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Chegará o dia em que usaremos LSD contra o alcoolismo e a depressão?

Rodrigo Casarin

15/03/2019 11h00

Grafite do químico Albert Hoffman, que descobriu as propriedades alucinógenas do LSD na década de 1940.

Quando invadiram as Américas, logo os espanhóis se esforçaram para suprimir os cultos a cogumelos feitos pelas civilizações que aqui habitavam, como os aztecas, "pois os viam, não sem razão, como uma ameaça mortal à autoridade da Igreja […]. Os índios eram interrogados e torturados para confessar a prática, e estátuas de cogumelos sagrados foram destruídas". A perseguição aos psicotrópicos, seja os encontrados na natureza, seja os fabricados em laboratórios, repetiu-se ao longo da história. Outro exemplo, este conhecido de quase todos, é a guerra contra alucinógenos travada pelos Estados Unidos a partir da década de 1960. Com o movimento de contracultura embalado por substâncias capazes de provocar alterações na mente, milhões de norte-americanos passaram a contrariar radicalmente o governo, pedindo paz em tempos de guerra e se recusando a atravessar o mundo para pegar em armas e matar vietnamitas.

Essas duas amostras históricas nos dão uma dimensão de quão potente e polêmico é o tema no qual Michael Pollan mergulha – ou viaja – em seu novo livro, "Como Mudar Sua Mente" (Intrínseca). Nele, o jornalista apontado em 2010 como uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela Time e também autor de "O Dilema do Onívoro" e "Cozinhar", olha para substâncias proibidas pelo governo de muitos países de forma complexa, indo além de habituais maniqueísmos, caricaturas e reduções, procurando entender quais os benefícios que psicodélicos podem proporcionar aos homens.

Até a década de 1950, em nossa sociedade, essas substâncias eram conhecidas basicamente por profissionais da saúde, que as apontavam como "possivelmente milagrosa para o tratamento de doenças psiquiátricas e do alcoolismo". Com a população geral passando a consumi-las e a consequente repressão vinda dos estados, pesquisas foram banidas ou marginalizadas e acabaram caindo no ostracismo. Nos últimos anos, no entanto, há uma retomada dos estudos nessa área, relata Pollan.

Um exemplo: no Centro de Psiquiatria do campus de Hammersmith da Imperial College, em Londres, desde 2009 cientistas buscam "identificar 'correlatos neurais', ou contrapartes físicas, da experiência psicodélica" provocada pelo LSD e pela psilocibina. Estudos semelhantes acontecem em outros cantos do mundo e apontam que os profissionais de décadas atrás estavam num caminho certo: essas substâncias realmente têm se mostrado capazes de ajudar quem sofre de "transtornos mentais caracterizados pela rigidez da mente: vício, depressão, obsessão", enumera o autor.

Apresentam-se como um caminho para contornar o alcoolismo e o tabagismo, dentre outros, bem como uma via para que pacientes que sofrem de câncer ou de doenças terminais possam lidar melhor com seus males. Além disso, os resultados obtidos nos laboratórios apontam para algo que muita gente já desconfiava: drogas psicodélicas podem fazer bem aos sãos, aumentando seu bem-estar, tornando-os pessoas mais abertas e aprimorando a criatividade.

Tudo isso, no entanto, se forem utilizadas em doses e condições ideais – ou seja, não é só sair comprando "doce" por aí e colocando debaixo da língua que um eventual problema será resolvido. "Outras sociedades tinham uma longa e produtiva experiência com os compostos psicodélicos, e seu exemplo poderia nos ajudar a evitar muitos problemas se tivéssemos prestado atenção. O fato de pensarmos em muitas dessas sociedades como 'atrasadas' provavelmente nos impediu de aprender com elas. E a principal lição que poderíamos ter aprendido é que remédios poderosos são perigosos – tanto para o indivíduo quanto para a sociedade – quando não têm um recipiente social robusto: um conjunto definido de rituais e regras – protocolos – governando seu uso, e o envolvimento crucial de um guia, a figura que se costuma chamar de xamã", aponta.

Michael Pollan na Flip de 2014.

Como é possível notar na abertura desta resenha, Pollan também pesquisa o histórico dessas substâncias, amplamente utilizadas nas sociedades pré-colombianas, apresenta ao leitor curiosidades (o maior organismo na Terra é uma espécie do gênero Armillaria, um cogumelo do Oregon e tem quase quatro quilômetros de extensão) e registra não apenas as "viagens" de terceiros com psicotrópicos, mas relata as próprias experiências – devidamente controladas por profissionais – com três alucinógenos: LSD, psilocibina e MeO-dmt, mais conhecido como sapo.

Ao longo de "Como Mudar Sua Mente", é bastante interessante ver Pollan, um ateu assumidamente materialista, confrontando-se com um universo permeado de misticismo, de experiências muitas vezes apontadas pelas responsáveis por colocar os usuários em contato com o Sagrado. Ao cabo, depois de notar como as essas substâncias ajudam a driblar o ego e a se colocar num estado alterado particular e muitas vezes salutar de consciência, ele se posiciona:

"Ainda tendo a pensar que a consciência deve estar confinada ao cérebro, mas tenho menos certeza disso agora do que antes de embarcar nesta viagem. Talvez também isso tenha escapado por entre as barras da jaula. Os mistérios permanecem. Mas uma coisa posso dizer com segurança: a mente é mais vasta, e o mundo muito mais vivo, do que eu imaginava quando comecei".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.