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Com tom de sertanejo, novo livro de E. L. James mistura nobreza com Tinder

Rodrigo Casarin

28/06/2019 09h54

"Sexo sem compromisso tem muitas vantagens. Nenhuma obrigação, nenhuma expectativa e nenhuma decepção. Só preciso lembrar o nome delas. Quem foi a última? Jojo? Jeanne? Jody? Tanto faz. Foi uma foda anônima que gemia para caramba, tanto na cama quanto fora dela."

É com essa pegada de sertanejão contemporâneo que E. L. James abre o primeiro capítulo de seu novo livro, "Mister", recém-lançado no Brasil pela Intrínseca. O garanhão de Jojos, Jeannes e Jodys é Maxim Trevelyan, um playboy com questionáveis dramas existenciais. "Não gosto de chamar a atenção para o vazio da minha existência, mas no fundo sei quanto sou inútil", reflete, ainda que nenhum de seus atos demonstre algum incomodo com a inegável banalidade.

Maxim vive para transar com mulheres diferentes a cada noite e cuidar de seu corpo – aposta principalmente na malhação e na esgrima. A situação de sua família permite que leve essa vida dedicada ao ócio e ao prazer. As coisas mudam – e, na prática, aumentam a possibilidade do protagonista se dedicar apenas ao hedonismo – quando uma tragédia acontece e ele herda não só mansões, mas um título de nobreza. Sim, estamos diante de uma história que se passa majoritariamente entre a intensa Londres e a pacata Cornualha de nossos dias e mistura condessas e condes – Maxim é tratado pelos subalternos como "milorde" – com a pegação do Tinder.

Cena da adaptação cinematográfica de "50 Tons".

Sexo vai, sexo vem… Maxim conhece Alessia, sua faxineira albanesa, uma imigrante ilegal vítima de tráfico humano – elementos que poderiam render desdobramentos interessantes e relevantes para a história. De formação simplória, apresentando dificuldades com o idioma inglês, a garota surpreende com grande talento para tocar música clássica no piano e alguma habilidade para jogar xadrez. Garante já ter viajado "o mundo todo pelos livros", num daqueles chavões que deveriam passar longe da literatura.

Alessia também é linda, óbvio. Como você já adivinhou, Maxim se encanta por ela. Com a magia da paixão, o até então garanhão busca domar seu pênis, descobre o amor e passa a ser guiado pelos sentimentos mais genuínos, aqueles que vêm do coração. Sim, é cafona. Sim, é lugar-comum. Em todo caso, é o que o público de James gosta, aparentemente.

A trilogia "Cinquenta Tons", responsável por projetar a autora internacionalmente, pode até ter uma fantasia aparentemente ousada, mas se estrutura da mesma forma que "Mister": um milionário colecionador de parceiras que se apaixona por uma garota comum e com ares virginais. Ele faz com que ela descubra certos prazeres carnais em generosas cenas de sexo, enquanto ela lhe faz amadurecer e descobrir o amor. Esse enredo é uma espécie de conto de fadas entranhado no imaginário popular e almejado por muita gente mundo afora, daí tamanha identificação com os livros da autora – já foi traduzida para 50 idiomas e vendeu mais de 150 milhões de exemplares, sendo 7 milhões apenas no Brasil.

Dizer que a escrita de James é sofrível não é falar nenhuma novidade. Seus diálogos são pobres, suas descrições são previsíveis, todos seus personagens se movem como fantoches e as cenas de ação são constrangedoramente ruins. A cada duas páginas precisamos aguentar Maxim pensando em como Alessia é linda, em como ele a quer muito. No sexo invariavelmente incrível, os dedos são sempre hábeis e ligeiros, a boca é sempre provocante. O clichê está entranhado em cada palavra da autora.

Aprofundando-se no sexo, "Mister" começa com força. Inicialmente, quase todos os seus parágrafos carregam certa tensão sexual e são muitas as cenas eróticas. Como que buscando cativar aqueles que esperam algo próximo de "Cinquenta Tons", de cara temos Maxim dominando uma garota com direito à famosa frase "Escolha uma palavra de segurança". Parece uma construção pensada exatamente para dialogar com antigos leitores e, quem sabe, já preparar um bom momento para o trailer da obra se ela for levada ao cinema. Só que do meio para o final a voltagem diminui e a sacanagem se torna tanto mais rara quanto, digamos, menos sacana. Ou seja, é capaz que "Mister" decepcione até os fãs da autora que buscam por 430 páginas de vuco-vuco – o que não deixa de ser uma aposta corajosa de James.

Ainda sobre o sexo na literatura, recomendo esta matéria que fiz com Eliane Robert Moraes – grande pesquisadora da área – e esta reportagem na qual alguns autores falam sobre cenas de sexo. Os dois textos foram publicados em 2015, aqui no Uol.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.