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Ele já foi o rei do ecstasy e ganhou até R$500 mil em duas semanas, hoje tenta dar nova vida a ex-detentos

Rodrigo Casarin

10/02/2017 10h28

Foto: Gustavo Godoy

Gabriel Godoy tinha 18 anos quando, em 2007, saiu de Serra Negra, no interior de São Paulo, para tentar a vida em outro canto. Por um golpe do acaso foi parar em Maresias, badalado bairro de São Sebastião, litoral norte do estado, onde logo arrumou trabalho em restaurantes. Levantava algum dinheiro, mas quando uma oportunidade pintou, percebeu que faria sucesso em outro ramo: vendendo ecstasy e LSD em festas na região. Notou imediatamente que aquele sim seria um bom caminho para encher o bolso e projetar seu nome.

O pequeno traficante se tornou conhecido e respeitado naquela parte do litoral, mas enfadou-se ao detectar que seu negócio ali só era forte durante as temporadas, que o resto do ano seria de um marasmo que estava longe de desejar. Após incursões breves por lugares como Campos de Jordão, decidiu que era hora de apostar numa cidade cujo mercado para suas drogas jamais ficava em baixa: a capital paulista.

Não demorou para que, na metrópole, repetisse o sucesso que havia feito no litoral. Conquistando a confiança de diversos elementos da cadeia do tráfico – fornecedores, clientes, seguranças, donos de festas e baladas… – e contando com apoio de policiais que lhe garantiam proteção e atuavam como sócios, logo estava abastecendo diversos traficantes menores com ecstasy, LSD e lança-perfume, substância que descobrira um pouco depois das outras duas. Começara vendendo algumas escassas unidades de sintéticos, agora já movimentava milhares de unidades de drogas semanalmente.

Quando foi preso, no meio de 2009, ficou detido no presídio de Guarulhos II. Aprendeu como funcionava a realidade da cadeia: subornando carcereiros e contando com parceiros que estavam em liberdade, passou a movimentar parte do tráfico entre os presidiários. Gabriel ficou pouco mais de quatro meses no lugar, o suficiente para entender tão bem a engrenagem daquele sistema paralelo que passou os últimos dias na cela cheia de regalias dos chefões do crime. Foi libertado do cárcere em novembro do mesmo ano.

Foto: Gabriel Quintão

O verdadeiro rei do camarote

Na rua novamente, o jovem resolveu que ampliaria ainda mais o seu negócio. A venda para o consumidor final já tinha, definitivamente, deixado de ser seu principal nicho quando arquitetou um esquema para fabricar drogas. Nessa época, já com uma respeitável carteira de clientes e um forte esquema montado para distribuir aproximadamente 100 mil comprimidos por mês, que em duas semanas chegou a embolsar R$500 mil, o seu auge em termos de dinheiro. Passou a ser tratado por muitos como "o rei do ecstasy".

No entanto, sempre queria mais, muito mais. "Não queria o topo financeiro, não queria patrimônio. Eu queria ser o maior traficante das festas, vendendo o melhor produto e com o preço mais baixo. Depois que fui preso eu vi que era hora de começar a ganhar dinheiro, mas se ganhava R$100 mil, gastava tudo, porque sabia que ganharia isso de novo no mês seguinte", conta, por telefone, Gabriel.

E com o que gastava? Festas, muitas festas – o rei do ecstasy era também o verdadeiro rei do camarote. Quando chegava nas baladas mais cobiçadas de São Paulo, seguranças o recebiam na porta para levá-lo até o melhor dos espaços privativos. Ali, champanhes que custavam mais de R$1000 a garrafa rolavam à vontade, enquanto mulheres desfilavam ao seu lado e amigos aproveitavam suas drogas. Algum policial costumava ajudar na sua proteção – assim, eventuais problemas se resolviam com uma carteirada – e se por um motivo qualquer quisesse colocar alguém para fora da casa, bastava pedir.

Em luxuosas viagens para destinos como Florianópolis, não passava vontade nem quando desejava alugar um iate para impressionar algumas garotas e foi o responsável pelo sucesso de baladas até mesmo em cruzeiros de milionários. Emendando uma festa seguida da outra, ficava dias sem dormir, embalado principalmente por lança-perfume, ecstasy e LSD: sim, as substâncias eram as responsáveis tanto pela fortuna de Gabriel quanto pela sua energia. As balas e doces que moviam sua vida.

Tudo isso está relatado no livro "Baladas Proibidas", escrito por Gabriel em parceria com o jornalista Bolívar Torres e recentemente publicado pela Record. Dentre os diversos elementos que impressionam na história do ex-traficante, um deles é a tranquilidade com que exercia o ofício. Diferente do que prega o senso comum, a violência era algo raro naquele nicho de mercado que o jovem atuava.

