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Só título importa? Vaga à Copa já fez com que países entrassem em guerra

Rodrigo Casarin

09/07/2018 09h02

São pessoas de alma bem pequena.

Lembro de Cazuza toda vez que ouço alguém dizendo algo como "pô, tal seleção foi pra Copa do Mundo e foi eliminada na primeira fase, era melhor nem ter ido então…". Para essa gente, talvez só valha disputar o mundial se for para chegar na semi. Para essa gente, o torneio da Rússia só importaria para Bélgica, França, Croácia e Inglaterra – e olhe lá, para boa parte dos brasileiros é só o título que conta. Uma pena. São pessoas de alma bem pequena, que não notam que para a enorme maioria dos países apenas o fato de disputar a Copa já é um sonho.

Tanto que, durante as eliminatórias da América Central para a Copa de 1970, no México, a briga por esse sonho descambou no que ficou conhecida como A Guerra do Futebol. Um ano antes do torneio, uma das vagas era disputada por Honduras e El Salvador. Na véspera do primeiro jogo, disputado em Tegucigalpa, capital hondurenha, centenas de torcedores fizeram a tradicional arruaça na porta do hotel dos salvadorenhos, que, após a noite insone, perderam a partida por 1X0. A derrota fez com que uma jovem, incrédula com o resultado, se matasse em San Salvador, capital de El Salvador, situação dramática que se transformou em comoção nacional.

Os salvadorenhos, claro, prepararam uma recepção nada amistosa para os adversários no jogo da volta. Arrebentaram as vidraças do hotel onde os hondurenhos estavam hospedados e atiraram ovos podres e ratos mortos para dentro dos quartos dos jogadores. Carros de combate foram utilizados para levar os atletas até o estádio e, após o jogo, imediatamente transportá-los ao aeroporto para que retornassem para casa. "A nossa sorte foi ter perdido aquele jogo", chegou a declarar o técnico hondurenho após a derrota por 3X0. Mas o pior ainda estava por vir.

Se técnico e jogadores conseguiram escapar da violência, o mesmo não aconteceu com os torcedores hondurenhos, que foram "agredidos a pauladas e pontapés, fugiram em direção à fronteira, sendo que dois foram mortos pelo caminho e dezenas de outros acabaram hospitalizados. Cento e cinquenta automóveis dos visitantes foram incendiados. Horas depois, a fronteiras entre os dois países foi fechada".

O relato é do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que morava na América Central e chegou em Tegucigalpa antes do conflito explodir. De suas observações que nasceu a reportagem "A Guerra do Futebol", que dá nome a um de seus ótimos livros publicados por aqui pela Companhia das Letras – este em questão é uma coletânea de artigos que Kapuscinski escreveu como correspondente de países da América Latina, Oriente Médio e África.

A partir dos jogos, a tensão entre os pequenos países vizinhos cresceu até que no dia 14 de julho a guerra fosse deflagrada com a força aérea salvadorenha bombardeando simultaneamente quatro cidades hondurenhas. Enquanto soldados se trucidavam no campo de batalha e tentavam sobreviver em trincheiras sem nem ao menos saber por que lutavam, a população inflamada pichava paredes das cidades hondurenhas com frases como "vinguemos o 3 a 0".

É óbvio que havia um motivo maior por trás daquela guerra – disputa por terras, segundo Kapuscinski – e a richa entre os dois países já vinha numa crescente desde antes do duelo que levaria uma delas para a Copa de 1970. "Foi assim que o futebol ajudou a aumentar ainda mais o chauvinismo e a histeria patriótica, elementos indispensáveis para desencadear uma guerra e reforçar o poder da oligarquia dos dois países", registra o polonês.

O conflito durou cerca de cem horas, deixou mais de seis mil mortos, dezenas de milhares de feridos e aproximadamente cinquenta mil desabrigados – vilarejos inteiros foram destruídos. As fonteiras, no entanto, permaneceram exatamente como estavam antes de todo o sangue rolar. Mas não que isso tenha deixado os governantes frustrados.

"Os dois governos ficaram satisfeitos com a guerra, já que, graças a ela, por alguns dias Honduras e El Salvador ocuparam lugar de destaque na imprensa mundial, despertando o interesse da opinião pública internacional. Os diminutos países do terceiro, quarto ou de ainda mais distantes mundos, somente têm chance de atrair a atenção mundial quando decidem derramar sangue. É uma realidade triste, porém verdadeira", considera Kapuscinski. Não concordo plenamente com isso.

No final, El Salvador ficou com a vaga para a Copa após vencer o terceiro jogo, disputado no México, por 3 a 2 – na partida, mais de cinco mil policiais fizeram a separação das torcidas dentro do estádio. Já no mundial, El Salvador perdeu da Bélgica (3X0), dos anfitriões (4X0) e da União Soviética (2X0). Voltaram para casa sem marcar um gol sequer, mas tiveram a oportunidade de aparecer para o resto do mundo sem derramar nenhuma outra gota de sangue. Diferente do que acreditava Kapuscinski, não é só a guerra que tem a capacidade de atrair brevemente a atenção mundial para algum país pouco conhecido, o futebol também tem esse poder – como o Panamá, por exemplo, outro pequeno da América Central, demonstrou na Rússia.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.