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O ricaço que foi ostentar e quebrou uma garrafa de vinho de US$ 500 mil

Rodrigo Casarin

12/09/2018 10h26

William Sokolin comprara da família Forbes uma garrafa de Château Margaux de 1787 que, acreditava, pertencera a ninguém menos do que Thomas Jefferson. Para quem, como eu, não manja muito de vinho, Château Margaux é uma das marcas mais badalas, respeitadas e desejadas de Bordeaux, na França. Junte isso à data da safra em questão e ao fato daquela garrafa ser indicada como um antigo pertence de um dos nomes mais importantes da história dos Estados Unidos e temos uma inegável relíquia. Por isso que Sokolin, um mercador de vinhos raros, tentava vendê-la pela bagatela de US$519 mil – sim: quinhentos e dezenove mil dólares.

Quando foi convidado para um jantar promovido pela própria Château Margaux em um hotel de luxo de Nova York, Sokolin não notou de imediato que aquela seria uma boa oportunidade para exibir sua preciosidade para eventuais compradores. A ficha caiu logo depois que alguns pratos haviam sido servidos. Pegou um táxi e correu até sua casa, retornando ao encontro cerca de meia hora depois e de posse do vinho centenário. Mostrou a garrafa primeiro para os responsáveis pela Margaux. Em seguida o colocou em uma mesa para que todos pudessem admirar o objeto. Se viesse uma venda ótimo, se não, ao menos a ostentação estava garantida.

Antes da sobremesa ser servida, Sokolin recolheu a garrafa, a protegeu dentro de uma bolsa e a aninhou sob seu braço esquerdo. Caminhou pelo salão e encontrou um carrinho utilizado pelos garçons em seu caminho. Sem querer, deu um leve esbarrão no móvel. Leve, mas fatal. O suficiente para quebrar parcialmente a preciosidade. Não demorou para que o vinho de US$519 mil começasse a escorrer por sua luxuosa roupa e sujar os carpetes do hotel.

Enquanto corria desesperado para tentar salvar parte do líquido, uma pessoa ou outra metia o dedo no vinho que caia e provava a bebida do século 18. Sokolin deixou sua mulher para trás e rumou para casa, onde tentaria dar um jeito na lambança. Mesmo com o cuidado tomado para preservar o máximo possível de vinho, apenas 140ml – ou 20% do volume total – se salvaram. Então, serviu um pouco da bebida em um copinho, congelou o restante e largou a garrafa quebrada e vazia sobre uma mesa da sala de estar. Provou o vinho e percebeu que seu gosto não era nada bom.

Garrafas que teriam pertencido a Thomas Jefferson.

Logo a notícia se espalhou e Sokolin, o desastrado, virou motivo de chacota e grande pauta para a imprensa. Quando um repórter do New York Times o procurou para conversar sobre o episódio, ouviu do comerciante: "Estou muito infeliz. Fiquei em estado de Choque. Cometi um assassinato".

Esse drama peculiar de Sokolin, que morreu em 2015, aconteceu já tem um bom tempo, em 1989 – ou seja, em cifras atualizados, a relíquia quebrada valeria consideravelmente mais hoje. Fui descobrir a passagem ao ler "O Vinho Mais Caro da História", de Benjamin Wallace, um livro precioso que foi publicado no Brasil em 2008 pela Zahar. A obra traz muito dos bastidores dos grandes leilões de vinhos, os esquemas de falsificação e fraudes da bebida e, por extensão, acaba por dar uma boa ideia de como funciona o mundo dos podres de rico. Trata-se de um universo no qual muitas vezes o preço ou a exclusividade que determina se algo presta ou não, não exatamente as qualidades apresentadas – é uma lógica bizarra, mas bastante conhecida, sei. Além disso, muitos se preocupam mais em possuir algum objeto do que de fato desfrutá-lo, como ter um vinho para ostentar sua garrafa, não para beber.

Ou para especular e ganhar ainda mais dinheiro em cima desses produtos, como ilustra esse trecho exemplar: "O boom da compra de vinhos exclusivamente como investimento apenas exacerbara esse fenômeno, que os participantes do mundo do vinho tratavam como pouco importante numa história muitas vezes reciclada: 'Abe comprou um carregamento de sardinhas que já havia trocado de mãos muitas vezes, sempre com lucro', dizia uma versão. 'Diferentemente dos compradores anteriores, Abe se deu ao trabalho de provar uma lata. As sardinhas eram horríveis. Ele telefonou para Joe, de quem as comprara, somente para ouvir: 'Mas Abe, essas sardinhas são para vender, não para comer'".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.