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Em 1939 o Brasil levou 5 da Argentina e deixou Mário de Andrade “tristinho”

Rodrigo Casarin

10/07/2018 10h12

Em janeiro de 1939, Brasil e Argentina entraram em campo para disputar a saudosa Copa Roca. Diferente dos anos anteriores, com partidas marcadas pelo equilíbrio, o que se viu aquele dia em São Januário foi uma traulitada dos argentinos nos brasileiros: 5X1, uma das maiores derrotas da história de nosso futebol. Tudo o que envolveu a partida e, ao cabo, o placar, deixou Mário de Andrade, autor de livros como ""Macunaíma", "Amar, Verbo Intransitivo" e "Pauliceia Desvairada", um dos torcedores presentes na arquibancada naquela ocasião, "tristinho".

Mário foi ao estádio acompanhado de um amigo uruguaio, que logo de cara já desconforta nosso escritor ao alardear que torceria para a Argentina – "Você compreende, meu caro amigo, nós uruguaios, temos muito mais afinidade com os argentinos do que com os brasileiros, apesar de já termos feito parte do Brasil", argumenta o convidado. Quando entrou no estádio, Mário se acalmou com relação ao companheiro, mas passou a se sentir tomado pelo clima de competição:

"Estávamos em pleno domínio do 'nacional', com algumas bandeiras argentinas por enfeite de excessiva delicadeza. Na verdade, como havia uma disputa incontestável, pouco importa se de futebol ou de guerra, na verdade todos estávamos odiando os argentinos e a Argentina naquele momento. E dizem que jogo de futebol estreita relações de amizade: estreita nada! Sejamos perfeitamente sinceros: nas condições atuais da educação dos nossos povos, tais competições só servem para alimentar antagonismos entre massas nacionais. É certo que uma centena de sujeitos, mais bem conformados por uma verdadeira educação esportiva, conseguem, dois minutos depois do ódio, convertê-lo em pasmeira. Mas em amor é que não. O ódio se acalma, a gente chega a reconhecer a superioridade do adversário. Mas fica tristinho".

Então, quando o jogo começa, enquanto o uruguaio segue lhe importunando e os argentinos não param de balançar a rede, contrariando toda a óbvia expectativa da torcida, Mário procura por distrações, explicações e lados positivos naquele massacre, mas não encontra nada disso, apesar de algumas boas elucubrações. No final, já fora do estádio, o escritor constata: "Nós, brasileiros, somos muito tropicais; é uma fatalidade. Ou talvez uma salvação, diria reticentemente algum sábio indiano, cheio de tropical malícia […]. Embora reconheça lealmente que nós apanhamos feio dos argentinos".

Todas essas palavras do autor estão na crônica "Brasil – Argentina", publicada originalmente n'O Estado de São Paulo de 22 de janeiro de 1939 e reeditada em "O Futebol", publicado em 2016 pela Edições Zarabatana. O livreto é bem pequeno, charmoso e interessante por reunir oito escritos do tipo de três grandes nomes de nossa literatura: Antônio de Alcântara Machado, Lima Barreto e, claro, o próprio Mário de Andrade.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.