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Olavo Bilac, o poeta que conseguiu bater um carro a 4km/h

Rodrigo Casarin

05/12/2017 09h39

Reprodução de um Serpollet.

No final do século 19, o Rio de Janeiro passava por diversas transformações e uma novidade que aparecia na cidade era o automóvel. Em 1897, o jornalista José do Patrocínio, dono do jornal “A Cidade do Rio”, comprou um Serpollet, carro francês que se transformou em um dos primeiros a rodar pelo país. Como é de se imaginar por conta da época, o veículo não era exatamente potente, mas, por outro lado, seus condutores passavam não eram exatamente pilotos.

O Serpollet, claro, chamava atenção das pessoas na rua, devia ser uma honra poder guiar o carro por alguns instantes. E José concedeu esse agrado ao amigo Olavo Bilac, autor de “Contos Pátrios”. Justamente o homem das letras que conseguiu a grande façanha. “Bilac ligou o carro e começou a andar pela Estrada Velha da Tijuca, no Alto da Boa vista, chegando a atingir 4 km/h. Na primeira curva, essa ‘rapidez’ fez com que o poeta perdesse o controle do carro e batesse de frente com uma árvore. A tragédia com o parnasiano foi o primeiro acidente de carro registrado no Brasil”. Não bastasse, o veículo ainda teve perda total com o acidente.

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O causo está contado com detalhes em “História Bizarra da Literatura Brasileira”, de Marcel Verrumo, jornalista e mestre em Comunicação pela Unesp, lançado recentemente pela Planeta e de onde tirei a citação acima. Na obra, o autor resgata momentos dos bastidores da produção literária nacional. São 50 capítulos que trazem passagens protagonizadas por escritores famosos e outros menos conhecidos do grande público nos dias de hoje.

Olavo Bilac.

O autor recorda, por exemplo, que Álvares de Azevedo previu e acertou o dia de sua morte, que Guimarães Rosa ajudou a salvar a vida de centenas de judeus na Segunda Guerra Mundial e que João Antônio precisou reescrever “Malagueta, Perus e Bacanaço”, um dos seus títulos mais importantes, após um incidente com o ferro de passar roupa provocar um incêndio na sua casa e queimar a primeira versão da obra. Mas nem só de autores finados o livro é feito. Dentre os nomes ainda vivos, há histórias sobre Marçal Aquino (um dos nomes responsáveis pelo sucesso da Coleção Vaga-lume) e Paulo Coelho (influenciado decisivamente pela aparição de um suposto espírito).

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Em entrevista ao blog, Marcel conta que vê a obra como um meio para aproximar as pessoas da literatura via curiosidades que normalmente não são trabalhadas nas salas de aula. “Acredito que a função do curioso, nesse caso, seja servir como uma porta de entrada para muitos leitores se aproximarem de nossas Letras e de nossos escritores. Não se trata de um trabalho que tem a função de substituir uma pesquisa acadêmica, longe disso. Bebendo e respeitando essas fontes, é um livro que busca despertar no leitor o interesse para com nossa literatura”, diz.

“Uma segunda função, mas não menos valiosa, é apresentar personagens poucos conhecidos e que passam batidos em sala de aula, mas que são importantes de nossa literatura: a primeira mulher a escrever um livro, o primeiro livro de ficção científica nacional, escrito no século 19, o escritor escravo a ditar a própria biografia para lutar pela liberdade…”, continua Marcelo.

Dentre as histórias preferidas do próprio autor estão a de Pero Vaz de Caminha – cuja carta que marca o início da literatura no país foi escrita não para falar do Brasil exatamente, mas para livrar um ladrão do exílio -, a de Machado de Assis – “que, de vendedor de balas de coco, se tornou aquele que é considerado o maior literato brasileiro, para muitos” – e a trajetória da literatura LGBT por aqui, “outro tema bem à margem das aulas de Literatura”, pontua.

Para compor os capítulos, Marcel se valeu de pesquisas em fontes diversas, como livros, filmes, ensaios, documentos oficiais, jornais, revistas, trabalhos acadêmicos e entrevistas. Como exemplo do trabalho, cita de onde retirou a informação de que Bilac bateu o carro a inacreditáveis 4km/h. “Ter estudado a obra de João do Rio no Mestrado tornou a pesquisa sobre esse período [século 19] mais fluida. E é justamente daí que vem esse dado, bem como detalhes do acidente. No caso, a informação é do próprio repórter-cronista João do Rio e foi citada por Magalhães Júnior em ‘A Vida Turbulenta de José do Patrocínio’”.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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