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Qual é o papel da bruxaria no mundo de hoje?

Rodrigo Casarin

23/07/2019 07h00

"A Lâmpada do Diabo", no qual Goya "satirizou a crença em bruxas, ilustrando sua inumanidade grotesca e suas raízes na ignorância e no terror", segundo os autores.

Uma via para que o pensamento intuitivo e analítico estejam alinhados. Uma alternativa para que o panteísmo ajude a iluminar ideias que o monoteísmo não dá mais conta de iluminar. "É nesse contexto que a bruxaria moderna ou o neopaganismo podem ser percebidos como uma abordagem alternativa potencialmente válida à realidade".

É dessa forma que historiador especializado em estudo de religiões Jeffrey Russell e o jornalista Brooks Alexander encaram o papel da bruxaria em nossos dias. Os dois são autores de "História da Bruxaria", publicado originalmente em 2007 e que chegou há pouco no Brasil pela Goya em tradução de Álvaro Cabral e William Lagos. A dupla se apoia numa considerável referência bibliográfica para mostrar os diferentes momentos que a bruxaria viveu ao longo do tempo: seus antigos usos na África, a prática na Europa, as caças às bruxas, como seus praticantes pouco tem a ver com caricatura à qual foram reduzidos em décadas mais recentes…

"A bruxaria é considerada como uma religião de pleno direito por numerosas instituições, inclusive as forças armadas e o sistema legal dos Estados Unidos. Dentre as bruxas que conhecemos, nenhuma correspondeu jamais a esse esteriótipo [chapéu preto cônico, vassoura, gargalhadas malignas…], exceto talvez em festas à fantasia", escrevem os pesquisadores antes de explicarem que a definição mais aceita nos nossos dias é que uma bruxa é alguém que "reverencia deuses e deusas e pratica a magia para boas causas".

Depois de passar pela história da bruxaria, Russell e Alexander comentam como a prática se dá em nossos dias. Ponderam que o que chamam de neopaganismo precisa vir acompanhado do pensamento crítico para que pessoas emocionalmente instáveis não sejam levadas a "atos destrutivos ou autodestrutivos ao lidar experimentalmente com a magia" e, como em qualquer outra religião, encontrem o que a bruxaria tem de positivo para oferecer. "Não é preciso tornar-se bruxo para entender que a bruxaria é uma expressão da experiência religiosa", confiam.

Apoiando-se em conceitos de antigas religiões pagãs, os bruxos de hoje buscam resgatar aspectos positivos dessas crenças e trançá-los "dentro de uma síntese nova e moderna […]. A bruxaria neopagã e seus rituais abrem um imenso espaço para a poesia, a dança, a música, o riso e para seja lá o que o momento e a tradição inspirarem. A bruxaria encoraja a abertura para a veneração do mundo natural e para a reverência e amor pelos cosmos", escrevem os autores, explicitando a profunda relação com a natureza e com o universo que há nos preceitos defendidos por diferentes correntes da bruxaria – a Wicca talvez seja a mais famosa delas.

Além disso, também sustentam que o neopaganismo pode ser uma via para uma espécie de harmonia psicológica, pois "oferece uma oportunidade de compreensão da importância do inconsciente na integração completa da psique. Proporciona um senso de importância do princípio feminino, que tem sido frequentemente obscurecido pelo simbolismo masculino das grandes religiões monoteístas. Sua validade vem sendo debatida tanto na área de teologia quanto no campo das leis".

Já nas páginas derradeiras, essa explicação de como a bruxaria se dá em nossos dias foi o que mais me chamou a atenção na obra. O penúltimo parágrafo do título, aliás, tem toques da resiliência, diversidade, complexidade e humildade que encontramos em outros momentos do livro. "Temos enfatizado a vasta diversidade de crenças e práticas dos bruxos modernos, mas encontramos certas linhas comuns na maioria delas: panteísmo, feminismo, rejeição do conceito de pecado e 'reciprocidade espiritual'. Tais pontos de vista são parcial ou totalmente contraditórios a outras visões do mundo. Todavia, nenhuma religião (nem qualquer outro tipo de conhecimento) pode, em pleno juízo, proclamar que conhece tudo, e todas as religiões podem apresentes e tirar proveito do que é bom nas demais. A feitiçaria ainda persiste; a bruxaria diabólica encontra-se essencialmente morta; os bruxos modernos criaram uma nova religião. A bruxaria não é um conceito coerente, mas um termo que abrande grande variedade de fenômenos frouxamente interligados".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.