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Marcelo D’Salete: Ainda não superamos a política genocida de séculos atrás

Rodrigo Casarin

22/12/2017 10h53

Foto: Rafael Roncato.

“Você ainda não entendeu, padre. Cada um deles… É muito mais do que apenas um….”

A frase acima, dita por um dos perseguidores, dá a dimensão de como foi o processo de construção e resistência de Angola Janga. Ou, como entrou para a história abrasileirada, Palmares, uma espécie de reino africano dentro da América do Sul formado no final do século 16, em Pernambuco, por negros que fugiam da escravidão.

Palmares cresceu. Tornou-se tornou alvo dos escravistas e dos colonizadores ao mesmo tempo que servia de destino a ser alcançado por aqueles que conseguiam deixar seus “senhores” e capatazes para trás. Com o passar dos séculos, Palmares se transformou em nossa maior referência histórica de luta dos negros contra a escravidão no Brasil; Zumbi, um de seus principais líderes, virou lenda e, para muitos, heróis.

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É a história do surgimento e da queda de Palmares que o quadrinista Marcelo D’Salete resgata em “Angola Janga”, obra primorosa que acaba de lançar pela Veneta. “Este momento foi central para pensar o Brasil colonial e os conflitos envolvendo grupos negros, luso-brasileiros e indígenas. O livro tenta abarcar boa parte da história, da complexidade e dos personagens de Palmares. Não foca apenas em um indivíduo, mas num conjunto de relações e conflitos”, diz o autor. Marcelo levou 11 anos para compor a HQ. “Palmares é uma história incrível e complexa. Foi necessário estudar a fundo o período do Brasil colonial e a escravidão. Demorou até encontrar a maneira mais interessante para contar essa história”.

O resultado é um trabalho de fato com múltiplas dimensões, que pode se relacionar de diversas formas com o Brasil de hoje, como aponta o autor. “Há diversos modos de relacionar esses dois momentos. Por exemplo, os remanescentes quilombolas atuais, dentro de suas diversas narrativas e formas de resistência, ainda mostram como estamos tentando lidar com essa realidade. Assim como no passado, os grupos dominantes violentam continuamente os direitos dos povos quilombolas e indígenas. Ainda não superamos, como um todo, a política genocida de séculos atrás”.

Um dos méritos de “Angola Janga”, uma das melhores HQs do ano no país, é não centralizar a narrativa em Zumbi, que aparece sim como importante personagem, mas acompanhado de gente como Ganga Zumba, Domingos Jorge Velho e Ganga Zona. Na entrevista, Marcelo também comentou sobre isso, bem como as críticas que alegam que Zumbi tinha seus próprios escravos:

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“A história de Palmares é maior que a figura de Zumbi, embora ele tenha sido um líder importante. Poderia haver cativos em Palmares, mas é preciso compreender isso dentro de um contexto de contínuos conflitos entre os palmaristas e o poder colonial. Havia espias e desconfiança em toda parte. Precisamos avançar e compreender Palmares a partir de outras perspectivas. Vale lembrar, milhares de pessoas fugiam para Palmares e não sabemos de pessoas que fizeram o caminho contrário, saindo de Palmares em direção às vilas coloniais. Palmares era um espaço de autonomia de maioria negra que ousou e venceu os soldados luso-brasileiros por décadas”.

Veja algumas páginas de “Angola Janga” (clique nas imagens para ampliá-las):

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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