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O mundo é jovem: um pouco de otimismo com Domenico De Masi

Rodrigo Casarin

10/04/2020 09h40

"O mundo no qual vivemos certamente não é o melhor dos mundos possíveis, mas é, sem dúvida, o melhor dos mundos que já existiram até hoje. Nunca antes a Terra foi habitada por 7 bilhões de cérebros, boa parte deles instruída e cada vez mais interconectada. Nunca os homens foram tão longevos; nunca as famílias reuniram tantas gerações e tantas vivências sob o mesmo teto; nunca a onipresença foi tão possível e praticada; o planeta nunca produziu tanta riqueza e alimentou tantas bocas; nunca tantos países conheceram a democracia; nunca havíamos feito tantas descobertas científicas e construído obras tão surpreendentes".

Essa é uma das grandes certezas de Domenico De Masi. A outra é esta: "A obra criativa do homem está apenas iniciando sua caminhada, e, pela primeira vez na história humana, cabe a nós dar-lhe continuidade ou interrompê-la para sempre. 'O mundo ainda é jovem', diria [o filósofo] Giambattista Vico ao propor sua vida nova".

Gosto da maneira como o italiano olha de forma crítica para os assuntos que lhe são caros e deles tira aspectos ou propõe caminhos positivos. Sociólogo interessado em temas fundamentais (o mundo pós-industrial, o trabalho, a criatividade….), De Masi é bastante conhecido pelo conceito de "ócio criativo". Sim, aquele que sempre vem com uma explicação: não se trata de incentivar a vagabundagem, mas mostrar quão importante é o tempo para o estudo e o lazer numa época em que indivíduos acham bonito passar 15, 20 horas do dia num escritório.

Os trechos que abrem este texto estão em "O Mundo Ainda é Jovem – Conversas Sobre o Futuro Próximo", publicado no ano passado pela Vestígio em tradução de Reginaldo Francisco e Sieni Cordeiro Campos. A obra, cuja versão original também é de 2019, apresenta conversas de De Masi com a jornalista Maria Serena Palieri travadas num instante bastante conturbado para o planeta, mas sem pandemias no radar.

Mesmo num tempo pré-isolamento em massa, De Masi já tinha esse tipo de certeza: "Somos os primeiros a sentir uma desorientação total. De 360 graus. Não em uma única esfera da vida, mas em todas. Nesse sentido, nosso desnorteamento constitui uma categoria nova". Dentre as causas desse desnorteamento está, por exemplo, a precarização do trabalho num momento em que crescimento econômico, popularização da inteligência artificial e emprego se debatem.

Outro ponto fundamental é a concentração de renda. De Masi lembra que, segundo a Forbes, apenas oito pessoas embolsam uma bufunfa igual à riqueza de metade da população mundial, num funil que se estreitou severamente nos últimos anos. Políticos que olham mais para números de bolsas de valores do que para suas populações também merecem a atenção do sociólogo. "A partir do momento em que os mercados financeiros impõem sua agenda aos governos, estes estão forçados a fazer uma navegação costeira, correndo atrás do índice Nasdaq ou Dow Jones e deixando cidadãos sem nenhuma visão estratégica sobre seu próprio futuro e o de seus filhos". De Masi é otimista, mas não ingênuo.

Fala ainda da necessidade de se pensar mais na coletividade do que no indivíduo, de questionar o mito do eterno crescimento e da relevância que a luta de classes segue tendo. Também vislumbra no horizonte uma séria ameaça: a volta do fascismo. No livro, editado num ano menos dramático e propício a radicalismos do que este 2020, diz que muitos países estão num estado de "pré-fascismo", num movimento que pode descambar naquilo que Umberto Eco chamou de ur-fascismo.

Só que, como vocês viram, também indica que sempre é possível fazer algo para alterarmos a rota. O sociólogo prega um grande pacto global. Propõe um movimento que abranja e seja protagonizado por todos: "Homens e mulheres, locais e imigrantes, ricos e pobres, empregados e desempregados, para redistribuir igualitariamente a riqueza, o trabalho, o poder, o conhecimento, as oportunidades e proteções".

Com o mundo em quarentena, as milhares de mortes e a completa incerteza sobre o futuro, o olhar do sociólogo já deve ser diferente para algumas questões. Em todo caso, como estamos precisando de alguma utopia, não custa nos apegarmos um pouco a certas palavras que De Masi ecoa de Vico, nem que seja para um conforto momentâneo: o mundo ainda é jovem.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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