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Prêmios: ano de Silviano; Brasil e Portugal descobrem falar a mesma língua

Rodrigo Casarin

01/12/2017 10h29

Silviano Santiago.

Ontem o Jabuti anunciou os vencedores das categorias Livro do Ano de Ficção, que foi para “Machado”, de Silviano Santiago, e Livro do Ano de Não Ficção, entregue a Magda Soares por “Alfabetização: A Questão dos Métodos”. Com isso, a temporada de premiações importantes do nosso mercado editorial chega ao fim. Então, hora de analisar o que rolou, lembrando que, como no ano passado, focarei nos trabalhos de ficção adulta (romances, novelas, contos e poesia). Repassemos os vencedores dos principais prêmios:

Biblioteca Nacional
Contos: “Ferrugem”, Marcelo Moutinho (Record)
Romance: “Descobri que Estava Morto”, João Paulo Cuenca (Tusquets)
Poesia: “A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens”, Sérgio Medeiros (Iluminuras)

Jabuti
Livro do Ano de Ficção: “Machado”, Silviano Santiago (Companhia das Letras)
Romance: “Machado”, Silviano Santiago (Companhia das Letras)
Contos e Crônicas: “Sul”, Veronica Stigger (Editora 34)
Poesia: “Quase Todas as Noites”, Simone Brantes (7letras)

Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa
1º lugar: “Karen”, Ana Teresa Pereira (Relógio D’Água)
2º lugar: “Machado”, Silviano Santiago (Companhia das Letras)
3º lugar: “O Golpe de Teatro”, Helder Moura Pereira (Assírio e Alvim)
4º lugar: “Anunciações”, Maria Teresa Horta (Dom Quixote), e “Simpatia pelo Demônio”, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras)

Prêmio São Paulo de Literatura
Romance do ano: “Outros Cantos”, Maria Valéria Rezende (Alfaguara)
Romance de autor estreante com mais de 40 anos: “Céus e Terras”, Franklin Carvalho (Record)
Romance de autor estreante com menos de 40 anos: “A Instrução da Noite”, Maurício de Almeira (Rocco)

Assim sendo…

O grande livro: Diferente do ano passado, quando a estrela evidente foi “A Resistência”, de Julián Fuks, seguido por “Anatomia do Paraíso”, de Beatriz Bracher, este ano não tivemos grande convergência. Como é possível perceber acima, os troféus foram para mãos bem diferentes. Entretanto, olhando com mais atenção, um livro se destaca: “Machado”, de Silviano Santiago, vencedor do Jabuti na categoria Romance e Livro do Ano de Ficção e segundo colocado no Oceanos.

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Mas não só isso. “Machado” ainda foi finalista do Prêmio São Paulo, o que o coloca definitivamente como o livro mais agraciado pelos críticos que compuseram o juri das diferentes premiações. Na obra, Santiago, excelente tanto como romancista quanto como ensaísta, explora os últimos anos da vida de Machado de Assis.

“Outros Cantos”, de Maria Valéria Rezende, também foi muito bem. Além de levar o São Paulo, ficou em 3º na categoria Romance do Jabuti e marcou presença entre os 51 semifinalistas do Oceanos. Nele, a autora leva para a ficção histórias com as quais se deparou ao longo de sua vida de freira educadora que já rodou muito pelo Brasil – e um tanto pelo mundo.

O que ler? Tá a fim de ler literatura premiada mas não sabe por onde começar ou não quer encarar toda a lista acima? Bom, além de “Machado” e “Outros Cantos”, evidentemente, recomendo ir de “Ferrugem”, até para alternar um pouco os gêneros literários. Moutinho leva para os bons contos do volume, ambientados no subúrbio carioca, personagens como uma caixa de supermercado, uma cobradora de ônibus, uma garotinha que não entende por que o irmão passa tanto tempo com sua boneca e um cantor de boate. Vale ainda lembrar que neste ano a Biblioteca Nacional, que agraciou o autor, reconheceu livros publicados em 2017 mesmo, enquanto Jabuti, Oceanos e São Paulo focaram em volumes de 2016.

Prêmios Sesc e SP, um caso de amor: Como vem acontecendo há alguns anos, gente revelada pelo Prêmio Sesc, dedicado a autores inéditos, consagrou-se também em outros certames. Desta vez, Maurício de Almeida e Franklin Martins, ambos projetados ao mercado editorial graças ao reconhecimento concedido pela instituição, levaram o Prêmio São Paulo.

Aliás, impressiona a convergência que há entre o Sesc e o São Paulo. São diversos os autores galardoados nas duas frentes: além de Franklin e Maurício, de 2014 para cá tivemos também Marcos Peres, Rafael Gallo e Débora Ferraz. Neste ano, os vencedores do Sesc foram o contista João Meirelles Filho com “O Abridor de Letras” e o romancista José Almeida Júnior com “Última Hora” (que já li e é bom). Vamos ver como eles se sairão em outras premiações no ano que vem.

Desconcentração editorial: No ano passado chegou a ser bizarro como o Grupo Companhia das Letras levou a imensa maioria dos troféus. Neste ano a coisa felizmente mudou. A Companhia continua sendo a maior vencedora, com cinco prêmios (um deles com livro publicado pelo selo Alfaguara). Na sequência vem novamente a Record, com dois títulos agraciados. O legal é que as outras oito distinções foram para editoras diversas, sendo cinco delas brasileiras e três portuguesas. Essa pluralidade é muito bem-vinda.

Ana Teresa Pereira.

Portugueses: A presença dos portugueses, aliás, é a grande novidade das premiações deste ano. O Oceanos decidiu ampliar sua visão e agraciar livros publicados em língua portuguesa em qualquer parte do mundo, não apenas no Brasil. O resultado além dos premiados? Dentre os 51 semifinalistas, 31 eram livros de autores brasileiro, 19 de portugueses e um de angolano.

Isso também escancarou como Brasil e Portugal pouco dialogam quando o assunto é literatura. Dos 31 semifinalistas brasileiros, 30 não tinham sido publicados em Portugal – sendo que 21 autores nacionais presentes na semifinal nunca tiveram ficção alguma lançada por lá. No sentido oposto, nenhum dos 19 livros semifinalistas portugueses saiu no Brasil, sendo que 11 dos autores dessas obras ainda são inéditos por aqui. Se Brasil e Portugal parecem falar línguas completamente distintas e viver em mundos diferentes, o que dizer da relação com a literatura dos países lusófonos africanos?

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Premiados, mas não nas livrarias: Por fim, algo estranho que é claro reflexo do cenário apresentado acima: três dos cinco livros premiados pelo Oceanos não estão em nossas livrarias. É ruim ver um livro de língua portuguesa sendo agraciado aqui no Brasil e não termos como comprar um exemplar para conhecer a obra.

Claro que isso é um problema do mercado, não do prêmio. Seria legal se as editoras começassem a se coçar para trazer ao Brasil com urgência, preferencialmente antes do anúncio dos vencedores, os livros de outros países que chegam ao menos à final do Oceanos. Em todo caso, a Todavia, que deverá figurar entre as casas papa títulos num futuro bem próximo, já anunciou que publicará “Karen” por aqui no ano que vem.

Gostou? Você pode me acompanhar também pelo Twitter e pelo Facebook.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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