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Livro deixa claro por que truculentos e autoritários odeiam Paulo Freire

Rodrigo Casarin

04/09/2019 10h20

No recém-lançado "O Educador – Um Perfil de Paulo Freire", de Sérgio Haddad (Todavia), três fragmentos de ideias do mestre pontuam bem como ele encarava sua trajetória intelectual, suas conquistas e a maneira que relacionava seu trabalho com a política. Primeiro, ao ser questionado pela Folha de São Paulo em 1994 sobre por que seu método não tinha dado conta de acabar com o analfabetismo no Brasil, respondeu:

"O analfabetismo poderia ter sido erradicado com ou sem Paulo Freire. O que faltou, centralmente, foi decisão política. A sociedade brasileira é profundamente autoritária e elitista. Para a classe dominante reconhecer os direitos fundamentais das classes populares não é fácil. Nos anos 60 fui considerado um inimigo de Deus e da pátria, um bandido terrível. Pois bem, hoje eu já não seria considerado inimigo de Deus. Você veja o que é a história. Hoje diriam apenas que sou saudosista das esquerdas. O discurso da classe dominante mudou, mas ela continua não concordando, de jeito nenhum, que as massas populares se tornem lúcidas".

No mesmo papo, ao ser perguntado sobre atrocidades cometidas por regimes comunistas, condenou o totalitarismo, mas reafirmou sua posição socialista e apontou um problema que, em teoria, o capitalismo passaria a ter após a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética:

"Um dos maiores erros históricos das esquerdas que se fanatizaram foi antagonizar socialismo e democracia. Por isso, a queda do muro de Berlim é uma espécie de hino à liberdade, muito mais do que um retorno ao capitalismo. A utopia socialista talvez nunca tenha tido uma oportunidade tão bacana quanto hoje, historicamente, para crescer. Porque, de agora em diante, o capitalismo já não pode dizer que a culpa de seus males é do comunismo. Ele tem que assumir a sua responsabilidade".

Enfim, em texto que viria a ser publicado em "Pedagogia da Indignação" (Paz & Terra), Paulo escreveu sobre o bárbaro ataque a Galdino Jesus dos Santos, indígena queimado vivo em abril de 1997 por cinco estúpidos em Brasília. No registro, falava da necessidade de levar a empatia e o amor àqueles que, eventualmente, estão de alguma forma distantes:

"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Se nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que fazemos. Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher, não estarei ajudando meus filhos a serem sérios, justos e amorosos da vida e dos outros".

Sociedade autoritária e elitista. Massas populares lúcidas. Utopia socialista. Opção progressista. Convivência com o diferente. Amor. Olhando para essas palavras de Paulo, não é difícil de imaginar por que o povo com a cabeça no quartel tem horror às suas ideias. A perseguição de hoje, no entanto, sequer original é. Há mais de 50 anos, acompanhando o trabalho do professor em Angicos, no Rio Grande do Norte, o general Castello Branco, que seria colocado na presidência após o golpe militar de 1964, ficou preocupado. Via como subversiva aquela "pedagogia sem hierarquia" defendida pelo educador, acreditava que ela "serviria 'para engordar cascavéis nesses sertões", registra Haddad no livro. Não por acaso, Paulo seria perseguido, preso e exilado logo após o golpe, numa truculência contra sua figura que voltou a ecoar com força em nossos dias.

Mas deixemos os brutos um pouco de lado. Haddad, doutor em história e filosofia da educação pela USP, acerta ao abrir mão de uma daquelas biografias pretensiosas, que almejam a sempre impossível tarefa de dar conta de toda uma vida, para entregar ao leitor um perfil enxuto, que apresenta um bom panorama da principal faceta de seu personagem, como manda o figurino do gênero. Se alguém que só conhece o nome de Paulo Freire por conta das frequentes aparições na mídia pegar "O Educador" para ler, ao final terá uma boa ideia de quem foi – e, principalmente, do que fez e como fez – este que é um dos brasileiros mais respeitados da história. Vale muito mais a pena do que supostamente conhecê-lo pelo prisma das bolsoasneiras, garanto.