"O tráfico de drogas sintéticas, no geral, é tranquilo. A maior parte do comércio é movimentada dentro de festas de música eletrônica, de baladas, não em uma favela ou biqueira. Não tem briga entre facções, polícia que chega invadindo os lugares… Eu não vivia o lado sombrio do tráfico. Alguns episódios de violência só começaram a acontecer depois da minha prisão, quando passei a frequentar favelas", recorda, mostrando que o combate truculento às drogas se dá de maneira bastante distinta de acordo com a classe social dos envolvidos. "Nas festas que atuava, eu via médicos, advogados, empresários, artistas, apresentadores de televisão, gente com peso na sociedade consumindo minhas drogas", completa.

R$300 mil, joias, óculos e um carro pela liberdade

No entanto, aos poucos Gabriel foi vendo a ruína dos seus parceiros. A nova prisão que ele tanto temia veio no segundo semestre de 2012, quando traficantes menores caíram nas mão de policiais e entregaram todo o esquema do qual faziam parte. Dessa vez Gabriel não precisaria passar uma nova temporada atrás das grades, mas a liberdade custou muito: polícias extorquiram tudo o que podiam do rei do ecstasy. De sua casa levaram relógios de R$25 mil, correntes, óculos… Na delegacia, pediram ainda o carro de Gabriel – um Audi blindado -, dois mil comprimidos de drogas e ainda obrigaram o detido a tirar um extrato de sua conta bancária para que pudessem rapelá-la: assim, além de todos os bens que roubaram, os policiais ainda embolsaram R$300 mil em dinheiro.

Depois da detenção seguida de extorsão, outro trecho da história que contradiz o senso comum a respeito do mercado de drogas: após se tornar o rei do ecstasy e ganhar centenas de milhares de reais por mês, Gabriel conseguiu deixar a atividade para trás e iniciar uma nova vida. Começou apostando na produção de festas e, um pouco mais tarde, convidado por um amigo, teve uma experiência catártica acompanhando um culto em uma igreja. "Quem, entre vocês, aceita Jesus como seu Senhor?", perguntou o pastor. Decidiu ali que colocaria um ponto final naquela sua bem-sucedida, perigosa e ilícita carreira.

"Bandido nem sempre será bandido"

Gabriel garante que desde maio de 2014 nunca mais vendeu ou consumiu drogas e sequer entrou em algum dos ambientes que costumava frequentar. Evangélico, atribui sua mudança à igreja, mas acredita que diversos fatores podem contribuir para que bandidos deixem o crime. Essa crença que lhe motiva a realizar trabalhos sociais principalmente com detentos e ex-detentos: sua vontade é ajudar essas pessoas a tentarem uma vida dentro da legalidade, tanto que está abrindo uma clínica em Serra Negra para atuar com gente que busca por um novo futuro.

"O preconceito da sociedade com ex-detentos é muito grande. Quero ajudar a mudar isso. Quero mostrar que bandido nem sempre será bandido, por isso que escrevi o livro". Gabriel também acredita que o melhor lugar para realizar esse tipo de recuperação é o próprio cárcere, mas desde que os presos sejam tratados com respeito e lhes sejam dadas educação e oportunidades. "De cada 100 bandidos, 99 serão presos e ali no presídio é o único momento que o estado pode mudar essas pessoas. Porém, hoje o preso é mal tratado, não tem dignidade nenhuma, precisa se virar para conquistar algum espaço na cadeia, não recebe estudo, não faz um curso… Aí sai pior do que entrou, ainda mais revoltado com o tratamento do sistema e a falta de perspectivas".

Gabriel também é a favor da legalização da maconha e acredita que a política de combate às outras drogas deveria mudar. "Guerra às drogas não leva ninguém a lugar algum. O melhor caminho pro Brasil seria legalizar pelo menos a maconha, que comprovadamente é um mal menor do que bebida e cigarro. Para as outras drogas, inclusive as sintéticas, tinham que ter leis mais coerentes, que punam os traficantes que movimentam grandes quantidades dos produtos".

E, nessa nova vida, Gabriel em algum momento de arrepende do seu passado? "Espiritualmente, busquei meu perdão e meu arrependimento, mas não posso ser hipócrita de, no mundo natural, me arrepender do que fiz. Quando estava no camarote estourando champanhe e usando drogas, poderiam me oferecer um milhão que eu não largaria aquilo. Eu achava que nunca conseguiria sair daquele mundo, o prazer é muito grande, mas aprendi que dá sim pra ter uma vida diferente. Me arrependi diante de Deus, mas no mundo real eu não posso me arrepender".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.