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Misticismo, histeria e morte: livro resgata história das Bruxas de Salem

Rodrigo Casarin

22/03/2019 10h51

"Em 1692, a Colônia da Baía de Massachusetts executou por bruxaria catorze mulheres, cinco homens e dois cachorros. A feitiçaria se materializou em janeiro, o primeiro enforcamento ocorreu em junho, o último em setembro. Seguiu-se um rígido silêncio chocado. O que incomodou os sobreviventes não foi a maliciosa prática de bruxaria, mas a desastrada aplicação da justiça. Parece que inocentes foram enforcados, enquanto alguns culpados escaparam. Não houve voto de jamais esquecer; entregar esses nove meses ao olvido parecia a reação mais adequada – e funcionou durante uma geração. Desde então nós conjuramos Salem, o pesadelo nacional americano, o episódio cruel de tabloide, o capítulo distópico do passado".

É dessa forma que começa o livro "As Bruxas" (Zahar), de Stacy Schiff, também autora de "Cleópatra" e "Véra (Mrs. Vladimir Nabokov)", que lhe valeu o prêmio Pulitzer de 2000. Na obra, Stacy se apoia em outros livros e documentos para fazer a reconstituição do episódio histórico que ficou conhecido como "As Bruxas de Salem", tantas vezes já explorado por cineastas e romancistas. Dentre os méritos da autora não está somente a reconstrução de um dos momentos mais marcantes dos primórdios dos Estados Unidos, mas também a maneira como ela consegue apresentar ao leitor as engrenagens de uma pequena comunidade um tanto afastada das principais cidades do país que ainda era colônia inglesa.

No final do século 17, o vilarejo de Salem contava com cerca de 550 habitantes. Eram protestantes não conformistas, puritanos que deixaram a Inglaterra em busca de um canto para exercer sua fé. Por lá, uma das atividades favoritas dos cidadãos era tomar conta da vida dos outros; mexericos e fabulações faziam parte do cotidiano. Quando alguns jovens e crianças começaram a ter manifestações estranhas, apresentando marcas suspeitas no corpo e a convulsionar enquanto se contorciam assustadoramente na cama, logo começou a se espalhar o boato de que aquilo era fruto da magia de bruxos e bruxas que habitavam o local; aqueles sintomas só poderiam representar que a "a mão do mal" vinha tocando moradores de Salem.

Importante ressaltar que na época os habitantes do vilarejo acreditavam piamente que a bruxaria era capaz de fazer com que bois se afogassem e que objetos saíssem voando pelos ares; muitos afirmavam, inclusive, que vez ou outra viam as próprias bruxas montadas em pedaços de madeira perambulando sobre as casas, árvores e cabeças dos meros mortais. Stacy aponta que havia até uma definição formal para o que era uma bruxa, proposta pelo naturalista inglês Joseph Glanvill, formado em Oxford e uma então autoridade no assunto:

"A bruxa é alguém capaz de fazer ou aparecer fazer coisas estranhas, para além do poder conhecido da arte e da natureza comum, em virtude de uma confederação com maus espíritos", resgata a autora, que prossegue com as próprias palavras: "Por meio de pactos, as bruxas assumiam o poder de se transformar em gatos, lobos, lebres, tendo predileção por pássaros amarelos. Podiam ser mulheres ou homens, porém com mais frequência mulheres. A bruxa inglesa mantinha uma coleção de duendes ou mascotes demoníacos, porcos, tartarugas, doninhas que atendiam seus pedidos. Prevaleciam os gatos e os cachorros, mas os sapos eram os favoritos universais". Praticamente uma descrição das vilãs dos contos de fadas, não?

Bem, mas tendo essa visão de mundo e com a boataria se espalhando enquanto o problema com os jovens aumentava sem que ninguém desse outra explicação para o que acontecia, logo o tribunal local estava detendo e, em diversos casos, condenando qualquer um que fosse acusado de dominar a magia – houve até quem fosse julgado com base em supostos depoimentos póstumos de ex-esposas já mortas. Ao longo de 1692, como relatado acima, catorze mulheres e cinco homens foram enforcados (dois pobres cães também entraram na roda), mas dezenas de outros habitantes de Salem passaram pela prisão.

Não que essas prisões e mortes fossem destituídas de interesses escusos, porém, como bem mostra Stacy ao longo da obra. Conforme "bruxos" e "bruxas" eram condenados e aniquilados, homens da lei chegavam em suas casas e confiscavam não só os seus pertences, mas também os de sua família. Numa época em que falar em igualdade entre os homens era visto como coisa do capiroto, a lei funcionava de maneira diferente de acordo com a pessoa que cometia algum crime (o que não mudou muito, convenhamos). "A justiça era equânime, mas as punições dependiam do nível social. A menos que seu crime fosse especialmente ofensivo, um cavalheiro não era açoitado; um patrão e o criado seu cúmplice receberiam sentenças diferentes".

E o que, afinal, estava por trás do esquisito surto que espalhou o pânico e desembestou a boataria e a literal caça às bruxas entre os cidadãos de Salem? O que acometeu aqueles jovens estrebuchavam na cama? "Onde a autoridade do século XVII via o diabo, observamos um sistema nervoso tenso; o que a era anterior chamou de histeria nós chamamos de desordem de transposição, o corpo traduzindo emoções em sintomas. Quando sublimada, a angústia se manifesta fisicamente, usando o corpo como refém", conta Stacy. A base de todo o problema estava justamente na falta de conhecimento, na ignorância.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.