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Perrengues e muitas dúvidas: biografia de Da Vinci mostra formação do gênio

Rodrigo Casarin

07/12/2017 10h31

Uma das primeiras coisas que Walter Isaacson faz em “Leonardo Da Vinci” (Intrínseca), biografia que escreveu sobre o mestre renascentista, é colocar em cheque a definição de que o pintor de “Mona Lisa” teria sido simplesmente um gênio. Com o questionamento, Isaacson, jornalista e também autor de obras sobre a vida de Steve Jobs e Albert Einstein, dispensa qualquer pensamento de que Da Vinci seria abençoado, privilegiado por dons escusos ou desde sempre superior aos outros seres humanos. E o que temos nas mais de 500 páginas de narrativa é justamente a explicação do quanto Leonardo precisou ralar para se transformar no que se transformou.

A base de Leonardo, como mostra o biógrafo, está em sua curiosidade. Ao longo da vida, pautou seus estudos em cima de dúvidas que iam das mais comuns (por que o céu é azul?) às completamente improváveis (como pessoas conseguem andar sobre o gelo de Flandres? Como é a língua do pica-pau?), sempre flertando – e em alguns casos borrando – o limite entre o real e a fantasia. Adquirindo conhecimento principalmente com estudos próprios e experimentos práticos, começou a agregar saberes dos mais diversos nas muitas frentes em que atuava. Para Leonardo, ciência e arte se juntavam sob uma mesma premissa: a busca incansável pela perfeição e pela compreensão dos mínimos detalhes. Por isso, o que fez enquanto engenheiro de guerra ou inventor mirabolante impactou diretamente na composição de suas mais famosas obras de arte – e vice-versa.

A última ceia.

Da mente insaciável também surgem confabulações curiosas e divertidas. Veja esse excerto de um dos cadernos de Da Vinci: “O pênis às vezes demonstra possuir intelecto próprio. Embora um homem possa desejar ser estimulado, o pênis permanece obstinado e age por sua conta, às vezes se movendo sozinho, sem a permissão de seu dono. Independentemente de estar acordado ou dormindo, ele faz o que deseja. É comum que o homem deseja usá-lo e ele deseje outra coisa, e é comum que ele queira ser usado e o homem o proíba. Portanto, me parece que essa criatura possui vida e inteligência separadas do homem”.

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Homem pouco prático, gostava mais de estudar e planejar do que de executar tudo o que pensava – sua força motriz vinha dos desafios intelectuais. Dessa forma, são inúmeros os casos de trabalhos que não completou. Até por isso, como é possível imaginar, Leonardo não teve uma vida financeira exatamente fácil. Passou boa parte de sua existência em busca de mecenas que garantissem sua sobrevivência e lhe dessem algum espaço para realizar experimentos e adquirir novos saberes em cada obra – seja lá qual for o tipo de obra – que precisava executar. Só alcançou de fato alguma tranquilidade e conforto no final da vida, quando deixou a Itália para morar na França.

Um trecho da biografia, sobre a juventude de Da Vinci, dá uma ideia de que mesmo ele passou por perrengues conhecidos pela maioria dos meros mortais: “Leonardo não foi capaz de pagar a primeira parcela do dote e, assim, ficou em dívida com o mosteiro. Ele também precisou pegar dinheiro emprestado para comprar tinta. Foi pago com uma porção de gravetos e troncos por ter decorado o relógio do mosteiro, mas ‘um barril de vinho tinto’ foi debitado de seu crédito. Ou seja, um dos artistas mais criativos de toda a história estava decorado um relógio em troca de lenha, pedindo dinheiro emprestado para comprar tinta e mendigando por vinho”.

Dama com arminho.

Entorno fascinante

Não bastasse a vida de Leonardo ser fascinante por si só, seu entorno também colabora para que o livro de Isaacson seja cativante. Alternando temporadas em Florença, Milão e em certo momento Roma, Da Vinci conviveu com outros grandes nomes da história, fossem artistas, fossem políticos: Michelangelo, Rafael, César Bórgia, Maquiavel, Ludovico Sforza… Além disso, ao longo de sua formação, nos deparamos com o momento decisivo do processo para que as obras de arte deixassem de ser vistas como elaborações coletivas (era comum que um mesmo quadro fosse pintado por diversos artesãos sob comando de um mestre) e a assinatura de seus artistas passassem a ter grande valor. A pretensão de agradar o divino por meio de esforços conjuntos começava a perder espaço. A importância do talento individual, por sua vez, crescia.

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Ao falar das pinturas de Leonardo, Isaacson ainda faz um grande favor aos leigos em artes plásticas (o meu caso): conduz com paciência o leitor a cada detalhe de quadros e afrescos. Dessa forma, deixa claro os motivos pelos quais peças como “Dama com Arminho”, “A Anunciação”, “A Última Ceia”, “Virgem dos Rochedos” e, claro, “Mona Lisa” são tão veneradas mesmo cinco séculos depois de suas composições.

A anunciação.

No final, o autor volta à questão da genialidade. “Leonardo era um gênio, uma das poucas pessoas na história que mereceu – ou, para ser mais preciso, conquistou – de forma inquestionável tal título. Ainda assim, também é verdade que ele não passava de um mero mortal. A prova mais óbvia de que era humano, não super-humano, é a trilha de projetos inacabados que deixou para trás”, constata Isaacson, que em seguida se aprofunda no talento do seu biografado: “O que fez de Leonardo um gênio e o diferenciou do restante das pessoas que são apenas extraordinariamente inteligentes foi a criatividade, a habilidade de aplicar a imaginação ao intelecto. A facilidade em combinar observação com fantasia permitiu que ele, assim como outros gênios criativos, criasse saltos inesperados relacionando coisas existentes com outras jamais vistas”.

“Leonardo Da Vinci” ainda agrada por trazer informações bastante atuais sobre o biografado – como sabemos, a história está sempre sendo revista, recontada ou ganhando novos capítulos a cada nova descoberta ou a cada quadro arrematado em leilão. No entanto, o trabalho de Isaacson falha em ao menos um ponto. A edição deixou passar repetições desnecessárias de determinadas informações: a de que César Bórgia podia se instalar na casa de uma pessoa sem que ninguém percebesse, por exemplo, ou que Leonardo aproveitava cada cantinho de seus cadernos porque o papel era caro. Particularmente, incomoda. De todo modo, é um livro imperdível para quem se interessa pela vida dos gigantes da história da humanidade e para quem deseja entender como Da Vinci se fez um gênio.

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Mona Lisa.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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