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Phoolan: De "Rainha do Crime" a símbolo da luta contra o machismo

Rodrigo Casarin

03/03/2020 09h48

Phoolan Devi nasceu em Uttar Pradesh, no norte da Índia, em 1963 e viveu o horror.

Integrante de uma casta bastante desfavorecida, trabalhou desde pequena para que tivesse algo para comer. Quando se queixava, ouvia dos pais que estava no mundo para fazer tudo o que lhe mandassem fazer, pois essa era a vontade divina. Só deveria tomar muito cuidado com os homens: nenhum poderia lhe tocar até que fosse entregue ao seu futuro marido, o que aconteceu quando tinha dez anos.

O casamento forçado foi seguido de estupros diários. Presa num estábulo, esteve à mercê de seu carrasco durante meses, até que ficasse gravemente doente. O marido não gostou daquilo, falou com os pais de Phoolan e exigiu a anulação do casamento. Violada, a garota voltou para casa como uma maldição.

Sem chance de ainda ter alguma inocência, passou, então, a lutar pelo que acreditava ser certo, a começar por defender sua família daqueles que os açoitavam. Desagradou os poderosos. Acabou sendo espancada e presa sob acusação de fazer parte de um grupo de criminosos. Passou três dias numa cela, amarrada em uma cadeira, sendo vigiada e estuprada por 12 policiais.

A liberdade veio acompanhada de mais agressões e humilhações. Pouco tempo depois, Phoolan parou nas mãos dos Dacoits, organização clandestina que funcionava como uma espécie de Hobin Hood naquela região da Índia. Tinha 16 anos na época e acabou sendo acolhida pelos membros do grupo, que lhe ajudou a se vingar de alguns de seus malfeitores – a começar pelo primeiro marido.

O momento favorável, no entanto, não passou de um breve intervalo em seus sofrimentos. Cerca de um ano depois, capturaram Phoolan e a levaram a diversos vilarejos, onde foi oferecida a todos os homens que cruzaram seu caminho. O martírio da vez durou 23 dias, até que uma moça se compadeceu da sua situação e lhe ajudou a fugir. Phoolan, então, decidiu criar a própria gangue para caçar e punir estupradores.

Em pouco tempo, transformou-se num ícone para as mulheres pobres da Índia, frequentemente submetidas a horrores semelhantes aos que passou. Ganhou a alcunha de "Rainha dos Bandidos"; também ganhou as autoridades no seu encalço, numa perseguição que aumentava com o passar do tempo. Com a iminência da nova queda, optou por dar as cartas e negociar a rendição: pediu terra para seus pais, garantias de segurança e julgamentos justos para si e para seus companheiros.

Após entregar as armas, aguardou por onze anos a posição do tribunal. Mudanças políticas fizeram com que as acusações contra Phoolan fossem retiradas. A mulher, então com 31 anos, resolveu seguir com sua luta, mas desta vez no parlamento. Elegeu-se em 1996 tendo a proteção aos pobres e às mulheres como sua bandeira principal.

Phoolan chegou a ser indicada ao Nobel da Paz antes que a violência voltasse a lhe encontrar, desta vez de forma derradeira. Em 25 de julho de 2001, após uma sessão legislativa, foi assassinada com dois tiros na cabeça. Certos homens jamais a perdoaram por ter ousado combater o machismo com todas as forças possíveis.

Conheci a história de Phoolan graças ao segundo volume de "Ousadas – Mulheres que Só Fazem o que Querem", da francesa Pénélope Bagieu, que acaba de chegar às livrarias brasileiras pela Nemo em tradução de Renata Silveira. A série, que já vendeu mais de 200 mil exemplares somente na França, começou com a artista publicando em seu blog, o Culottées, histórias ilustradas inspiradoras de mulheres que peitaram o mundo ao seu redor para trilhar caminhos singulares em suas vidas.

O primeiro volume da coleção saiu no Brasil em 2018 e apresentou aos leitores a trajetória de gente como Agnodice, ginecologista que precisava se disfarçar de homem para exercer sua profissão na Grécia Antiga, e Lozen, guerreira e xamã dos Apaches. Agora, no segundo volume do trabalho de Pénélope, podemos conhecer ou revisitar histórias como a de Temple Grandin, ativista pelos direitos dos animais, Betty Daves, cantora e compositora que atropelou o machismo para construir sua carreira, e Naziq al-Abid, síria que militou pelos direitos das mulheres na primeira metade do século 20.

Dentre as 15 histórias presentes no livro, outra que me chamou especial atenção foi de Sonita Alizadeh. Nascida no Afeganistão em 1996, o casamento ao qual lhe forçaram aos nove anos acabou não acontecendo. Como refugiada, descobriu no rap uma forma para expressar seus sentimentos e insatisfações. Passou a usar as letras de música para denunciar as injustiças ao seu redor, incluindo o machismo e as tradições arcaicas, esses elementos tão presentes nas histórias do livro. Aos 18 anos, conseguiu driblar o destino que parecia inevitável e se tornou uma estrela internacional que estende a mão a outras moças.

Ousadas e inspiradoras essas mulheres.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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