Topo
Blog Página Cinco

Blog Página Cinco

Você sabe por que as pessoas chamam de “corno” alguém que é traído?

Rodrigo Casarin

11/01/2019 10h55

Você sabe de onde vem a expressão "corno" ou "corna" para os homens e mulheres traídos? Eu também não fazia ideia da origem até me deparar com o seguinte trecho de "A Biblioteca Elementar", de Alberto Mussa (Record):

"O parágrafo 9º do título 25 das Ordenações Filipinas, ainda vigentes em 1733, trata do marido que consente no adultério da mulher. A pena cominada, para ambos, são açoites; levarem na cabeça chapéus de chifres; e serem degradados para o Brasil. A moderna acepção de 'corno', portanto, deriva desse antigo dispositivo legal, que remonta à Idade Média".

Bom, mas isso está num romance e sabemos que os bons escritores passam longe de ser as pessoas mais confiáveis do mundo; jamais devemos encará-los como uma fonte inequívoca de fatos históricos. Por isso, fui atrás das tais Ordenações Filipinas, disponíveis no site do Senado Federal. Encontrei a referência feita por Mussa no Quinto Livro com as leis que vigoraram no Brasil até que o primeiro Código Civil nacional fosse promulgado, em 1916. Ali, no 25º título, o "Do que dorme com a mulher casada", encontramos no 9º parágrafo:

"E sendo provado que algum homem consentio a sua mulher, que lhe fizesse adultério, serão elle e ella açoutados com senhas capellas de cornos, e degradados para o Brazil, e o adultero será degradado para sempre para a África, sem embargo de o marido lhes querer perdoar". Os chifres, segundo a lei, eram usados para marcar tanto o a mulher que tinha um amante quanto o marido que consentia com a fornicada longe de casa.

Algo, no entanto, serviu de inspiração para que Felipe II – daí o nome "Ordenações Filipinas" – estipulasse a regra na reforma que fez do Código Manuelino. Pesquisando um pouco mais sobre o "corno", a explicação mais razoável que encontrei é que o termo teria surgido como uma referência a animais chifrudos cujas fêmeas costumam viver próximas a um único macho, que utiliza os seus cornos para tentar afugentar eventuais garanhões – e nem sempre é bem-sucedido na troca de chifradas.

Sei que expressões populares muitas vezes possuem origens distintas, então digamos que esse fragmento do mais recente livro de Mussa me levou a uma explicação plausível, aceitável, do termo usado até hoje, mas isso não quer dizer que outras raízes não sejam possíveis. No mais, falemos um pouco de "A Biblioteca Elementar", onde encontramos trechos como esse: "Se você, marido que me lê, não acredita ou não admite que sua mulher já tenha imaginado, durante o coito, estar com um homem equivalente ao Estraga-Moças – cuidado! Inocência se perdoa; tolice, não".

Trata-se do derradeiro volume do Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, série – ou sistema, como prefere o autor – de romances históricos que se passam na capital fluminense em diferentes séculos. A partir de um tiro disparado durante uma rusga entre um homem de casaca e outro de capa à espanhola e botas de cano longo acompanhada à distância por uma cigana cheia de segredos, o sempre potentíssimo narrador de Mussa leva o leitor para uma narrativa sobre assassinato e, claro, adultério. Tudo se passa na primeira metade do século 18, numa cidade já marcada pela multiplicidade de tipos, crenças e culturas, além do fluxo de dinheiro e mercadorias que invariavelmente acabam criando um submundo articulado pelo tráfico e outras formas de crime.

Sou suspeito para falar de Mussa. Em 2016 indiquei sete motivos para que todos lessem o autor, que mais uma vez entrega um romance que dá vida, vozes e cores únicas – nem sempre festivas, diga-se – à história do Rio de Janeiro e, por extensão, do próprio Brasil. Do Compêndio, "A Primeira História do Mundo" ainda é o meu volume preferido, principalmente por conta da maneira como os indígenas são retratados, mas "A Biblioteca Elementar" encerra muito bem essa empreitada do escritor ao longo de cinco séculos de sua cidade natal.

Gostou? Você pode me acompanhar também pelo Twitter, pelo Facebook e pelo Instagram.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.