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Gênio e idiota ao mesmo tempo, Céline e sua obra causam polêmica na França

Rodrigo Casarin

11/01/2018 10h39

Em 1932, aos 38 anos, o francês Louis-Fernand Céline publicou “Viagem ao Fim da Noite”, sua obra-prima. No livro, escancara os absurdos da vida e a fragilidade do ser humano. Conhecido por sua prosa visceral, radical para sua época, com forte influência da linguagem oral, também é autor de “De Castelo em Castelo” e “A Vida e a Obra de Semmelweis”, dentre outros. Admirado por grandes escritores – impactou no estilo de autores como Charles Bukowski e Henry Miller –, Céline é apontado por muita gente como um gênio das letras.

Céline também foi indiscutivelmente um idiota. Vivendo durante a ascensão e o auge do nazismo na Europa, o escritor mostrou sua pior faceta ao escrever obras panfletárias que ecoavam os ideais apresentados nos discursos de Adolf Hitler e atacavam diversas minorias: negros, mulheres, homossexuais, judeus… Títulos como “Bagatelles Pour un Massacre”, “L’Ecole des Cadavres” e “Les Beaux Draps” evidenciam o lado nojento de Céline. O homem era praticamente a caricatura de um fascista, tanto que chegou a colaborar diretamente com os nazistas depois que os exércitos alemães ocuparam a França.

Agora, o choque entre o Céline gênio e o Céline idiota está causando polêmica na França. Isso porque a Gallimard, uma das editoras mais importantes e prestigiadas do mundo, anunciou que publicará em 2018 uma edição reunindo os três títulos citados no parágrafo anterior, colocando de volta no mercado as ideias antissemitas, racistas e cheias de outras lamentáveis mazelas do autor. Com o título de “Ecrits Polémiques”, o volume terá cerca de mil páginas e ainda contará com outros dois artigos do escritor, um em homenagem a Émile Zola e outro dedicado a Jean-Paul Sartre.

O governo francês já demonstrou preocupação com a obra e solicitou aos editores que o volume contenha um aparato crítico que dialogue com o leitor sobre as ideias de Céline, bem como aponte os equívocos históricos e científicos utilizados para embasar seus pensamentos. Dentre os leitores, segundo o jornal “El País”, há quem defenda a publicação com a justificativa de que, dessa forma, poderiam ter acesso a uma edição confiável dos escritos, outros concordam com a publicação, mas reforçam a necessidade de um grande aparato crítico. Por fim, há aqueles que são contrários à volta desses textos às livrarias por conta do discurso de ódio neles presente.

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Céline morreu em 1961. Antes disso, após a Segunda Guerra, pediu para que seus escritos extremistas não fossem mais reeditados. Sua vontade vinha sendo respeitada até aqui por Lucette Destouches, sua viúva e detentora de seus direitos autorais. Agora, no entanto, aos 105 anos, por estar com problemas financeiros e de saúde, Lucette reviu a decisão.

A celeuma lembra a discussão que aconteceu no começo de 2016, quando “Minha Luta”, de Hitler, caiu em domínio público e foi relançado em diversos lugares do mundo. Na ocasião, os escritores Miguel Sanches Neto e Ricardo Lísias escreveram artigos para o Uol se posicionando, respectivamente, a favor e contra a edição do livro no Brasil. Confira as opiniões aqui e aqui.

Atualização às 14h10: a Gallimard anunciou há pouco que suspendeu a publicação de “Ecrits Polémiques”.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.