatos nos dão indícios e uma ficção tão próxima ao real como “O Outro Lado da Bola” – que se passa em São Paulo e, dentre outras coisas, apresenta uma maravilhosa perspectiva de como poderia estar o Pacaembu, que pode ser vista na imagem acima – facilita ainda mais a construção dessa ideia. Uma ideia triste, diga-se.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.