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Para falar de amor: Marina Ruy Barbosa deveria ler Marcelo Mirisola

Rodrigo Casarin

19/12/2017 09h40

Logo depois que escrevi a resenha de “Inspirações” (Objetiva), o livro todo meloso da atriz Marina Ruy Barbosa, peguei para ler “Como Se Me Fumasse”, romance de Marcelo Mirisola que acabou de sair pela Editora 34. Dei sorte, muita sorte. O livro não é apenas muito bom, mas também uma certeira dica de leitura para Marina. Se qualquer hora a garota resolver fazer uma coletânea com trechos de prosa, torço para que parta de Mirisola para falar de amor; com certeza resultará em algo bem menos modorrento do que o volume que organizou com poemas.

O amor em Mirisola é quase sempre trágico, idealizado mas não correspondido, repleto de quedas, frustrações e humilhações. As mulheres de Mirisola esnobam, maltratam, despedaçam seus homens. Estes, por sua vez, parecem adorar o papel de capacho, parecem se deleitar toda vez que são feitos de trouxa por moças que sabem que têm os rapazes a seus pés de unhas sempre pintadas. O amor em Mirisola não é em rosa pastel, mas, dependendo do momento, em vermelho extravagante ou cinza decadente. E o amor de Mirisola é sempre acompanhado de tesão, muito tesão.

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Em “Como Se Me Fumasse”, Marcelo, o escritor que narra a história – e cuja trajetória a todo momento se confunde com a do próprio Mirisola, uma de nossas referências na autoficção -, vai a um adivinho que costuma atender celebridades e ouve a profecia sobre a mulher de sua vida: “Sai fora, ela é maluca. Vai ser sua ruína”. Quem conhece o autor sabe, no entanto, que seus personagens jamais negariam a própria ruína. Quando a sumida Ruína – a moça passa a ser chamada dessa forma – bate na porta de Marcelo, lhe abraça e, quem sabe, lhe beija, pronto, a queda do moço está armada.

“A queda do beijo é a obsessão, mas não é, ainda não é o suficiente para me destruir. Qualquer outro sucumbiria ao remoer e tentar compreender o vaivém de Ruína, qualquer outro já teria ficado maluco, eu não, eu não me perco completamente, antes me alimento. Não se trata de resistência, nada disso, longe disso. É só o meu jeito muito particular de produzir o veneno que mata e alimenta, de me vir refletido no espelho. ‘Ela vai acabar com você, vai destruí-lo’.

– Tudo o que você pensa que construiu na vida vai ruir diante dela.

Enquanto ela não vier, faço apenas construir uma catedral cujos tijolos são a loucura e a argamassa é a obsessão. No etéreo e no metafísico estou ganhando de 7 a 1, e continuo caindo”, nos conta o personagem.

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Ao mesmo tempo abraça a obsessão, Marcelo repassa parte da própria vida: a morte da mãe, as enrascadas que se meteu com o pai, a trajetória como escritor, as mulheres que a carreira trouxe… “Ontem a sensação de paz durou eternos mais ou menos um minuto e meio, que foi o tempo de sair do bar, caminhar na direção da lua cheia, dobrar a esquina e deixar para trás a sombra que me acompanhou ao longo de toda a vida. O resto dos meus cinquenta anos contei apenas exasperação, angústia, tédio, decepção e tristeza”.

Ao falar de literatura, aliás, há passagens em “Como Se Me Fumasse” que me deixaram pensativo. Em determinado momento o narrador menciona um colega que se aproveitaria do suicídio de um amigo chamado André para escrever sua obra-prima – em “O Céu dos Suicidas”, Ricardo Lísias constrói uma história que parte justamente do suicídio de André, o melhor amigo do narrador. Em outro trecho, Marcelo fala de um “mendigo do feicebuque curado pela poesia que recusava furiosamente o epíteto de novo Bukowski porque a moda do momento era ser Lima Barreto e desfilar a revolta nacionalista na Flip” – consigo imaginar quem, com alguma ponderação, se encaixe bem no personagem.

Mas voltemos à Ruína, que, como o narrador explica, aparece em quase toda a obra de Mirisola, ainda que com outros disfarces. “Ruína que já foi Joana a contragosto, que também foi Ariela, que era Natasha, que se transformou em Juliana que quase me matou e salvou minha vida em seguida, e todas elas que se misturavam e se retroalimentavam e depois se autoabortavam e viravam ficção que eu abominava enquanto envelhecia e o caçula não parava de meter e fazer um filho atrás do outro. O auge dessa maluquice registrei em ‘Hosana na Sarjeta’”.

Amor, sim, mas com doses cavalares de maluquice, desespero, autodepreciação, paixão, loucura, sofrimento, humilhação… Não uma coisinha plácida, meiga, bonitinha… Se for reunir um volume de amor em prosa, Marina, faça um livro de ruínas. Se for fazer um livro com trechos de amor em prosa, Marina, comece por Mirisola.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.