No livro, Haddad mostra como as ideias de Paulo sobre a educação se formaram e se transformaram ao longo do tempo, aprendendo a perceber o mundo além da sua própria ótica ao ouvir principalmente camponeses e operários. Rindo de quem o acusava de promover a lavagem cerebral, afirmava que "a essência da sua teoria pedagógica era alérgica a regimes totalitários", conta o autor. A aposta de Paulo era numa educação horizontal, não meramente impositiva, com participação ativa dos alunos e de suas famílias. Buscava formar cidadãos com espírito crítico independente.

Pelos anos 1950, levando em conta o momento do país e do mundo, Paulo indicava que havia uma oportunidade para que as grandes massas fossem incorporadas ao desenvolvimento nacional. "Para tanto, era necessário que o povo, aquietado, passivo, acostumado a obedecer às autoridades – consequência da ausência de diálogo e da inexperiência democrática da sociedade brasileira – despertasse para a participação na cena pública", escreve Haddad, que prossegue um pouco adiante: "Ao analisar a escola brasileira, Paulo avaliou que havia nela uma tradição antidemocrática. Era uma escola distante da realidade dos pais e dos alunos, sem espírito solidário, marcada pelo individualismo e por uma metodologia em que a grande maioria dos professores ditava aulas, sem discutir ideias".

Após a perseguição dos militares, Paulo se exilou na Bolívia e no Chile. Nesses países também sofreu com as truculências que abalaram a América Latina nas décadas de 1960 e 1970. Seguiu, então, para o mundo. Resistiu à ideia de se mudar para os Estados Unidos; não queria viver no que apontava como a matriz do imperialismo. Dissuadido pela mulher, na experiência norte-americana se deparou com os problemas dos pobres, negros e hispânicos. Lidando com o racismo, a discriminação e o desprezo aos imigrantes, constatou que "havia um Terceiro Mundo dentro do Primeiro Mundo", como aponta Haddad. Já em países da África revolucionária, encontrou dificuldades para alfabetizar populações que desconheciam a língua escrita.

Há também os momentos com pormenores sempre bem-vindos. Na Suíça, pedia caixas de Sonho de Valsa aos amigos. Preferia os bombons brasileiros aos famosos chocolates locais, bem como o queijo minas ou coalho aos badalados queijos suíços. Na infância, foi alfabetizado pelos pais usando gravetos para cunhar as palavras no chão de terra. E, no período preso pelos militares, travou na leitura de "Grande Sertão: Veredas". Ao se queixar a um companheiro de cela, disse que tivera dificuldades com o estilo, a escolha das palavras e o regionalismo da obra-prima de Guimarães Rosa. Generoso, o colega lhe apontou alguns macetes para encarar o texto do escritor mineiro. Uma prova de que até os grandes mestres sempre têm muito a aprender.

Balada Literária

Paulo Freire é também o homenageado da 14ª edição da Balada Literária, que chega hoje a São Paulo após passar por Teresina e Salvador. Idealizado por Marcelino Freire, o evento vai até o domingo, dia 8, e reunirá dezenas de artistas para shows, saraus, mesas de discussões e bate-papos em lugares como Livraria da Vila (Vila Madalena), Biblioteca Mário de Andrade, Casa de Francisca e Mercearia São Pedro. Dentre os convidados, gente como Amara Moira, Ricardo Aleixo, Alice Ruiz, Marcelo Rubens Paiva, os portugueses Valter Hugo Mãe e Patrícia Portela, Ana Maria Araújo Freire, viúva de Paulo, e o próprio Sérgio Haddad, autor de "O Educador".

A abertura acontece nesta quarta, 4, às 20h, no Sesc Pinheiros, com apresentação da Companhia do Tijolo. Depois haverá a festa "Todo Mundo Vip" na Confraria Nossa Casa, com participação do Coletivo do Sol e dos poetas Nelson Maca e Élio Ferreira. Mais informações e toda a programação estão aqui.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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