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Lionel esteve em quatro mundiais, mas Messi jamais jogou uma Copa do Mundo

Rodrigo Casarin

01/07/2018 09h46

Messi.

É com o coração sangrando que escrevo essas palavras.

É preciso admitir: Lionel Messi esteve em quatro mundiais, mas jamais jogou uma Copa do Mundo.

A Copa de estreia de Lionel foi na Alemanha, em 2006. Era ainda bastante jovem, uma promessa que começava a surgir e a gerar grande expectativa. Jogou um pouco contra a então Servia e Montenegro, quando fez seu primeiro gol no torneio numa partida bastante fácil: 6X0 para a Argentina. Começou como titular contra a Holanda e entrou no decorrer do jogo das oitavas contra o México, mas não fez nada de memorável. Quatro anos depois, em 2010, ele já era o maior astro em atividade no universo da bola, mas novamente pouco fez. Viu a Argentina comandada por Maradona tomar um vareio da Alemanha nas quartas: 4X0—e ainda deixou a África do Sul sem ter anotado um mísero golzinho.

Já em 2014, consagrado como um dos maiores da história do futebol, Lionel foi bem na primeira fase: fez boas jogadas, decidiu partidas, chamou a responsabilidade… mas seguiu sendo abaixo do que ele mesmo pode oferecer. Nos mata-matas seu futebol caiu, apesar de ter feito toda a jogada do gol solitário e decisivo de Di María no final da prorrogação contra a Suíça, nas oitavas, e começado a jogada para o gol de Higuaín nas quartas (1X0 contra a Bélgica), o último que a Argentina marcou na Copa na qual Lionel foi injustamente eleito o melhor jogador – a escolha mais razoável seria Arjen Robben; mesmo entre os argentinos há quem tenha feito um mundial melhor (Javier Mascherano jogou uma bola que nem ele sabia que podia jogar).

Como o jornalista e escritor Hernán Casciari escreveu na imperdível crônica "Messi es un Perro", presente no livro "Messi es un Perro y Otros Cuentos" (Orsai), inédito no Brasil, Messi recebe faltas fortes, mas não cai. Se cai, não reclama. E se apanha uma, duas, três vezes, não liga, preocupa-se apenas em correr atrás da bola, pegá-la e levá-la até o gol do adversário. Para Casciari, Messi é um caso raro, um tipo que remete aos tempos em que o futebol era quase amador: o jogador-cachorro, que só se importa em brincar com a bola e, com isso, encantar o mundo inteiro, nada mais.

Lionel.

Nas palavras de Hernán, Messi é inabilitado para dizer duas frases seguidas, é visivelmente antissocial e incapaz de compreender quase toda malandragem humana. "Mas tem um talento assombroso para manter em seu poder algo cheio e redondo e levá-lo até uma trama de rede ao final de uma planície verde. Se deixassem, não faria outra coisa, apenas levaria essa esfera branca até os três paus durante todo o tempo, como Sísifo". Só que isso com a camisa do Barcelona, infelizmente.

Sou um dos milhões espalhados pelo mundo que, a cada vez que senta na frente da televisão para ver Messi jogar, fica implorando por doses generosas de toda a sua genialidade, fica rezando para ver o homem-cão. Estive de novo nessa condição nas quatro partidas que ele fez nesta Copa da Rússia, mas pouco recebi: um bom lançamento contra a França e um belíssimo gol contra a Nigéria, com direito a uma matada de bola digna de toda a sua magia. É muito pouco. Messi parecia não ligar muito para sua bolinha, parecia, mais uma vez, não entender a brincadeira daqueles seus colegas que não vê todos os dias.

Messi é capaz de muito mais do fez. Suas centenas de atuações magníficas com a camisa do Barcelona, dignas de arrancar aplausos até mesmo do Fernando e da Belinha, os meus cachorros com pouco tino para o futebol, comprovam isso. Infelizmente nunca vimos todo esse deslumbre em uma Copa do Mundo, apenas alguns lampejos do craque. É por isso que digo: Lionel esteve em quatro mundiais, mas nunca levou a sua versão Messi para algum deles. E perde a Copa por não ter em seu currículo atuações de Messi, o homem-cão, para ostentar por aí.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.