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Costentenus: o "freak" que fez grana mundo afora exibindo seu corpo tatuado

Rodrigo Casarin

19/09/2019 06h51

Ao longo da história, muitos humanos se exibiram ou foram forçados a se exibir em praça pública em troca de alguma grana – para si ou para quem literalmente os possuía. O greco-albanês George Costentenus era um desses que empreendiam com as peculiaridades do próprio corpo. Um artigo de 1890 do jornal sergipano "O Republicano" o definia como um "indivíduo todo sarapintado que tendo estado em terra foi pasto de geral curiosidade". Costentenus passou pelo Brasil no final do século 19. Antes disso, tinha feito fama nos Estados Unidos e na Europa graças ao seu corpo quase inteiramente tatuado.

Costentenus era cheio de histórias. Assegurava ter feito parte do exército grego e participado de uma revolução contra o imperador na China, onde acabou preso e torturado. Os brincos e pedras preciosas que usava eram presentes de um presidente dos Estados Unidos e de um primeiro-ministro inglês, garantia. Suas tatuagens tinham sido feitas na Birmânia, por onde passou na década de 1860, quando atuava como marinheiro. Uma peculiar tanga cravejada de ouro era parte de seu figurino. A "peruca trançada e um gorro encarnado completavam o visual exótico do 'self-made freak', aqueles que adquiriam características estranhas para ganhar dinheiro nos diversos shows de variedades do Ocidente", aponta Silvana Jeha em "Uma História da Tatuagem no Brasil", livro que acaba de sair pela Veneta.

Segundo a autora, o tatuado aportou por aqui contratado por um empresário estadunidense depois de, aparentemente, perder mercado no hemisfério norte. Antes de chegar na capital fluminense, passou por Belém, Natal, Recife e Aracaju. "No Rio de Janeiro, ele se expôs durante agosto e setembro de 1890, das 19 às 23 horas, cobrando de $500 a $1000 réis na rua do Espírito Santo, hoje Pedro I, na área da praça Tiradentes, que reunia vários locais de entretenimento. Meses depois, era anunciado como atração no Teatro Eldorado" e ainda passaria por São Paulo, aponta a pesquisadora.

As apresentações do greco-albanês aconteciam em espetáculos de variedades, shows que reuniam ainda esportistas e artistas que "entretinham a sociedade nas grandes cidades do Brasil". Eram encontros "frequentados tanto pela elite como pelas camadas populares. Teatro, circo, música: tudo numa noite", registra Silvana.

Faço um recorte específico por ter achado Costentenus um personagem curioso, mas a obra vai muito além de momentos peculiares. A autora é doutora em história pela PUC-Rio, defendeu sua tese estudando os marinheiros brasileiros do século 19 – o que serviu de inspiração para a pesquisa a respeito das tatuagens – e já se debruçou também sobre o passado de indígenas, de prostitutas e da escravidão. Os marginalizados, aliás, estão no centro da obra, que delineia como a história da tatuagem por aqui se mescla com a história dos povos que colonizaram, foram forçosamente trazidos ou vieram para o Brasil buscando por uma outra vida.

Para construir a obra que passa também por questões religiosas e afetivas, Silvana pesquisou desde os arquivos do Carandiru, da Biblioteca Nacional e da Marinha até textos literários de nomes como Machado de Assis, João do Rio e Plínio Marcos. Da literatura ela pesca, por exemplo, trechos de "Mar Morto", um dos livros mais famosos de Jorge Amado, que logo de cara apresenta um tatuador: "Rufino pouco durara na escola. O que aprendera lá se reduzia a quase nada: a tatuar nos companheiros âncoras e corações, com uma pena e tinta azul", escreveu Jorge. "Amado narra o hábito de tatuar o cais de origem no coração visando uma despedida apropriada de sua terra", complementa a autora.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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