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Neymar calopsita? Não é de hoje que brasileiro corneta cabelo de jogadores

Rodrigo Casarin

27/06/2018 08h18

Foto: Pascal Guyot.

Antes de ser substituído pelo choro de Neymar, o assunto extrabola da seleção brasileira era o cabelo de Neymar. O penteado trazia um quê de Ana Maria Braga com ousados toques de calopsita e boas doses de tigela de macarrão tombada sobre a cabeça, como bem observou o grande Eric Cantona, e parecia importar muito mais do que o futebol do jogador. Não sei de onde vem esse traço do povo, mas cuidar do penteado dos boleiros da seleção é uma tara antiga dos brasileiros.

Todos se lembram que em 2002 o assunto da reta final da Copa foi Ronaldo com seu corte de Cascão, uma tática para que as pessoas reparassem mais na sua semicareca do que na pequena pança que elegantemente carregava pelos gramados japoneses e coreanos. Deu certo e deu errado. Certo porque cabelo, até onde sei, não muda o futebol de ninguém. Errado porque a seleção foi campeã e o corte bizarro virou moda no país: em qualquer lugar por onde se andava, garotinhos e alguns marmanjos ostentavam o modelito capilar à Fenômeno. Uma pena que a opção foi por um cabelo tão comedido, seria muito mais irreverente se o craque tivesse levantado a taça com cabeleira tipo Valderrama.

Pois revisitando “A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto” (Objetiva), que reúne crônicas de Luis Fernando Veríssimo sobre futebol, cinema e literatura, recordo de mais uma situação capilar envolvendo a seleção brasileira. O autor de “O Analista de Bagé” escreveu intensamente sobre a Copa de 1998, na França, e entre impressões sobre jogos e a tristeza de não ver Raí comandando o meio de campo daquela seleção, registrou sua posição sobre a decisão dos jogadores rasparem a cabeça. As palavras abaixo estão em “A Lógica”, que, ao que tudo indica, refere-se exatamente ao mundial por fazer parte do capítulo “Um Brasileiro na Copa”, mas também poderia tratar do episódio de 1997, quando, na Copa das Confederações, todo mundo tosou a cabeleira, o que também deu bafafá (e rolo entre Zagallo e Rogério Ceni, que, insatisfeito, mandou o Velho Lobo ficar careca também, já que aquilo era pela suposta união do grupo):

Seleção da Copa das Confederações de 1997.

“Cabeças raspadas têm sua lógica em quartéis e cadeias ou outro lugar onde homens coabitam e o piolho é uma ameaça. Também se explicam pelos outros terrores de homens confinados em corporações guerreiras, além dos microscópicos: a sexualidade e a diferença. Como as concentrações da seleção não são quartéis nem prisões, o homossexualismo não é problema e a união do grupo até hoje não dependeu do penteado, a decisão de zerar a cabeça de todo mundo só pode ter sido brincadeira mal pensada ou algo mais profundo e equivocado. Nos dois casos – brincadeira imposta ou algum ritual fechado de bando – foi uma bobagem que acabou atrapalhando”.

Veríssimo completa o texto com um tom jocoso: “Se a intenção era apenas fazer com que todos se parecessem com o Ronaldinho, o resultado foi que o Ronaldinho ficou parecido com qualquer um”, registra, referindo-se à má atuação do craque em alguma das partidas do Brasil. “E ainda tiraram preciosos centímetros da altura do Juninho!”, finaliza, lembrando do baixinho e habilidoso meia revelado pelo São Paulo.

É estranho, mas, definitivamente, o brasileiro adora cuidar do cabelo daqueles que vestem a camisa amarela.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.