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Caça às minorias: Distopia antecipa o que o Brasil pode virar após eleições

Rodrigo Casarin

09/01/2018 10h23

“Tribunal da Inquisição”, pintado no século 18 pelo italiano Alessandro Magnasco.

Na primeira semana de dezembro, um grupo invadiu o Centro de Cidadania LGBT Luiz Carlos Ruas, que fica no centro de São Paulo, e vandalizou o lugar. Os marginais fizeram cocô e xixi pelos corredores e em vasos de flores, furtaram alguns pertences, deixaram móveis, computadores e outros objetos destruídos, romperam os cabos de telefone e ainda largaram as torneiras abertas, assim, quem sabe, uma inundação arruinaria de vez a casa que acolhe cidadãos LGBTs que passam por problemas.

O ataque, provavelmente motivado pelo ódio contra homossexuais, aconteceu de verdade, infelizmente, mas também poderia ser uma cena de “Ninguém Nasce Herói” (Seguinte), romance mais recente de Eric Novello. A obra se situa em um Brasil liderado pelo “Escolhido”, fundamentalista religioso que fomenta e incentiva ações de ódio contra as mais diversas minorias.

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Quando o mandatário anuncia um Pacto pela Convivência – ou seja, um movimento para que essas minorias sejam de alguma forma aceitas -, a desconfiança é que, na verdade, quer mesmo descobrir quem é homossexual, por exemplo, para que perseguições de milícias urbanas respaldadas pelo governo se tornem ainda mais intensas – há, inclusive, uma passagem bastante semelhante à ofensiva contra o Centro de Cidadania LGBT Luis Carlos Ruas. No meio disso, Chuvisco e um grupo de amigos tentam de alguma forma resistir à realidade totalitária, na qual até a distribuição de livros é vista com maus olhos pela polícia.

Se no ano passado, após a eleição de Donald Trump, as distopias tomaram conta do mercado editorial dos Estados Unidos – e, consequentemente, de boa parte do mundo – primeiro com “1984”, de George Orwell, e depois com livros de Margaret Atwood (principalmente “O Conto da Aia”), o resultado das eleições deste ano no Brasil poderá ter potencial para provocar efeito semelhante com obras que encarem nossa própria realidade. Seja no executivo, seja no legislativo, se nas urnas o extremismo vencer, distopias, hoje já tão pertinentes, darão ainda mais o tom do nosso provável futuro. Nesse movimento, “Ninguém Nasce Herói” se transformaria em um dos títulos premonitórios de um Brasil sombrio, violento e autoritário.

Um país fundamentalista

Enquanto a realidade se torna cada vez mais violenta para Chuvisco e seus amigos – sim, o romance tem um tom de “história da turma” -, diversas passagens parecem refletir um Brasil que já existe ou que está prestes a surgir:

“O Brasil começou a se tornar um país fundamentalista muito antes do Escolhido se candidatar a presidente. Quando ele era apenas um deputado bagunçando a Comissão de Direitos Humanos, todo mundo falou: ‘Uma hora esse cara desaparece’. Quando ele assumiu a presidência da Câmara dos Deputados, todo mundo falou: ‘Exposto dessa maneira, logo ele é investigado e desaparece’. Quando ele comandou a votação para acabar com antigos direitos trabalhistas, todo mundo falou: ‘Nem o partido dele vai apoiar isso, logo ele some, desaparece’. Quando impôs o Estatuto da Família, todo mundo falou: ‘Isso é só pra aparecer, logo ele desaparece’, E assim, servindo aos propósitos daqueles que o financiavam, ele se tornou presidente”.

O que temos com tal presidência é um pandemônio para homossexuais, negros e praticantes de religiões oriundas da África, dentre outros. “Todos sabemos que a liberdade de ir e vir é ilusória. Basta estar atento para ouvir histórias sobre pessoas espancadas, agredidas, desaparecidas, encontradas mortas – crimes que as investigações transformam em suicídio sem o menor pudor”.

Eric Novello.

Em outro momento, Chuvisco se mostra incrédulo com o rumo que o país escolheu para si. “Não consigo esconder o choque. Até então, nunca havia imaginado que o Escolhido poderia ser a referência de político moderado para alguém. Um fundamentalista que subiu ao governo por meio de um golpe frio, criou uma milícia para se proteger – ou a Força Tática dos Gladiadores, se preferir o nome oficial – e estimulou grupos radicais a chacinar seus opositores”.

Nessa realidade, qualquer tipo de manifestação é brutalmente reprimida – como já costuma acontecer há algum tempo, diga-se, principalmente a partir de julho de 2013, um dos momentos que também ecoam na obra -, como constata o resultado de uma pesquisa na internet feita por Chuvisco após um dos atos de resistência:

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“Há filmagens em protestos. Massacres na periferia. Uma menina sendo arrastada pelo chão por homens fardados enquanto é xingada de puta e todos os nomes possíveis. Dois garotos enfiados em uma viatura à base de golpes de cassetetes. Outro, chamado ‘Cinquenta bombas em cinco minutos’, mostra um protesto sendo encurralado entre dois paredões da tropa de elite paulistana. Um sujeito com a máscara de caveira aparece dizendo que aquele foi um dia comum na cidade. Mostra uma entrevista do governador parabenizando a ação e volta para dizer que nenhuma investigação por abuso de poder foi iniciada, apesar de vinte e duas pessoas feridas e três desaparecidas”.

Autor também de livros como “Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues” (Gutemberg) e “Neon Azul” (Draco), “Ninguém Nasce Herói” é o melhor romance de Novello, que se coloca definitivamente como um dos proeminentes autores de sua geração (me surpreendeu como soube lidar bem com as catarses criativas de seu protagonista, ponto sensível da narrativa). Olhando para o nosso passado recente e delicado presente, Novello acertou em cheio no que pode vir a ser nosso assombroso futuro imediato.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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