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Messi é quem mais merece a Copa, mas Higuaín deverá estragar tudo de novo

Rodrigo Casarin

16/06/2018 07h26

Messi sem Higuaín é Picasso com tinta, Ferrari com combustível – só que melhor. Porque um Higuaín comum despoja Messi de uma joia imprescindível: os gols decisivos. Messi sem Higuaín é campeão da Copa América, da Copa América Centenário e da Copa do Mundo de 2014. Ou ao menos de um desses três torneios.

Parafraseio o mestre Gay Talese e seu clássico “Frank Sinatra Está Resfriado” (perfil monumental que está no livro “Fama e Anonimato”, Companhia das Letras) para dar uma dimensão do que Lionel Messi, o gênio, seria se não fosse por Gonzalo Higuaín, o caneludo.

Não fosse por Higuaín, Messi estaria em outro patamar, no panteão dos poucos deuses do futebol. Se tivesse vencido pelo menos uma Copa América, seria o grande nome da seleção que deu fim a um jejum argentino que já dura décadas. Sendo mais otimista, se o fim desse jejum tivesse vindo com a vitória na Copa do Mundo disputada por aqui, os amantes do craque teriam argumento suficiente para defender que Messi é maior do que Maradona – e logo diriam que é maior do que Pelé também, podem ter certeza. Porém Higuaín chutou para fora todas essas possibilidades.

Final da Copa América de 2015, Argentina X Chile, 47 minutos do segundo tempo, 0X0. Messi corre pelo meio e toca na esquerda para Lavezi, que dá um passe rasteiro que cruza toda a área e chega a Higuaín. Era uma bola rápida, de ângulo difícil e Higuaín já estava um tanto desequilibrado, mas não era preciso fazer muito, apenas escorá-la na direção do gol e comemorar o título. Perdeu.

Final da Copa América Centenário de 2016, Argentina X Chile, jogo nos Estados Unidos, 0X0. Lance controlado pela defesa chilena, que se embanana com a bola. Sobra para Higuaín que, na cara do gol, de novo tem a chance mais clara da partida. O centroavante leva a bola um pouco para a direita e quando o arqueiro se atira para fechar o ângulo, dá um leve toque por cima do oponente. Jogada inteligente e correta. Mas mal executada, pra variar.

Palacio, Tevez, Agüero, Barcos, Pratto… até o Herrera. Qualquer outro atacante faria esses gols, da mesma forma que não desperdiçaria a maior bola da vida de Higuaín – a maior bola dos últimos 32 anos do futebol argentino, aliás. 2014, Maracanã, Argentina X Alemanha. Kross recua errado e a bola sobra, lógico, para o grosso, que voltava a passos de tartaruga para recompor a defesa. Aquilo que caiu em seus pés não era qualquer presente, mas a mais preciosa e reluzente relíquia que as divindades podem dar a alguém: a bola da taça, a bola da Copa do Mundo. E o que o tiriça me faz com o mais desejado de todos os regalos? Dá um chute torto, mascado, que passa mais de metro longe da trave alemã.

Autor de “Ferrugem”, Marcelo Moutinho também faria os gols que Higuaín perdeu (a não ser que quisesse sacanear a Argentina).

Há, contudo, um lugar onde Higuaín acerta aquele chute, a bola entra, ele eterniza seu nome e Messi finalmente levanta a Copa. Esse lugar está em “Domingo no Maracanã”, um dos ótimos contos de “Ferrugem”, livro de Marcelo Moutinho – também um grande cronista – que levou o Prêmio Literário Biblioteca Nacional do ano passado.

Na história, a jovem Bia conta com a ajuda da mãe, que curte futebol, para convencer o pai – que diz não ver graça em acompanhar “vinte e dois homens correndo atrás de uma bola” – a levá-la para finalmente conhecer o Maracanã, mesmo que num passeio de visitação, num dia sem jogo. Enquanto perambulam pelos corredores ainda em obras que transformarão o gigante num ser esquisito com a personalidade Padrão Fifa, a menina pede para ir ao banheiro. Acha um buraco na parede, imagina que aquilo pode ser algum improviso por conta da reforma. O que encontra ali, no entanto, não tem nada a ver com pias e sanitários.

“Da parede ainda no chapisco e sem esboço, próxima ao carrinho, saía o feixe de luz, uma luz leitosa, que se projetava sala adentro, rasgando a escuridão. Os grãos de poeira flutuavam no fio luminoso. Bia se aproximou. Era um furo com dois ou três centímetros de diâmetro, no concreto”. E o que a garota viu ao bisbilhotar aquele pequeno buraco? Viu o sonho de muita gente.

Primeiro, um “jogador invade a grande área pela direita, firma o pé de apoio, arma o chute, bate rasteiro. A bola dá um, dois quiques. Então o salto arrojado do goleiro, que se estica e a desvia, com as pontas do dedo, na direção da linha de fundo”. Depois, um jogador de camisa branca e número 11 nas costas se prepara para cobrar um pênalti. Consegue deslocar o goleiro, só que “talvez o chute tenha sido aberto demais, elevado demais, mas não. A bola toca a trave esquerda, a meia altura, quica dentro do gol”. No primeiro lance, Barbosa pegava a bola de Ghiggia e evitava o Maracanazo; no segundo, Ado fazia seu gol de pênalti e o Bangu vencia o Coritiba na final do Brasileirão de 1985.

“Aquela fenda – e Bia então percebeu – guardava os lances que por um detalhe não aconteceram”. Detalhes que mudariam os rumos da história do futebol. Tenho certeza que nesse feixe fantástico, mágico, Higuaín acerta o chute, faz o gol, a Argentina bate a Alemanha, Messi levanta a taça e adentra ao panteão da bola sendo recebido com um abraço por Maradona.

Agora, verdade seja dita, Messi, que naquela final perdeu um gol que não costuma perder, também poderia colaborar um pouco mais pra isso. É do gênio que esperamos tudo. É ele que, quando pega na bola, sempre deixa todos aguardando pela jogada inesquecível, o drible curto, o arremate colocado perfeito, a entortada no zagueiro, o passe milimétrico. Messi faz com que o futebol transcenda o esporte e atinja a beleza da arte. A Copa e Messi se merecem, um perde muito sem o outro. Uma história onde Copa e Messi não terminam juntos é uma história triste. Mas tanto Copa quanto Messi já sabem que, se a bola cair nos pés de Higuaín, ele há de estragar tudo de novo. Só o conto de Moutinho pode salvar o caneludo.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.