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Moraes Moreira, a poesia e o chorare pelo Brasil que se vai

Rodrigo Casarin

13/04/2020 13h54

Numa paisagem entre o pão e a poesia
entre o quero e o não queria
entre a terra e o luar
não é na guerra, nem saudade nem futuro
é o amor no pé do muro sem ninguém policiar

É a faculdade de sonhar é uma poesia
que principia quando eu paro de pensar
pensar na luta desigual, na força bruta, meu amor
que te maltrata entre o almoço e o jantar.

Moraes Moreira cantava esses versos de "Pão e Poesia", mas, se quisesse, poderia muito bem recitá-los. O músico e compositor que há pouco se foi era um grande apaixonado pela literatura. Dentre suas referências artísticas, extrapolava cantores e instrumentistas; citava alguns gigantes de nossas letras: Guimarães Rosa, Drummond, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado….

Daquela que talvez seja a forma mais popular de poesia, no entanto, que se alimentou desde a infância. O cordel lhe acompanhou durante toda a carreira e, simbolicamente, serviu de norte para um de seus trabalhos mais recentes: o disco "Ser Tão", de 2018, que deu origem ao show "Música e Poesia".

Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel desde 2016 (sim, até para o cordel há fardão), contava em entrevistas que devia o ritmo, a métrica e a sagacidade de suas composições à arte de Leandro Gomes de Barros e outros tantos. Com o passar do tempo, começou a se definir mais como cantador do que como cantor, acreditando que isso o reaproximava dos artistas populares.

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Oi pessoal estou aqui na Gávea entre minha casa e escritório que ficam próximos,cumprindo minha quarentena,tocando e escrevendo sem parar. Este Cordel nasceu na madrugada do dia 17, envio para apreciação de vocês .Boa sorte Quarentena (Moraes Moreira) Eu temo o coronavirus E zelo por minha vida Mas tenho medo de tiros Também de bala perdida, A nossa fé é vacina O professor que me ensina Será minha própria lida Assombra-me a pandemia Que agora domina o mundo Mas tenho uma garantia Não sou nenhum vagabundo, Porque todo cidadão Merece mas atenção O sentimento é profundo Eu não queria essa praga Que não é mais do Egito Não quero que ela traga O mal que sempre eu evito, Os males não são eternos Pois os recursos modernos Estão aí, acredito De quem será esse lucro Ou mesmo a teoria? Detesto falar de estrupo Eu gosto é de poesia, Mas creio na consciência E digo não a todo dia Eu tenho medo do excesso Que seja em qualquer sentido Mas também do retrocesso Que por aí escondido, As vezes é o que notamos Passar o que já passamos Jamais será esquecido Até aceito a polícia Mas quando muda de letra E se transforma em milícia Odeio essa mutreta, Pra combater o que alarma Só tenho mesmo uma arma Que é a minha caneta Com tanta coisa inda cismo…. Estão na ordem do dia Eu digo não ao machismo Também a misoginia, Tem outros que eu não aceito É o tal do preconceito E as sombras da hipocrisia As coisas já forem postas Mas prevalecem os relés Queremos sim ter respostas Sobre as nossas Marielles, Em meio a um mundo efêmero Não é só questão de gênero Nem de homens ou mulheres O que vale é o ser humano E sua dignidade Vivemos num mundo insano Queremos mais liberdade, Pra que tudo isso mude Certeza, ninguém se ilude Não tem tempo,nem.idade

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Assumindo-se poeta, Moraes Moreira também deixou seus versos em livros. Em "Dá Pra Viver Sem Cultura?", reuniu meia dúzia de peças num magrelo de 32 páginas lançado pela Numa, mesma casa pela qual publicou "Poeta Não Tem Idade". Este, de 2016, é um volume maior, com mais de 70 poemas nos quais o baiano de Ituaçu repassa momentos da infância e versa sobre temas como família, amizade e a própria existência. Em "A Letra e a Poesia", por exemplo, burilou sua paixão pelas palavras:

Não dou razão a ninguém
Nessa conversa eu não entro
Bem-vindo o que vem de dentro
E fora da Academia
Partindo desse princípio
Quem me atrai são os loucos
Que celebram como poucos
Música e poesia

Eu quero lê-las em livros
Eu quero ouvi-las em discos
Eu faço lá meus rabiscos
Multiplicando os ofícios
Exercitando a virtude
Na profusão das imagens
Na integração das linguagens
Eu quero todos os vícios

[….]

Eu quero todas as mídias
Fazendo como quem sabe
Se alguma coisa me cabe
Que seja assim porque é
No espaço desse universo
A inspiração me projeta
Um vagabundo poeta
Ou um letrista qualquer*.

Dessa forma, não surpreende que o último ato artístico de Moraes Moreira seja um poema. E um poema sobre o nosso tempo, sobre o grande drama em que estamos metidos. Em suas redes sociais, publicou "Quarentena", no qual parte da pandemia para construir versos bastante politizados (passa, inclusive, pela falta de respostas para a morte de Marielle Franco), mostrando-se ciente de que não há como dissociar um problema tão grave das ações dos nossos políticos:

Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta.

Lamentemos a morte de Moraes Moreira. Enquanto escrevo este texto, o início de "Preta Pretinha" não sai da minha cabeça: "Eu ia lhe chamar/ enquanto corria a barca….". Impossível falar do artista sem lembrar dos Novos Baianos, sem lembrar do "Acabou Chorare". Ao que tudo indica, nosso chorare ainda durará muito tempo. Precisávamos de mais canetas como a do artista funcionando por aqui. A morte de Moraes Moreira é mais um triste episódio nesse Brasil que parece também estar indo embora.

*Poema retirado do blog Acontecimentos, do poeta Antonio Cicero.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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