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Em sátira a Bolsonaro, presidente vira escritor após morte por coronavírus

Rodrigo Casarin

31/03/2020 09h28

Messias Botnaro não resistiu ao coronavírus. Ex-presidente da República, aprendeu a ler depois da morte e aproveitou a nova condição para copiar Brás Cubas: virou um defunto autor. "Servir à Pátria como escritor – esse momento não tem preço. E isso só está sendo possível porque morri… É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como escritor. E me coloco diante de toda a nação, neste livro, para o povo se libertar do socialismo, da inversão de valores e do politicamente correto… Agradeço ao COVID-19 por estar morto e a vocês que oraram por mim nos momentos mais difíceis", escreve Botnaro nas primeiras páginas de "Tuítes Póstumos de um Herói Nacional".

O título é uma sátira política que há pouco começou a rodar pela internet. São alguns os mistérios que o cercam. A editora que o publica, Alliance for Brazil Press, só existe no plano ficcional (o nome, diga-se, é um bom achado). Não sabemos quem, de fato, escreveu o volume de 72 páginas cuja autoria é atribuída a Messias Botnaro. Apesar de já estar na mão de diversos leitores, o lançamento oficial do livro acontece hoje, 31 de março, alardeada data de aniversário do Golpe de 1964. Gratuita, a obra circula via WhatsApp e pode ser baixada de um site russo.

Com uma proposta que remete ao "Diário da Cadeia", de Eduardo Cunha (Pseudônimo) (Record), na ficção cabe à médium Joseíta Pítia supostamente psicografar as mensagens de Botnaro. Tal qual seu correspondente terreno, o personagem aposta no Twitter para explanar suas ideias. O livro é dividido em três capítulos ("A lei no lombo", "Filosofia do farfalhismo" e "A revolução conservadora do cidadão de bem"), cada um deles composto por 38 tuítes como este: "Está na Constituição e na Bíblia, o que é família? Homem e mulher. Os gays não são semideuses. A maioria é fruto do consumo de drogas. 90% desses meninos adotados por um casal gay vão ser homossexuais e garotos de programa, com toda certeza. Sou homofóbico sim, com muito orgulho".

Botnaro diz ter encontrado no "reino escuro" o "filósofo dos filósofos, um dos mais originais e audaciosos pensadores que todos os tempos". Sim, estamos falando de Olavo de Carvalho. Ou melhor, de Orvalho de Farfalho, o responsável por apresentar algum material intelectual a Botnaro. Talvez daí que venham as pitadas eruditas em descalabros típicos do homem que inspirou o personagem: "Pau-de-arara funciona. Sou favorável à tortura, você sabe disso. O povo é favorável também. Violência se combate com violência. Como diria o nosso patriota Machado de Assis, a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e alguma vez o cruel. O Brasil vai dar certo".

Do contato com Farfalho também vem certa fixação do protagonista por questões anais. O personagem ainda mostra uma improvável simpatia pelo latim, talvez adquirida ao receber a faixa presidencial do eterno vice decorativo. Botnaro, aliás, parece absorver as ideias lunáticas de todos aqueles que, imaginamos, lhe cercavam em vida: filhos, ministros, secretários, assessores… Se no plano real essas palavras não pertenceram ao nosso Botnaro do Alvorada, na ficção elas ficam muito bem como um tuíte do ex-presidente: "O rock and roll ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto, que por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon, seguidor de Aleister Crowley, fez um pacto com o diabo para destruir a tradicional família americana!!!"

Inicialmente, a impressão é que o leitor está diante de uma sátira bonachona. Os jogos de palavras dos nomes remetem ao Casseta & Planeta de meados dos anos 1990. "Em memória do Coronel/ Brilhante Pústula/ Para Edir do Méier/ O bezerro de Deus", temos na dedicatória, por exemplo. No entanto, com o passar das páginas, os absurdos se amontoam e lembramos que as mensagens tresloucadas que compõem "Tuítes Póstumos de um Herói Nacional" são terrivelmente reais. Não por acaso, o presidente de verdade anda sendo repreendido pelo próprio Twitter e por outras redes sociais graças aos absurdos que posta em suas contas.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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