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Doutrinação e massificação: escritor lembra da educação em colégio militar

Rodrigo Casarin

24/10/2018 11h33

Indo para o almoço de Páscoa na casa da sogra, em 2010, que Carlos Eduardo Pereira sentiu seus pés formigarem. Estranhou, mas seguiu adiante. Comeu e bebeu como manda o figurino, achou que tudo estava bem. Ao longo da semana, no entanto, o amortecimento foi aumentando. Em poucos dias estava internado num hospital e precisando lidar com uma notícia drástica: Carlos possui uma doença autoimune de alguma forma ligada à esclerose múltipla, ainda que até hoje não saiba exatamente qual é o seu problema. Repentinamente, perdeu a sensibilidade do corpo do tórax para baixo e a capacidade de andar com as próprias pernas. Então com 37 anos, já saiu do hospital montado em uma cadeira de rodas.

Passou o ano em busca de tratamentos, com médicos apostando na tentativa e erro para ver se encontravam alguma solução. Apenas erraram. Então, cansou-se de tentar contornar a situação e resolveu encarar de vez a nova realidade. "Quer saber? O prejuízo é esse? Vamos tocar a vida", pensou.

Formado em História, Carlos passou boa parte da carreira em sala de aula, mas, quando foi acometido pela doença misteriosa, era servidor público concursado e trabalhava no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Depois de um período de licença, aposentou-se por invalidez e foi pensar em algo novo para fazer. Aí que descobriu que novas possibilidades lhe aguardavam.

É fácil imaginar as dificuldades que um cadeirante enfrenta no dia a dia: a necessidade de ajuda para contornar eventuais situações, impossibilidade de praticar uma série de atividades físicas, dificuldade para se locomover por ruas acidentadas… Só que "chega uma hora que você fala: se não for pra rua, não vou fazer mais nada. Então, fui pra rua. Sempre [que saio de casa] eu acho que vai dar alguma merda, e sempre dá. Mas sempre tem lá alguém pra ajudar se precisar. Não dá pra deixar de fazer as coisas por causa disso", diz Carlos, que também mostra um lado positivo com o que lhe aconteceu:

"Vão dizer que é papo de filme e novela, mas tem um monte de pontos positivos. Minha vida melhorou em muitos aspectos depois de ter virado cadeirante. Vivia com a minha mulher, mas depois disso casamos, nasceu minha filha… Antes não tinha tempo pra porra nenhuma, agora, aposentado, recebo o mesmo salário e vou atrás do que realente curto fazer. Gostava de ler e de ir ao cinema, então fui fazer oficinas e cursos de escrita. Fui descobrindo coisas que não descobriria se não fosse cadeirante".

Depois que se viu sobre uma cadeira de rodas que Carlos mergulhou na escrita e pegou gosto pela produção literária. No ano passado, mais de sete anos após aquele almoço de Páscoa, lançou seu livro de estreia, o romance "Enquanto os Dentes" (Todavia), e prontamente passou a ser apontado como uma grande revelação da literatura nacional. Ver a obra entre as semifinalistas do Prêmio Oceanos e na final do Prêmio São Paulo de Literatura comprova que o autor, hoje com 45 anos, é mesmo um nome para se prestar atenção.

No livro, o leitor conhece Antônio, cadeirante negro de classe média que encara perrengues para circular pelo Rio de Janeiro. O personagem, no entanto, não está num simples passeio, mas voltando para a casa da família após sua ruína financeira. Enquanto cruza a cidade, repassa diversos momentos de sua vida, como os tempos na escola militar, a descoberta da homossexualidade e a problemática relação com o pai autoritário, tratado como "Comandante", que não vê há mais de vinte anos. Dentre as diversas possibilidades de interpretação, é uma história sobre alguém que não tem outra escolha a não ser se render ao triste destino. Uma história de alguém que, literalmente e metaforicamente, perdeu a capacidade de caminhar com as próprias pernas.

Não são muitos, mas há evidentes traços em comum entre autor e protagonista. Carlos conta que relutou um tanto em aceitar que a história que tinha para contar possuía inegáveis toques de sua própria biografia. "A gente fica cheio de grilo quando tá começando. Pensava que para escrever ficção precisava ser algo puro, que não tivesse absolutamente nada a ver com minha vida pessoal. Então, comecei dois outros livros assim, até que descobri que isso é uma bobagem. Uma vez, estava vendo o [escritor] Paulo Scott falar para um grupo e me dei conta que deveria ir na minha vida e cavucar algo que fosse verdadeiro. Deveria buscar os meus sentimentos verdadeiros, se não a escrita não funcionaria", conta. "Há várias imagens muito úteis num personagem cadeirante. A dificuldade de se locomover pela cidade pode ser uma metáfora para muitas coisas. Ser cadeirante só é uma dificuldade mais visível. O fodido é relativo. O outro pode não estar numa cadeira de rodas e estar mais fodido ainda", completa.

Outro ponto de contato entre personagem e autor é a relação com o exército. Carlos não tem pai oficial, mas, como Antônio, também passou parte de sua vida dentro de uma escola militar. De família humilde da Ilha do Governador, subúrbio do Rio de Janeiro, via na farda uma possibilidade para ter uma profissão garantida e um futuro com alguma estabilidade financeira, mesma situação de praticamente todos os seus colegas. "Só um ou outro estava lá por talento, vocação, por vibrar mesmo", recorda.

O "lá", no caso, eram as escolas da marinha e da aeronáutica, primeiro em Barbacena e depois em Angra dos Reis, onde fez o ensino médio. Vivendo o regime militar em tempo integral, percebeu que não era aquilo que queria para si, apesar de ter algumas boas lembranças da época, como as amizades que fez.

Praticamente o único que costumava carregar algum livro literário consigo, o hoje escritor recorda que aquelas escolas não costumavam incentivar o contato dos alunos com elementos culturais que não fossem relacionados ao próprio meio militar. "Não tinha espaço para isso. [Nessas escolas] têm que seguir a doutrina militar", comenta. Por falar em doutrina, contrapondo o que vivenciou em sua formação com o que depois viu em sala de aula quando ele mesmo era professor, diz não ter dúvidas de onde a doutrinação impera:

"Com toda certeza no ensino militar. Hierarquia e disciplina são as bases do militarismo. É justamente o que se faz lá: doutrinar a cabeça do militar para que depois ele funcione na tropa. Há uma massificação de ideias para entrar no esquema deles e, se alguém questiona, as sanções são severas. A ideia é não questionar. Se isso não é doutrinação, não sei o que é".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.