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Por que a guerrilha? Todos deveriam conhecer a história de Marighella

Rodrigo Casarin

22/11/2019 10h43

No interior de São Paulo, um professor negro é esfaqueado. No Rio, uma missa com referências africanas numa igreja católica, pensada para celebrar a diversidade e a tolerância, é sabotada por extremistas cristãos. Na Câmara, um ogro eleito representante de certa parcela do povo ataca um painel com uma charge que denuncia o racismo policial. No ano, dentre os milhares de assassinados pela corporação que é o braço armado do Estado, estão cinco crianças. Encorajados pelo discurso de autoridades do Planalto, madeireiros colocam florestas abaixo e ameaçam, agridem e assassinam indígenas. Na capital paulista, outro representante de parte do povo anuncia uma homenagem a Augusto Pinochet, crápula chileno, para o mesmo dia em que celebramos os Direitos Humanos. Um partido tenta nascer exaltando a bala de revólver.

Há quem siga acreditando no Estado. Há quem siga acreditando nas instituições. No entanto, como seguir confiante de que as coisas estão no caminho certo ou irão melhorar se em muitas situações é o próprio Estado, são as próprias instituições, que fazem os ataques ou acobertam os agressores? Se são autoridades de múltiplas instâncias que incentivam com discursos ou executam as mais diversas formas de violência, contrariando as leis e a Constituição que juraram seguir e defender?

Enquanto isso, nada do filme sobre Carlos Marighella estrear por aqui. O longa dirigido por Wagner Moura e estrelado por Seu Jorge deveria chegar aos nossos cinemas nesta semana, mas não foi o que aconteceu. Parece que a O2, a produtora, vai picotar as filmagens e transformá-las numa série de televisão. Aguardemos. Enquanto isso, o filme segue fazendo sucesso no exterior. Semana passada foi a vez de lotar sessões e ganhar aplausos dos portugueses.

Se não temos o filme no Brasil, ainda temos nas livrarias a ótima biografia do político de trajetória emblemática. "Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo", do jornalista Mário Magalhães (Companhia das Letras, 2012), é daqueles trabalhos que todos deveriam ler, independente da posição ideológica. Como o próprio autor escreve já no final do volume, trata-se de uma reportagem que escrutina os triunfos e tropeços do personagem, seus altos e baixos, suas grandezas e pequenezas. "Ninguém precisa amar ou odiar Marighella. Mas é difícil ser indiferente ao seu épico".

Vou além. Neste momento do país, é um desperdício não apresentar tal épico ao maior número possível de pessoas. Inclusive a família que hoje manda no Brasil deveria se debruçar sobre a história de Marighella. Entenderiam como palavras contra minorias, legitimação de atitudes autoritárias, perseguições políticas, o acossar da população, a intolerância, a supressão de direitos e o aumento das diversas formas de violência por parte do Estado podem fazer com que homens e mulheres de iniciativa uma hora encham o saco de apostar num jogo que parece viciado e comecem a pensar em soluções práticas contra o próprio Estado. Soluções que, eventualmente, também desprezam as regras estabelecidas, mas pouco seguidas por aqueles que precisariam obrigatoriamente cumpri-las, pois ocupam cargos que deveriam ser a própria personificação dessas regras.

Como Mário conta na biografia, no dia 31 de março de 1964, poucas horas antes do Golpe Militar, um tenente vociferou para sua tropa: "Quem quer passar fogo nos comunistas levante o fuzil!". Na última corrida eleitoral, certo candidato adotou discurso semelhante. Diante de tais cenários, difícil não ecoar Marighella: "Os brasileiros estão diante de uma alternativa. Ou resistem à situação [….] ou se conformam com ela. O conformismo é a morte".

Insisto, seria muito importante que todos conhecessem a história de Marighella. Não para concordar ou discordar, mas para entender como as coisas funcionam e ao que elas podem levar.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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