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Na literatura, João Gilberto fumou um beque e deslumbrou os Novos Baianos

Rodrigo Casarin

08/07/2019 15h09

"O homem chegou num fim de tarde de sábado, tipo cinco horas. O Moraes tinha inventado aquele dia de fazer uma moqueca mas, típico, perdeu o pique e a Ritinha teve que assumir. Moqueca atrasada, todo mundo faminto e quase de porre da cerveja na barriga vazia, um táxi Opala novo e de banho tomado para na estradinha de terra e me desce um cara de terno preto carregando um violão.

Eu ri. Fazia um calor de melar cocaína, quase todo mundo no banho de mangueira, neguinho de sunga, Teresa Olho de Peixe, Baby e Pepita nuns deliciosos biquínis quase teóricos, de repente me desce do táxi a porra de um coroa de terno preto carregando um violão. De olhar, só olhas, pinicava o cocoruto. O táxi engatou uma ré e sumiu. Lembro de pensar, sujou, mas não deu tempo de ir longe na paranoia porque de repente o tempo parou".

Bebês gêmeos se aproximaram engatinhando e balbuciando "ho-ba-la-lá, ho-ba-la-lá". Pepeu saiu de casa esbaforido em busca das crianças, levou um susto quando se deparou com a cena e soltou um "epa!". Moraes tinha "fumado três charros da grossura da canela da Ritinha" e estava numa leseira só; demorou um pouco para se dar conta do que acontecia. Quando a ficha caiu, ficou logo de pé, abriu os braços e começou a gritar: "João, meu rei, João, lá vem meu rei João, meu rei".

Parte dos Novos Baianos.

Nosso narrador ficou surpreso: "Era a primeira vez que eu via esse comportamento de fã no Moraes, um cara no geral bem altivo e tal. Comecei a entender que normal era uma coisa que aquele dia não ia ser". Daí pra frente, tudo é spoiler, mas ainda dou algumas pinceladas do que rolou no encontro entre João Giberto e os Novos Baianos segundo a imaginação do escritor Sérgio Rodrigues: Teresa tentou patolar João. Beque com bitola de charuto passou de boca em boca. Tinha também pimenta dedo-de-moça curtida em azeite (iguaria capaz de "matar cavalo") e cachaça de Pernambuco. Quando o gênio pegou o violão, o de sempre: ritmo preciso, sutilezas harmônicas, "mão de metrônomo, voz reduzida a uma ideia de voz, sentido verbal totalmente evaporado".

Uns disseram ter visto disco voador sobrevoando o pomar, outros tinham certeza de que admiravam um extraterrestre na sala. A viagem era mesmo louca. Dissonante, apenas uma das opiniões, convenientemente mantida em sigilo, sobre tudo aquilo que João fazia com seu violão. Opinião recorrente à boca miúda, é verdade, mas que não convém ser explicitada aqui, seja pelo spoiler (a esta altura concretizado, provavelmente), seja pelo respeito a um dos maiores artistas da história deste país, que no último sábado nos deixou.

João Gilberto e os Novos Baianos realmente estiveram juntos, sabemos. O gênio que inventou a bossa-nova e projetou a música brasileira para além das fronteiras do país também teve um papel decisivo para que a trupe de doidões compusesse "Acabou Chorare", um dos maiores álbuns de nossa história. O encontro acima relatado é um conto que nasce justamente dessas trocas entre a loucura e a sobriedade, entre a ousadia e a precisão. "A Visita de João Gilberto Aos Novos Baianos" é a história breve que abre o livro homônimo escrito por Sérgio Rodrigues e há pouco lançado pela Companhia das Letras.

Ainda não cheguei ao fim do volume. Pretendia indicá-lo um pouco mais adiante, porém a morte de João tornou este texto urgente. Em todo caso, já percorri duas das três partes em que a obra se divide e acho improvável que o terço que me falta mude a visão que tenho sobre este trabalho de Rodrigues – ainda mais porque a leitura que resta é uma novela futebolística, campo no qual o autor manda muito bem (é dele o excelente "O Drible") e onde nossos santos se abraçam.

Humor e ironia são elementos recorrentes nos textos sempre precisos de Sérgio. Na primeira parte de "A Visita de João Gilberto Aos Novos Baianos", além do conto já relatado, ainda bisbilhotamos Capitu e acompanhamos uma farsa erótica que se passa na Vila Rica dos inconfidentes – como é fácil deduzir, nesse trio a imaginação do autor brilha. A segunda parte é metaliterária demais pro meu gosto (talvez isso seja mais problema meu do que do livro ou de outros leitores), mas tem ótimos momentos, como a imperdível microssérie "História do Mundo em Treze Tuítes".

Falei da loucura e da sobriedade, da ousadia e da precisão que contrastam no encontro de João Gilberto com os Novos Baianos. Pois na literatura poucos dominam tão bem essa necessária mistura quanto Sérgio Rodrigues.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.